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METAFÍSICA DA MÚSICA POLIFÔNICA

PALLIS, Marco Alexander. A Buddhist spectrum: contributions to Buddhist-Christian dialogue. Bloomington, Ind: World Wisdom, 2003.

  • A descoberta da possibilidade de criar música composta de várias partes melodiosas movendo-se simultaneamente em relação estreita e mutável umas com as outras constitui realização singular do gênio artístico europeu, mais especificamente do gênio cristão ocidental, cuja espiritualidade se reflete nessa forma musical.
    • A modulação harmônica, como outra face da polifonia, forneceu aos compositores meio de grande potência emotiva.
    • O uso litúrgico dessa música permitiu corresponder aos estados da piedade cristã sugeridos pelos textos escriturísticos.
    • Alegria, contrição, triunfo, resignação, expectativa orante e recolhimento místico encontraram expressão tonal capaz de comover os fiéis.
    • Configura-se uma verdadeira teologia sonora pela qual as verdades do cristianismo se comunicam diretamente à inteligência de ouvintes simples ou instruídos.
  • A polifonia consagrada, em consonância com as tendências teológicas e devocionais do Ocidente, desempenhou a função de complementar a monodia gregoriana, dela extraindo material temático e preservando a primazia do cantochão como forma tradicional da Igreja.
    • Essa relação permaneceu norma durante séculos.
    • Tal princípio ainda vigorava quando os padres tridentinos reformaram o culto católico.
    • O mesmo princípio subsistia, ao menos teoricamente, no decreto sobre música sacra promulgado por Pio X.
  • A aceitação inicial da polifonia pela Igreja medieval conduziu progressivamente à sua predominância em todos os ramos da música europeia, suscitando a questão das motivações metafísicas subjacentes a inovação tão distinta da prática monódica predominante no restante do mundo.
    • Música sacra e profana, vocal e instrumental, alinharam-se ao modelo harmônico.
    • A música não harmonizada passou a soar anômala ao ouvido europeu.
    • Tal transformação não pode ser atribuída a mero acidente histórico.
    • Supõe-se a existência de intuições metafísicas profundas das quais a polifonia se tornou expressão natural.
  • A época contemporânea testemunha vigoroso renascimento do interesse pelas épocas em que a composição contrapontística atingiu perfeição máxima nos séculos XV, XVI e XVII.
    • Jovens afluem a concertos e igrejas onde essa música é executada.
    • Surgem grupos dedicados ao diálogo musical em ambiente doméstico.
    • Desenvolve-se zelo pela autenticidade histórica e rejeição de execuções modernizadas.
    • Arnold Dolmetsch figura como protagonista dessa restauração, cujas ideias antes contestadas tornaram-se amplamente aceitas.
  • O princípio segundo o qual cada gênero musical exige técnica própria, excluindo procedimentos alheios, manifesta intuição análoga ao ensinamento do Mahayana sobre a inseparabilidade de Sabedoria e Método.
    • O estilo e o conteúdo representam o aspecto de sabedoria.
    • As técnicas e instrumentos correspondem ao método.
    • Sabedoria e método complementam-se e interpenetram-se.
    • Arnold Dolmetsch inculcou esse princípio por meio de ensino exemplar.
  • A transformação na sensibilidade musical contemporânea alterou radicalmente não apenas o gosto, mas o próprio modo de escutar.
    • Obras breves e densamente contrapontísticas satisfazem plenamente a atenção do ouvinte atual.
    • A geração anterior preferia composições longas de textura mais diluída.
    • Intérpretes e ouvintes reajustaram sua escala de valores musicais.
  • A tentativa inédita de ressuscitar amplamente o passado musical distingue o século XX de épocas anteriores, que aceitavam o desaparecimento natural de obras mesmo-primas.
    • A atitude antiga revelava certa abnegação.
    • Na Europa, a ideia de criação individual ganhou destaque com o advento da polifonia.
    • O culto consciente da originalidade intensificou-se a partir do Renascimento.
    • Em tradições estritamente tradicionais, o gênio não assumiu caráter obsessivo.
  • O vasto empreendimento de reviver músicas antigas surge como paradoxo em época marcada pela ideologia do progresso, levantando a questão do que se busca reencontrar nessas obras.
    • Percebe-se necessidade urgente que não encontra satisfação em outros meios.
    • Interroga-se sobre o conteúdo essencial presente nessa música.
  • O renascimento musical contemporâneo sugere tentativa implícita de preencher o vazio espiritual deixado pelo afastamento do cristianismo no Ocidente, dado o caráter especificamente cristão da polifonia.
    • A atração por essa música pode corresponder a instinto de retorno.
    • A questão assume natureza metafísica.
    • Interroga-se sobre a mensagem inscrita na própria substância da polifonia.
  • A música, como toda arte genuína, oferece imagem do Universo no nível dos Mistérios Menores e pode servir de suporte contemplativo refletindo a Beatitude divina.
    • A fruição musical espelha alegria transcendente.
  • A talidade divina, inefável e imanifestável, corresponde à experiência humana do silêncio, do qual o som nasce e ao qual retorna, sendo a tônica imagem da Unidade originária e causa eficiente de todos os efeitos musicais.
    • A tônica permanece presente ao longo da composição.
    • Causa e efeitos mostram-se inseparáveis.
    • O Intelecto divino contém permanentemente tudo o que foi ou será criado.
  • O universo criado caracteriza-se por mudança, competição e impermanência, onde os seres convergem, divergem e colidem segundo forças relativas.
    • Todo mundo implica contraste e oposição.
    • Contatos e colisões desviam trajetórias.
    • O processo repete-se indefinidamente.
  • Tal dinâmica espelha o contraponto musical, cujo jogo de tensões e resoluções expressa a unidade de origem e explica seu poder de comover.
    • O rigor contrapontístico dos séculos XV a XVII intensifica o efeito sobre intérpretes e ouvintes.
  • Na fantasia para violas ou na música sacra do período, a enunciação temática gera concordância ou contraste que conduz a colisões e resoluções até o retorno final à unidade.
    • Repetições ou novos sujeitos instauram dualidade.
    • Discordâncias representam oposição.
    • A busca de liberdade prossegue enquanto dura o processo.
    • A paz encontra-se apenas no retorno à unidade originária.
  • A lógica interna do contraponto determina crescendos e diminuendos como expressão necessária das relações entre partes, excluindo arbitrariedade subjetiva.
    • A intensificação inicia-se sempre em parte determinada.
    • As demais partes respondem proporcionalmente.
    • A disciplina consiste em obedecer aos sinais da estrutura.
    • Trata-se de arte situada entre ciência e arte propriamente dita.
  • O contraponto existencial chamado vida constitui busca da unidade sempre pressentida, cujas cadências temporárias figuram micro-imagens da reconciliação dos opostos.
    • Cada nota da cadência exige tratamento específico.
    • A execução coletiva correta antecipa experiência de unidade.
  • Assim como Deus é descrito como grande Arquiteto do Universo, pode ser igualmente concebido como grande Contrapontista, pois a criação implica expressão dinâmica do ser no devir.
  • O contraponto, musical ou existencial, afirma a presença imutável da unidade através das vicissitudes da multiplicidade e revela o mistério da existência ao reduzir as oposições ao princípio originário.
    • Cada processo nasce continuamente dessa unidade.
    • Sua execução inteligente oferece proveito espiritual àqueles capazes de escutar.
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