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ABORDAGENS DA VERDADE
SCHAYA, Léo. La Création en Dieu: à la lumière du judaïsme, du christianisme et de l’islam. Paris: Dervy, 1983.
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No caminho da descendência espiritual de Abraham rumo à Verdade ocorre uma bifurcação em que a massa dos fiéis segue a via religiosa exotérica voltada à coexistência com Deus e os contemplativos seguem uma via esotérica voltada à realização imediata da identidade interior com o único Verdadeiro e Real.
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A via exotérica é apresentada como ensino público e amplo orientado para uma convivência tão perfeita quanto possível com Deus.
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A via esotérica é apresentada como senda mais ou menos oculta e puramente espiritual centrada na realização da identidade essencial com o Absoluto aqui e agora.
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Um aspecto decisivo dessa clivagem aparece na doutrina da criação comum às três religiões irmãs, cuja compreensão diverge conforme a leitura exotérica ou esotérica das Escrituras, em interpretações distintas adaptadas às capacidades intelectuais desiguais.
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Distinção entre interpretações humanas da Revelação e a Palavra divina, com leituras ajustadas à compreensão média da maioria e à inteligência contemplativa da elite espiritual.
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As formulações reveladas admitem múltiplas leituras para atender necessidades de causa e finalidade, visando a salvação da alma individual e a realização espiritual da Essência divina por seres prontos a se apagar e a se reintegrar nela.
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No judaísmo, há uma gradação interpretativa desde a leitura literal até o simbolismo, o aprofundamento discursivo e o comentário místico ou metafísico, sem abolir os graus inferiores, mas integrando-os.
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A tradição esotérica antiga usa graus inferiores como barreiras pedagógicas por meio de fórmulas veladas que afastam da Verdade pura os não preparados e permitem sua descoberta aos aptos.
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A prática de reservar o acesso à Verdade segue exemplos das Escrituras e de seu Revelador supremo, como a advertência no Sinai a Moisés, a explicação de Jesus sobre parábolas e a afirmação do Zohar quanto à divulgação dos mistérios na aproximação da era messiânica.
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Em Êxodo XIX, 21, o Sinai apresenta barreiras para impedir que o povo ultrapasse limites ao buscar ver o Verdadeiro em estado de revelação, sob risco de perecer.
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Em Mateus XIII, 10-13, Jesus distingue discípulos e multidões quanto ao conhecimento dos mistérios do Reino, justificando as parábolas pela incapacidade de ver e compreender.
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Na aproximação do fim dos tempos, com confusão espiritual e falha do ensino por quem tem responsabilidade pelas almas, a via esotérica é descrita como desvelando os mistérios em público para salvar quem vê e ouve.
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O Zohar I, 118 a associa a aproximação da era messiânica ao conhecimento universal dos mistérios da Sabedoria, inclusive por crianças.
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No passado, mestres esotéricos cercaram os mistérios da Doutrina revelada com véus derivados das barreiras do Sinai, produzindo fórmulas de dois aspectos, interior e exterior, e exigindo correção quando interpretações exteriores deformam a verdade revelada, como advertiu Rabbi Moshé ben Maïmon.
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Fórmulas de dupla face permitem que cada um compreenda segundo o grau de prontidão para entender e realizar.
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Algumas formulações exteriores foram reformuladas por exotéricos, sendo normal limitar-se a graus inferiores, mas também normal corrigir quando há deformação ou inversão.
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Rabbi Moshé ben Maïmon (Maimônides, século XII), no Guia dos Perplexos, II, cap. 29, exemplifica o risco de falsas interpretações por diferença de língua e por palavras cujo sentido se inverte entre falante e ouvinte.
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A exegese das Escrituras das três religiões abraâmicas é ilustrada pela frase inicial da Bíblia, também reafirmada pelo Evangelho e pelo Corão, cuja leitura no judaísmo gerou concepções opostas de criação que espelham a bifurcação entre exotéricos e esotéricos, contrapondo criação a partir do nada e criação a partir de Deus e em Deus, com releitura do nada como Realidade suprema.
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A frase “No começo Deus criou os céus e a terra” é apresentada como resumindo os mistérios do Gênesis e inaugurando o criacionismo monoteísta.
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A divergência central opõe a doutrina exotérica da criação a partir do nada à doutrina esotérica da criação a partir e no seio de Deus.
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Uma complementaridade é admitida: “do nada” pode significar “de nada que seja outro que Deus e fora dele”, no grau supremo de leitura do Mistério.
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O “nada” (aïn) é tomado como símbolo da Realidade suprema: o indeterminado, o incondicionado, a Essência inefável, o Sobre-Ser ou Não-Ser, também designado como o Infinito (en-soph) por implicar indistintamente o Ser (yesh, havayah, eheyeh) e a criação universal (beriyah).
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Na terminologia esotérica, a expressão criação a partir do nada, ou beriyah yesh me-aïn, é uma forma simbólica de falar do Sobre-Ser divino do qual se determina o Ser causal e inteligível como Sabedoria, determinando também o efeito cósmico contido em essência e atualizado em Deus por manifestação relativamente descontínua.
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O Ser causal é apresentado como o Começo eterno e como Sabedoria, pela qual o efeito cósmico é conhecido e determinado em Deus.
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A descontinuidade relativa distingue Deus e criação sem postular um nada absoluto fora de Deus.
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A fórmula rabínica afirma: “O Santo, bendito seja, é o Lugar do seu universo, mas seu universo não é o seu lugar”, indicando imanência e transcendência simultâneas.
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Gershom G. Scholem, em Les origines de la Kabbale, descreve a passagem do Sobre-Ser/Nada divino ao Ser-arquétipo da Sabedoria e cita Azriel de Girona sobre “fazer do seu Não-Ser o seu Ser” contra a leitura literal de “fazer o ser a partir do nada”.
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Scholem observa que o verbo bara, no plano exotérico, significa criar a partir do nada e, no plano esotérico, significa fazer emanar, sendo tal linguagem um símbolo da autodeterminação do Ser causal como ato de ser e conhecer, com Deus como causa de si mesmo e com manifestação cosmogônica relativamente descontínua.
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A “emanação” é colocada no plano do Ser causal transcendente e imanente, não como fluxo contínuo para efeitos criados.
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A autodeterminação divina é associada a Êxodo III, 14, com a proclamação “Eu sou o que sou” (eheyeh asher eheyeh).
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O Zohar I, 15 a descreve simbolicamente a irradiação ou desdobramento em Deus da realidade luminosa do Ser inteligível, a hokhmah.
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A doutrina cabalística dos quatro mundos situa a emanação incriada nos dois mundos superiores e a criação manifestada nos dois inferiores, articulando continuidade intrínseca e descontinuidade extrínseca entre Deus e cosmos e identificando Elohim com a Shekhinah como Presença imanente pela qual tudo vive.
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Olam ha-atsiluth é o Mundo da Emanação; olam ha-beriyah é o Mundo da Criação prototípica; olam ha-yetsirah é o Mundo da Formação; olam ha-asiyah é o Mundo da Ação.
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Tiqqune’ Zohar XIX descreve os dois mundos superiores cheios da luz santa e os inferiores como luz enfraquecida pela descontinuidade relativa ligada ao tohu va-bohu e ao fiat lux.
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Tiqqune Zohar afirma que no começo do Gênesis aparece apenas Elohim, designando a Shekhinah, porque tudo criado vive em Elohim e por Elohim, de Hayoth e Seraphim até o menor verme.
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A relação entre Deus e criação é exposta como descontinuidade existencial efetiva mas relativa por continuidade essencial, negando a existência de um nada absoluto e citando Deuteronômio e Isaías para afirmar a exclusividade do Absoluto, com Azriel explicando a identidade essencial entre Ser e Não-Ser no sentido do Sobre-Ser.
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A descontinuidade absoluta equivaleria ao nada literal interposto por exotéricos, o que é negado por impossibilidade no Todo-Real.
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Deuteronômio IV, 35 e 39 afirma que não há outro além dele (ein od milwado).
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Isaías XLV, 6 afirma que não há nada exceto ele (ephes biladaï).
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Azriel ensina que nada existe fora de Deus e que Ser e Não-Ser são essencialmente unidos sem cisão e sem confusão de níveis.
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O Não-Ser como Sobre-Ser é designado por Azriel como superioridade sobre todos os aspectos divinos e como superior ao Todo, enquanto ha-kol designa o Ser como fundamento do universo criado e aparece em Eclesiastes na tematização da vaidade como princípio de ilusão cósmica contra a tese exotérica de novidade absoluta.
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Ha-kol é apresentado como o Todo ontológico e inteligível enquanto fundamento e causa universal.
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Salomão, em Eclesiastes, insiste na vaidade como princípio de ilusão cósmica e como oposição à ideia de criação como produção de algo absolutamente novo.
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A leitura exotérica de bara como “criar do nada” é associada à ideia de ação divina que produz algo totalmente novo e sem preexistência.
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Eclesiastes apresenta o Ser causal como princípio de ilusão e, ao mesmo tempo, como acesso intrínseco à Verdade das verdades, interpretando a vaidade das vaidades como superlativo e como dupla negação que conduz ao único Verdadeiro e Real, e articulando ciclos de manifestação e retorno à origem divina.
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“Vaidade das vaidades… tudo é vaidade” (I, 2) associa vaidade a ilusão e a dupla fórmula a uma afirmação do Real absoluto por negação de negação.
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A existência ilusória é produzida extrinsecamente, enquanto o acesso à realidade suprema é intrínseco ao Ser causal.
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“O que foi é o que será… não há nada absolutamente novo sob o sol” (I, 9-10) interpreta a recorrência como manifestação de arquétipos e retorno à preexistência.
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Imagens de geração, sol, vento, rios e mar, com Maqom como nome divino de centro onipresente, estruturam o retorno das manifestações à Essência.
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A interioridade humana é apresentada como lugar do Reino de Deus e da identidade essencial com a Essência absoluta, afirmando uma alteridade existencial sem alteridade essencial, e descrevendo a ilusão como realidade relativa que procede de preexistência divina e se atualiza em ciclos segundo a Determinação do Ser causal.
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O Reino de Deus e a criação são situados no interior do ser humano.
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A aparência criada à imagem de Deus pode revelar o Verdadeiro ou fazer esquecer e negar por sua alteridade.
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A ilusão não é nada absoluto nem novidade absoluta, mas realidade relativa proveniente de preexistência divina absolutamente real.
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Salomão, nos Provérbios, mostra a Sabedoria como acesso à Verdade das verdades e como Conhecimento próprio do Real que implica Determinação e Vontade universais, citando YHVH como possuidor da Sabedoria no Começo e atribuindo à Sabedoria a fundação da terra e o estabelecimento dos céus.
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Provérbios VIII, 22-23 apresenta YHVH como possuidor da Sabedoria desde a eternidade antes das origens da terra.
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Provérbios III, 19 afirma que por ou em a Sabedoria YHVH fundou a terra e estabeleceu os céus pela Inteligência.
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Salmos CIV, 24 afirma que as obras divinas foram feitas por ou em a Sabedoria.
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A exegese esotérica identifica be-reshith com be-hokhmah, entendendo a Sabedoria eterna como o Ser luminoso e causal que emerge do aïn, e interpreta Jó sobre a origem da Sabedoria como saída do “nada” divino, sob símbolos do Ponto, do Desdobramento e da Irradiação, ligando bara a emanar, irradiar e fazer ilusão sem reduzir o ato criador a emanação contínua.
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Jó XXXVIII, 12 é lido como afirmando que a Sabedoria sai do “de onde?” entendido também como “do nada”.
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O Ponto supremo simboliza a primeira determinação luminosa revelada em trevas mais que luminosas.
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A criação é descrita como irradiação do Infinito através de descontinuidade relativa, enquanto a extensão pertence aos reflexos finitos.
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O Zohar III, 290 a articula o símbolo de hokhmah como Pai e binah como Mãe, afirmando que sem a Sabedoria não haveria Começo e que ela é a origem de tudo, fundando o simbolismo masculino e feminino em Gênesis I, 27 e expandindo-o na explicação do tsimtsum como retirada parcial da luz para tornar possível a manifestação do finito.
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Gênesis I, 27 é citado como criação do ser humano à imagem de Deus sob aspectos masculino e feminino.
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A receptividade “feminina” é ligada à vacuidade criada pelo retraimento (tsimtsum) para receber a criação.
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O tohu-va-bohu e o abismo com trevas são associados ao receptáculo cosmogônico preenchido pela luz criadora do fiat lux.
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A explicação do tsimtsum é ilustrada por analogias e pela doutrina dos quatro mundos, negando qualquer diminuição divina e afirmando que a luz eclipsa tudo, incluindo Hayoth, Seraphim e Kerubim, e que a Shekhinah como Presença imanente cuida da criação como mãe, sendo Elohim o nome usado no início do Gênesis por designá-la.
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A analogia da taça cheia e da ligadura no membro descreve simbolicamente a descontinuidade relativa.
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O Todo indivisível é reafirmado contra qualquer ideia de crescimento ou diminuição de Deus.
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A Shekhinah é apresentada como agente direto da criação e como Mãe inferior, enquanto binah é Mãe suprema.
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A receptividade divina é apresentada como central também para a realização espiritual humana, pois os esforços de orientação ao único Verdadeiro e Real são correlatos da receptividade espiritual pela qual o ser humano participa da Receptividade divina escondida nele, e cabala é definida como recepção de Deus no ser humano e pelo ser humano.
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Deus é descrito como dando-se e recebendo-se no interior humano, irradiando luz a partir de uma “marca” (reshimu) ou “centelha” (nitsuts) no “coração” (lew).
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A união da alma a Deus é apresentada como ocorrendo no mesmo ato de recepção da irradiação divina.
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Cabala é vinculada ao sentido de recepção e torna-se sinônimo da tradição esotérica judaica.
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A Receptividade divina é simbolizada como Véu ou Cortina suprema que recebe a Irradiação ontológica e separa o Ser causal do cosmos, exprimindo descontinuidade relativa e continuidade essencial, com a Cortina ocultando e ao mesmo tempo deixando transparecer a luz que habita nela e irradia na criação como Reino.
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O cosmos é descrito como produzido pela luz infinita penetrando a obscuridade do véu e manifestando-se em estado refratado e finito.
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A alteridade existencial das imagens cósmicas não implica alteridade essencial.
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A continuidade subjacente é afirmada como unidade infinita sob a descontinuidade.
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O Idra Rabba Qadisha descreve o Sobre-Ser como Ancien des Anciens que puxa diante de si uma Cortina para que comece a se desenhar o Reino, identificando Kether elyon como princípio supremo, hokhmah como Pai e binah como Mãe suprema, e articulando o surgimento do Reino imanente por meio de seis determinações fundamentais que culminam em Malkhuth.
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A Cortina é binah como princípio receptivo transcendente, e o Reino é a receptividade cosmológica e imanente.
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As seis sefirot ativas são descritas como determinações qualitativas do criado, e a sétima é Malkhuth, o Reino ou Shekhinah.
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As sete sefirot são determinadas por binah como princípio de discernimento e descontinuidade, enquanto a luz indiferenciada provém de hokhmah.
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O simbolismo da Cortina é correlativo ao tsimtsum, pois ao puxar a Cortina o Ser causal se retrai em si mesmo, fazendo da opacidade uma treva principial receptiva que não é nada absoluto, mas primeira descontinuidade relativa, na qual a criação aparece como reflexo criado da Determinação cognitiva e volitiva da Sabedoria no espelho da Inteligência.
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A treva da Cortina é descrita como condição receptiva para a luz transparecer segundo a Vontade universal.
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O reflexo criado é apresentado como determinação da Sabedoria no espelho receptivo e refletor da Inteligência.
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Deus é descrito como oculto em tudo o que cria, com realidade luminosa residindo no fundo de reflexos que constituem o miragem cósmica.
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O mistério cosmogônico é correlacionado ao tema da vaidade das vaidades e é encerrado com o exemplo de Provérbios IX, 1, onde a Sabedoria constrói sua Casa e talha sete Colunas, interpretadas como binah e as sete sefirot, conectando-as às sete vaidades e aos sete firmamentos segundo o Zohar.
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A Casa é binah como receptáculo e habitáculo, e o Palácio é binah em aspecto ontológico não manifestado, enquanto a Casa de baixo é o Reino, Malkhuth.
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As sete Colunas são as sete sefirot da construção cósmica atualizadas pela inteligência discriminante.
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O Zohar II, 10 b relaciona as sete “vaidades” às sete colunas e aos sete firmamentos: Vilon, Raqiya, Shehaqim, Zebul, Ma’on, Makhon, Araboth.
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As sefirot são apresentadas como parte da unidade essencial com Kether-hokhmah-binah e como dezena ontológica quando causas criadoras de onde provêm verdades e vaidades.
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