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HOMEM E ABSOLUTO SEGUNDO A CABALA
SCHAYA, Leo. L’Homme et l’Absolu selon la Kabbale. Paris: Dervy-Livres, 1977.
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Para compreender as premissas intelectuais da Cabala ou do esoterismo judaico, é necessário reconhecer que suas doutrinas partem da contemplação espiritual, da inspiração pura ou da intuição intelectual, e não de uma atividade autocrática da razão.
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O pensamento meramente lógico, ao tentar superar o plano dos fenômenos por abstração para alcançar o Princípio transcendente, reconhece seus limites impostos pelas condições do conhecimento distintivo.
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A proliferação de sistemas filosóficos mostra que esse reconhecimento nem sempre ocorre de fato.
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As dificuldades internas do raciocínio provam que construir teorias não basta para apreender o Real em si.
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Apenas doutrinas tradicionais e, portanto, inspiradas, ultrapassam os círculos viciosos do mental e indicam o caminho de saída rumo ao Intelecto puro, universal e incriado.
Segundo a Cabala, e também segundo o neoplatonismo e o vedantismo, o Espírito habita o mais profundo da alma ao mesmo tempo em que a transcende, e dele procedem a alma e todas as manifestações formais e distintas, internas ou externas, enquanto ele próprio permanece sem forma e sem distinção.-
No Espírito, sujeito e objeto do conhecimento são um.
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O Espírito conhece plenamente a si mesmo, sendo o conhecimento total e tudo o que é cognoscível, em si e nas coisas.
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A alma e as formas derivam dele sem que ele se torne forma.
O pensamento é apenas um plano individual e formal de reflexão do cognoscível e move-se sempre entre um sujeito mental e um objeto mental, de modo que aquilo que nele se reflete é assimilado apenas como forma mental e não como realidade concreta ou supraformal, espiritual e universal.-
O pensamento funciona como espelho psíquico e racional de todas as coisas inteligíveis, sem jamais tornar-se aquilo que reflete.
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A assimilação mental não captura a forma corporal nem a forma sutil do objeto, e menos ainda sua realidade supraformal.
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O conhecimento obtido pelo pensamento é simbólico: aproxima o pensador das coisas, mas não o identifica realmente com elas.
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O dualismo entre sujeito e objeto permanece e faz com que o homem que se conhece apenas pelo pensamento não se assimile verdadeiramente a si mesmo.
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O dualismo inerente ao pensamento é causa de dúvida e erro, enquanto o Espírito é unidade real e, por isso, certeza e verdade do conhecimento.
A Verdade não pode ser encontrada pelo pensamento sozinho, mas tampouco pode ser encontrada sem nenhum concurso do pensamento, pois a própria noção mental de Verdade indica um vínculo entre pensamento e Real cujo fundamento interior é o Espírito.-
A ideia mental de Verdade existe e se opõe ao erro, identificando-se ao conceito do Real.
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Externamente, isso mostra uma relação entre pensamento e Verdade; internamente, essa relação é o próprio Espírito.
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O Espírito conduz à Verdade.
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O pensamento funciona como ligação entre o homem e o Espírito e, ao mesmo tempo, como obstáculo por seu dualismo orgânico, expresso em dúvida e erro.
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O pensamento não ultrapassa o erro nem se integra na Verdade sem conformar-se ao Espírito e finalmente apagar-se nele.
A passagem de Isaías (55, 7-9) convoca o abandono do caminho do ímpio e dos pensamentos do homem de iniquidade e afirma que os pensamentos e caminhos divinos estão acima dos humanos como os céus acima da terra.-
O retorno a YHVH é associado à compaixão e ao perdão inesgotável.
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A distância entre o divino e o humano é figurada pela elevação dos céus.
O Pensamento divino, arquétipo eterno e supremo do pensamento humano, possui dois aspectos essenciais, sabedoria metacósmica e inteligência cósmica, pelos quais Deus conhece tanto sua realidade não manifestada e infinita quanto sua manifestação e a criação limitada e transitória.-
Pela sabedoria, Deus conhece sua realidade não manifestada e infinita.
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Pela inteligência, Deus conhece sua manifestação e a criação dela derivada.
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A sabedoria determina os arquétipos incriados.
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A inteligência manifesta esses arquétipos como realidades espirituais e supraformais que se revestem de substância sutil e de matéria grosseira para dar origem aos céus e à terra.
A passagem de Isaías (55, 10-11) compara a eficácia da Palavra divina à chuva e à neve que descem dos céus, fecundam a terra e não retornam sem efeito, afirmando que a Palavra não volta sem executar a vontade e cumprir os desígnios de YHVH.-
A imagem insiste no caráter eficaz e realizador do verbo divino.
Pela sua primeira emanação, o Pensamento como primeira irradiação ontológica do Ser causal, Deus determina todas as coisas, e pela sua primeira manifestação espiritual, a Palavra, Deus cria todas as coisas e revela simultaneamente sua razão de ser, atuando como ato criador, revelador e redentor.-
Todas as verdades que podem ser expressas estão contidas nessa revelação divina.
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Ao descer à terra, a Palavra una e universal se multiplica em línguas ou revelações diferentes, destinadas às diversas partes da humanidade.
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O único Verdadeiro e o único Real respondem, sob formas sagradas variadas, às compreensões e temperamentos dos grandes tipos humanos.
A ideia da unidade transcendental das religiões, exposta por René Guénon, Frithjof Schuon e Ananda K. Coomaraswamy, afirma a identidade dos princípios essenciais das diferentes revelações ortodoxas, reconhecível pelo aprofundamento metafísico de dogmas e símbolos.-
As expressões variam de uma religião a outra, mas, à luz da Verdade supraformal e universal, perdem o caráter antinômico e coincidem essencialmente no Uno.
Para superar o erro dualista alimentado por aparentes contradições entre revelações ortodoxas, é necessário evitar sincretismo fantasioso e, ao contrário, respeitar estritamente os contornos próprios de cada tradição, pois é no fundo da unicidade de cada uma que se encontra a unidade comum e supraformal, o único Pai e Deus.-
A luz puramente espiritual, criadora e redentora, é a mesma em toda parte, como a luz do sol sobre paisagens diferentes.
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Quando a inteligência supera o plano formal de dogmas e símbolos e penetra no reino de seus arquétipos sem forma, torna-se visível que a claridade do Uno se fraciona apenas extrinsecamente em raios reveladores.
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Esses raios, embora sigam direções diferentes e se “coloram” de modos diversos, partem de um mesmo centro, revelam os mesmos mistérios e reconduzem à mesma origem e fim de todas as coisas.
Evidenciar, por uma metafísica comparada, a identidade transcendental das religiões comunica conhecimento teórico que reconduz ao Uno sem segundo, enquanto expor os ensinamentos de uma única doutrina sagrada constitui outro meio adotado ao buscar no judaísmo a sabedoria perene reconhecida também nas tradições hindu, budista e sufista.-
A mesma sabedoria é identificada sob outra forma nas fontes judaicas e também nas cristãs.
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A tradição esotérica de Israel facilita a construção de uma ponte espiritual entre a forma particular do judaísmo e as formas de outras religiões ortodoxas.
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O livro limita-se à Qabbalah como recepção e transmissão dos mistérios divinos no seio do “povo eleito”, deixando ao leitor experiente o estabelecimento de analogias reais com outras doutrinas tradicionais.
Entre intérpretes contemporâneos da Cabala, menciona-se G. G. Scholem, cujo aprofundamento teórico permitiu obter visão global do esoterismo judaico, embora a teoria cabalística ainda exija muitos esclarecimentos além do plano histórico e filosófico.-
Não se pretende esgotar a riqueza doutrinal da Cabala.
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O foco recai sobre o ensinamento das Sephiroth como dez aspectos principais de Deus, apresentados como chaves espirituais para considerar sua total realidade.
No livro, ao lado de metafísica e cosmologia, destaca-se o mistério do Nome divino, considerado tanto em seu aspecto intrínseco quanto em sua natureza salvadora, sem entrar em questões propriamente metodológicas.-
A exposição se limita a um trabalho de teorização.
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A dimensão salvífica do Nome é mantida em primeiro plano.
A sentença “Buscai e encontrareis” é retomada como exortação final.-
A busca é apresentada como condição de encontro.
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