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MUNDO CORPORAL E ABISMO CÓSMICO

SCHAYA, Leo. L’Homme et l’Absolu selon la Kabbale. Paris: Dervy-Livres, 1977.

  • O versículo de Isaías que descreve o céu como o trono e a terra como o escabelo de YHVH estabelece a ligação hierárquica entre os mundos, indicando sua função como suporte espiritual e substancial para a Presença reveladora e redentora de Deus.
    • O Trono divino constitui a cristalização primeira e a síntese de todas as possibilidades criaturiais em seus aspectos espirituais, sutis e corpóreos.
    • A Schekhinah utiliza essa criação sintética como veículo em Sua descida até o limite inferior da extensão cósmica, permitindo o florescimento das coisas em seus planos existenciais.
    • Enquanto o Trono representa a revelação celeste da Schekhinah, o Escabelo manifesta Sua irradiação terrestre através da matéria e da substância anímica.
    • O mundo corpóreo possui natureza tripla de Espírito, alma e corpo, simbolizada pelo Zohar como uma pedra composta de fogo, água e ar.
  • A pedra fundamental ou escabelo divino revela a Tri-Unidade suprema no plano inferior, onde a quintessência material simboliza a essência indeterminada de Kether ou Ain por meio da analogia inversa.
    • A luz do Espírito imanente no mundo manifesta a irradiação causal de Hokhmah.
    • A substância sutil das almas e dos céus atua como o reflexo cósmico da receptividade divina de Binah.
    • A pedra fundamental torna-se pedra filosofal para o homem que, ao contemplar seu centro, atinge o conhecimento divino e deificante.
  • A natureza do universo corpóreo é explicada pelo Zohar como o resultado de uma pedra preciosa destacada debaixo do Trono de Glória e mergulhada no abismo por Deus.
    • Uma extremidade da pedra permaneceu fixada no fundo do abismo, enquanto a parte superior emergiu para constituir o núcleo e o ponto de apoio do mundo.
    • O ponto de partida do mundo recebe o nome de Schethiyah, termo composto por Schath e Yâh, significando a fundação estabelecida pelo Santo.
  • O desdobramento do universo corpóreo ocorre a partir da pedra Schethiyah, que representa a cristalização das possibilidades terrestres outrora mergulhadas no caos tenebroso.
    • A parte inferior da pedra permanece no fundo, enquanto a parte superior contém as possibilidades de formação que constroem o núcleo do mundo material.
    • A cosmogonia distingue-se nas fases de caos e de Fiat Lux, precedidas pelo ato criador central da manifestação simultânea de todos os mundos descrita por Isaías.
    • A evolução das possibilidades terrestres ocorre de modo analogicamente inverso ao plano superior, expandindo-se no espaço e no tempo a partir do abismo.
    • Sete fases de clarificação material conduzem ao Fiat Lux, seguidas por sete fases de formação corpórea que culminam no Sabbat e no estado paradisíaco.
  • Os elementos corpóreos procedem da quintessência indistinta do Éter de maneira oposta aos seus arquétipos celestiais, surgindo como sombras ou imagens invertidas dos elementos de cima.
    • Enquanto os elementos superiores derivam das quatro Hayoth, os inferiores procedem da parte caótica da pedra fundamental.
    • A massa confusa de elementos obscuros preenche o abismo terrestre em um estado inicial descrito pelo Gênesis como informe e vazio.
    • O Zohar descreve a purificação sucessiva de Tohu e Bohu pelo sopro do Vento divino, eliminando a impureza para extrair os elementos terra e água.
    • As trevas purificadas passam a conter o elemento fogo, enquanto o Vento que pairava sobre as águas é purificado para conter o murmúrio da voz de YHVH no elemento ar.
    • A elevação gradual dos elementos em direção à translucidez do Éter prepara o universo corpóreo para receber a luz redentora do Fiat Lux.
  • A revelação do Verbo divino como luz que emerge do mistério do Éter inaugura o movimento harmonioso dos corpos astrais e terrestres sob a regência de Metatron.
    • Energias angélicas denominadas Ophanim e Galgalim realizam as gravitações espirais que movem os elementos até os confins dos mundos.
    • A criação inteira é impelida a uma rotação contínua em torno da Coluna do Meio, que atua como o eixo espiritual da manifestação.
  • A união dos quatro elementos materiais com os quatro pontos cardinais forma um corpo único à imagem dos mundos superiores, integrando o mistério da fé e do Carro celestial.
    • Os elementos primitivos emanam das Hayoth e das quatro letras do Nome YHVH, servindo como origem e raiz de todas as coisas.
    • A distribuição geográfica dos elementos vincula o fogo ao Norte, o ar ao Leste, a água ao Sul e a terra ao Oeste.
    • A combinação dos elementos, metais principais e pontos cardinais totaliza o número doze, simbolizando o desdobramento do Zodíaco e a unidade do mundo terrestre revelada pelo homem.
  • O cumprimento das fases formadoras nos seis dias da criação conduz ao Sabbat, refletindo o equilíbrio entre Espírito e matéria estabelecido pelas Sephiroth da construção.
    • A separação divina entre luz e trevas marca o início da fase formativa que sucede os ciclos anteriores de clarificação material.
    • O Livro do Arcano e a Pequena Assembleia descrevem os mundos primitivos como chamas volantes ou reis de Edom que pereceram por falta de equilíbrio e formação.
    • A subsistência da obra divina foi garantida quando o Ancião sagrado conferiu forma masculina e feminina à criação, permitindo a união estável entre espírito e substância.
  • O país de Edom identifica-se com o mundo de Bohu, onde manifestações anímicas efêmeras tentaram sem sucesso encarnar em uma substância material ainda instável.
    • Hadar e sua esposa Mehethabeel prefiguram a humanidade ao unir espírito e substância, embora sem a perfeição definitiva alcançada por Adam e Eva.
    • As configurações das fases anteriores ressuscitaram nos sete dias da criação para serem moldadas em formas definitivas sob a influência do Verbo divino.
    • A formação de Adam no sétimo dia representa o ápice do equilíbrio paradisíaco e o início do domínio humano sobre o mundo.
  • A Cabala situa o estado terrestre do Sabbat na terra superior chamada Tebel, posicionando abaixo dela seis outras terras que representam estados fragmentários e menos perfeitos.
    • A doutrina das sete terras, presente no Talmude e no Sepher Yetsirah, descreve regiões hierarquicamente sobrepostas denominadas Erets, Adamah, Guée, Neschiah, Tsiah, Arqa e Tebel.
    • Embora as terras tenham as Sephiroth construtivas como arquétipos, apenas Tebel é o símbolo perfeito e integral da Década divina, abrigando o homem como sua imagem.
  • O estabelecimento do equilíbrio criaturial no Fiat Lux ocorre sob a influência das sete Sephiroth construtivas, culminando na residência da Schekhinah no mundo inferior.
    • Existe um vínculo cosmológico entre os mundos anteriores e as terras atuais, onde os reinados de Edom servem de protótipo para os planos inferiores e inacabados.
  • O estado humano constitui o cume do desenvolvimento cíclico e o objetivo final da obra criadora, onde o ponto superior de Deus se revela como ponto inferior na imanência redentora.
    • O homem é a síntese inferior e o símbolo mais explícito da realidade divina, permitindo que Deus se conheça no criado e que a criação seja reintegrada em sua origem.
  • O centro espiritual de Tebel abriga o Paraíso terrestre, cujos sete graus se elevam até o domínio sutil, coexistindo com os sete infernos que atuam como inversões tenebrosas desse plano.
    • Enquanto os paraísos se elevam em direção à substância celeste, os infernos são moradas de impureza e misturas caóticas de Tohu que preenchem o abismo.
    • Satã, o adversário e contrafação da Imanência divina, reina sobre os elementos informes e demoníacos no ponto de queda cósmica.
    • O mundo de Tohu situa-se abaixo dos graus de clarificação material e preserva uma hierarquia residual que reflete a ordem cósmica na natureza primordial.
    • Os infernos são sombras das Sephiroth criadoras, existindo apenas como inversões do Bem para evitar o nada absoluto e permitir a manutenção da ordem negativa.
  • A origem do mal e de Satã remete à contração de Deus e à degeneração das possibilidades cósmicas que se apegaram ao seu próprio prazer existencial, esquecendo a Causa suprema.
    • O esquecimento da essência transcendente transformou a afirmação própria do criado em negação, exigindo que a Graça assumisse o aspecto de Rigor para negar essa negação.
    • Da Sephirah Dîn procedem o julgamento, a morte e o inferno, domínios onde opera a má tendência ou Yetser hara, identificada como o anjo da morte.
    • A má tendência está contida na boa tendência, assim como o Rigor está na Graça, servindo ao desejo divino de criar o finito por meio da autolimitação ilusória do Tsimtsum.
    • O Rigor divino visa, em última instância, negar toda negação para reafirmar o único Real, embora esse processo ocorra de forma gradual no miragem cósmico.
    • O homem foi criado com ambas as tendências para vencer o mal pelo bem e reintegrar as oposições existenciais na união deificante do mundo vindouro.
    • Até a redenção final, as trevas e os elementos caóticos exercerão seu papel destruidor sobre as almas que escolherem o caminho descendente da má tendência.
    • A queda da alma no abismo tenebroso decorre dos pecados contra o Reino divino, sendo a Teschubah ou arrependimento o único meio de chamar o perdão e anular a queda.
    • A conformidade à Lei universal e o uso da inteligência discriminativa permitem ao homem integrar-se na ordem dos mundos e absorver-se nas qualidades do Criador.
  • A transição do homem para fora deste mundo é marcada por sete julgamentos que abrangem desde a separação entre espírito e corpo até a purificação ou punição post-mortem.
    • Os julgamentos incluem o testemunho das obras, o enterro, a decomposição física, a passagem pelo inferno e a eventual transmigração da alma para reparação de faltas.
    • O rei David exortou a louvação a YHVH e ao arrependimento antes do momento em que os membros do corpo perdem a capacidade de abençoar o Nome santo.
    • A má tendência assume aspectos de serpente tortuosa e anjo exterminador, recebendo sete nomes que simbolizam a impureza, a maldade e a pedra de tropeço.
    • Os sete nomes correspondem aos sete palácios do lado impuro, as inversões tenebrosas do Paraíso denominadas Poço, Precipício, Sheol e Terra Inferior.
    • A disposição circular dos palácios infernais reflete a hierarquia sephirothica, onde a obscuridade atinge sua intensidade máxima no terceiro palácio antes de se dirigir novamente à superfície.
    • Na redenção futura, Deus fará desaparecer o espírito impuro e destruirá a morte para sempre, unindo novamente o fim ao começo na luz divina.
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