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QUESTÃO DE ASTRONOMIA

* Os sistemas astronômicos de Ptolomeu e de Copérnico não podem ser legitimamente confrontados sem levar em conta a priori suas bases e intenções respectivas, pois cada um parte de fundamentos e objetivos distintos.

  • O sistema geocêntrico funda-se nas aparências naturais — profundamente providenciais — e no simbolismo, sendo inseparável de uma antropologia integral.
  • O sistema heliocêntrico funda-se nos fatos físicos e no desejo de saber, pretendendo permanecer independente de toda subjetividade humana.
  • O sistema geocêntrico tem razão nos fundamentos que lhe são próprios, pois a aparência do sol nascendo a leste e se pondo a oeste faz parte da natureza do homem e não pode ser fruto do acaso.
    • Essa aparência pode servir de base a uma ciência exata em sua ordem, tão complexa quanto o microcosmo humano.
    • O sistema heliocêntrico não é falso por isso: o desejo de explorar e saber é igualmente natural ao homem e se encontra em todos os climas tradicionais.
    • Ambos os pontos de vista têm legitimidade com seus próprios limites: o desejo de explorar, enquanto não gera especulações abusivas; o apego às aparências naturais, enquanto não se ergue absurdamente contra a evidência empírica.
  • As Escrituras sagradas e a mentalidade tradicional sempre se solidarizaram com o geocentrismo, mas isso não significa que sejam intrinsecamente contrárias aos fatos descobertos pela ciência profana.
    • Trata-se de uma solidariedade condicional, não absoluta.
    • Deus só se interessa pelo que é do interesse real e último do homem: não se interessaria por fatos cósmicos que o homem médio não pode observar em condições normais e que, se descobertos, ele seria incapaz de conciliar com os simbolismos espirituais.
    • O inumano coincide com o falso, pois a razão de ser do homem é a percepção do real essencial, não de todo fenômeno possível.
  • A curiosidade científica sempre existiu, mas nas condições normais foi delimitada por interesses mais importantes: a ciência metafísica, a religião, a pura intelecção e a fé salvadora.
    • As descobertas da astronomia moderna favorecem o ateísmo de fato, mas não por culpa dos dados em si — ninguém é obrigado a se tornar ateu por compreender que a terra gira em torno do sol —, e sim pela incapacidade dos homens de situar esses dados corretamente.
    • Os grandes astrônomos da Renascença eram crentes sinceros, assim como, antes deles, os astrônomos muçulmanos.
  • Um argumento em favor do geocentrismo é o fato de a terra ser o habitáculo do homem — a criatura-ápice cujo espírito é central e total —, o que tornaria lógico que os outros corpos celestes girassem ao redor dela.
    • Isso é verdadeiro em sua ordem, mas não anula a realidade do mecanismo físico, que por sua vez manifesta uma situação cosmológica e metafísica.
    • Tudo o que existe é uma mensagem de verdade: sob esse aspecto, o homem torna-se testemunha neutra de uma ontologia materializada, e a majestade do objeto prima sobre a do sujeito.
  • É aberrante querer fazer do sistema ptolemaico uma astronomia no sentido da ciência física exata e opô-lo assim ao heliocentrismo como se fossem concorrentes no mesmo plano.
    • O conceito de um sol girando em torno da terra é absurdo ontologicamente além de fisicamente, pois é inconcebível que uma massa-energia tão imensa quanto o sol gire em torno de um globo tão pequeno quanto a terra.
    • Os antigos não podiam conhecer essa desproporção, mas compensavam essa ignorância com conhecimentos metafísicos que faltam totalmente aos modernos e que evidentemente primam sobre o conhecimento dos fatos físicos.
  • Eminentes cientistas teriam observado que não se poderia decidir quem tem razão, Ptolomeu ou Copérnico, mas as sutilezas da teoria da relatividade não resolvem a questão aqui tratada.
    • Nosso sistema planetário, ou mesmo a galáxia inteira, representa um cosmos onde a relação entre centro e periferia existe sem contestação possível.
    • A teoria da relatividade não pode vir em socorro de Ptolomeu, assim como não pode abolir as noções de centro e periferia nem os princípios universais e metafísicos a que essas noções se referem.
  • A ciência profana dita exata tem sua eficácia e seus direitos, mas o cientismo filosófico e ostentador é uma questão inteiramente diferente.
    • Os vícios clássicos do cientismo são a ignorância metafísica e, por consequência, o empirismo e o materialismo exclusivos.
    • A ciência moderna ignora o princípio dos ciclos cósmicos e o dos graus da manifestação universal: ignora que o universo equivale a uma espécie de respiração divina — como o hinduísmo explicita — e que a matéria é apenas uma casca que dissimula substâncias cósmicas cada vez mais reais em ordem ascendente.
    • Essa ignorância, porém, não impede que as descobertas dos astrônomos correspondam a realidades em sua ordem, portanto a símbolos: a posição central do sol manifesta a prioridade do Princípio Supremo.
  • Um grau cósmico é como um círculo em torno de um círculo mais interior, ontologicamente superior, que o determina e pode determiná-lo de modo excepcional, sobrenatural e miraculoso — o que escapa aos físicos modernos, daí o ersatz que é o evolucionismo transformista.
    • De modo análogo, um ciclo cósmico é como uma rotação em torno de uma rotação mais interior ou mais primordial, cada uma determinada por um raio que emana do Centro absoluto.
    • O sistema de círculos concêntricos que constitui o mundo — assim como o movimento espiroidal dos ciclos — é projetado ou reabsorvido segundo as intenções arquetípicas do Centro absoluto.
    • O intelecto permite conceber isso, mas escapa às investigações de ordem puramente física.
  • A comparação entre Ptolomeu e Aristarco ou Copérnico ensina que há essencialmente dois gêneros de aparências: a que corresponde a uma substância e funciona como símbolo, e a que corresponde a um acidente e não é mais que uma ilusão sem alcance.
    • O nascer do sol representa um ensinamento fundamental; a miragem no deserto reduz-se a um simples erro de ótica.
    • O aparente movimento do sol e do céu estrelado constitui uma mensagem divina; o movimento da terra em torno do sol é apenas o mecanismo dessa mensagem em relação ao homem.
    • Deus não poderia enganar os homens: as aparências terrestres habituais são providenciais e manifestam uma mensagem espiritual fundamental, o que permite edificar ciências sobre esse gênero de imagens.
    • O que é descoberto ao romper o muro das aparências não desmente a intenção profunda dessas aparências, mas veicula por sua vez uma mensagem celeste.
  • O homem tem razão de duas maneiras: sendo perfeitamente ele mesmo, ou fazendo abstração perfeita de sua subjetividade.
    • Por um lado, o homem é a medida de todas as coisas — e isso é o que ensina o Gênesis.
    • Por outro, representa necessariamente uma subjetividade específica, portanto uma limitação: a verdade, embora inscrita na substância intelectiva humana, existe fora e acima do homem.
    • O humano mais profundo e mais autêntico, por definição, coincide com o divino.
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