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DOUTRINA DOS ESTADOS MÚLTIPLOS DO SER NO CRISTIANISMO
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A teoria dos estados múltiplos do ser, sendo de ordem metafísica, encontra dificuldades quando comparada com as doutrinas da teologia católica, mas essas dificuldades residem muito menos nos Textos revelados do que nas concepções que os interpretam, e menos ainda nos dogmas propriamente ditos do que em suas acepções mais ou menos oficiais baseadas em determinadas escolas teológicas.
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A doutrina de São Tomás não é sempre toda a teologia católica, nem a da Igreja Ocidental toda a Cristandade, nem a doutrina cristã em conjunto todas as doutrinas religiosas ou metafísicas.
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O acordo entre as formas doutrinárias é sempre reservado e salvaguardado em sua realidade profunda, ainda que de acesso não fácil nem sempre de demonstração evidente, e certas cisões e oposições mesmo na ordem esotérica mostram a dependência fundamental das coisas exotéricas em relação às esotéricas.
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Os doutores reconhecidos da Igreja e os mestres da vida espiritual na Cristandade não são de forma alguma contrários à doutrina do Si universal e dos estados múltiplos do ser; se nem todos a professam abertamente, tampouco a excluem.
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O Salmo 82 diz: “Eu disse: Vós sois deuses! Vós sois filhos do Altíssimo!”; no Novo Testamento, Jesus responde aos judeus que queriam lapidá-lo citando esse mesmo texto e afirmando: “Se a Lei chama deuses àqueles a quem a Palavra de Deus foi dirigida, e se a Escritura não pode ser anulada, como dizeis: 'Blasfemas!' porque eu disse: 'Sou o Filho de Deus?'”
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Esse aspecto incriado do ser é o fundamento doutrinário imutável de todos os teólogos e mestres verdadeiros da espiritualidade cristã.
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São Dionísio Areopagita ensina que “somos tipos ou exemplares das razões criadoras das coisas que preexistem na simplicidade da Essência divina”; Santo Agostinho afirma que é na eterna Verdade que se vê pela vista da alma a “forma” segundo a qual se é e segundo a qual se age; São Tomás de Aquino declara que “Deus é a primeira causa exemplar de todas as coisas” e que na Sabedoria divina estão contidas as razões de todas as coisas, que são as formas exemplares existentes na Inteligência divina.
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Para São Tomás, essas ideias, embora múltiplas enquanto se referem às coisas, não são realmente nada além da própria Essência divina, segundo a qual sua semelhança pode ser participada de diversas maneiras pelos diversos seres; Deus mesmo é o Primeiro Exemplar de todas as coisas.
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A continuação desse texto permite ainda vislumbrar uma hierarquia das coisas manifestadas segundo esse modo de participação exemplar: a primeira correspondência se daria sobre a horizontal, e a segunda, sobre a vertical, pois a analogia no sentido tomista permite remontar do conhecimento das criaturas ao de Deus.
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A presença das coisas no Princípio não é apenas abstrata ou de intenção sem realidade, como mostra a interpretação do início do Evangelho de São João: “todas as coisas foram feitas por Ele e sem Ele nada foi feito. O que foi feito era Vida nEle e essa Vida era a Luz dos homens.”
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Santo Agostinho, São Tomás e a maioria dos Padres gregos e latinos leem: quod factum est in Ipso Vita erat, ou seja, “o que foi feito era Vida nEle”; mas cada vez mais se pontua de modo a separar “rien de ce qui a été fait n'a été fait sans Lui” de “In Ipso Vita erat”, o que impede de ver imediatamente que o que foi feito era Vida nEle.
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Da mesma forma, “erat Lux vera quae illuminat omnem hominem venientem in mundum”, onde a Luz verdadeira ilumina todo homem que vem a este mundo, é atualmente traduzido de modo a obturar o aspecto de iluminação primordial de todo ser humano.
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Quanto à doutrina dos estados múltiplos do ser em São Tomás, não há divergência real com o continuo-contiguo em Dante nem com Guénon, desde que se admita que as formulações em doutrinas de função exotérica devem observar certas regras de sabedoria.
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Quando São Tomás diz que as coisas criadas têm um “ser incriado” no Intelecto divino, e lembrando que a Unidade divina é um atributo do Ser puro, há fundamento para um primeiro ponto da doutrina do Si universal e da multiplicidade dos estados do ser: a Identidade suprema do eu e do Si.
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A noção tradicional do coração, centro e síntese de toda a realidade do ser, é uma ilustração dessa continuidade vista sob o modo da unicidade essencial do ser manifestado; basta não restringir a alcance intelectual de uma noção como a do Sagrado Coração, e o testemunho de Bossuet — “o Coração de Jesus, eis qual é o mistério do Cristianismo” — poderia ser evocado do lado exotérico.
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A concepção dos estados múltiplos do ser atesta também a existência de Daímons, Gênios, Djins bons ou maus, situados entre anjo e homem, assim como seres engendrados entre anjo e homem ou entre djin e homem, e seres que participam simultaneamente do homem e do animal, como os seres míticos Centauros e Sereias.
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Seria grotesco que os mesmos que rejeitam tais seres aceitem a evolução das espécies, pois isso equivale a reconhecer, ainda que de forma irregular, uma continuidade dos estados do ser através da continuidade das formas de espécie.
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A similitude entre anjo e homem e entre homem e animal de que fala São Tomás se explica pela doutrina dos estados múltiplos: cada um dos seres dotados dessa similitude nos casos extremos comporta diferentes envoltórias correspondentes a planos ou modalidades de existência incluídos em sua natureza, organizadas de tal modo em cada ser que possuem uma fisionomia particular a cada caso; daí que se possa falar apenas de similitude e não de unidade ou identidade.
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A oposição que se quer encontrar entre São Tomás, que fala de similitude, e Dante, que fala de continuidade, é antes de aparência: o primeiro considera seres ou entidades, o segundo fala dos planos gerais de existência correspondentes, dizendo textualmente “na hierarquia que fazem os graus.”
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Em São Tomás se encontram menções que não apenas não proíbem como autorizam a ideia de continuidade entre os graus do anjo e do homem; a natureza composta do ser no grau da humanidade faz com que o elemento angélico seja impedido e obscurecido em boa medida, e apenas em casos totalmente excepcionais o homem poderá ser dito semelhante aos anjos quanto à parte superior, intelectual, da alma.
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São Tomás conclui: “o homem tem em comum com o anjo a faculdade de inteligir, mas carece da eminência destes… o intelecto do anjo é perfeito pelas espécies inteligíveis conformes à sua natureza, mas o intelecto humano está apenas em potência para as espécies desse modo.”
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A questão do Intelecto agente em São Tomás está em relação direta com a continuidade dos estados do ser: a definição mais restrita que esse Intelecto recebeu na teologia católica foi o resultado de um debate amplo e longo em que as bases da fé se viram às voltas com concepções de proveniência estranha e tendências divergentes.
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Numa visão menos simplificada, ou seja, mais metafísica, os diferentes aspectos que possui o intelecto humano podiam todos subsistir, como se pode constatar pelo exemplo de Buddhi nas doutrinas hindus; mas numa perspectiva exotérica e numa intelectualidade de tipo escolástico, uma opção teve de ser feita em favor de uma concepção simples e de uma formulação unívoca.
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Na solução tomista do Intelecto agente, em que se tratava de assegurar a responsabilidade do indivíduo, essa obturação se fez às expensas do aspecto transcendente do intelecto humano; tal caso de opção não é único na história teológica, e opções de sentido inverso, mas correlativas, ocorreram com a natureza e função do Espírito Santo no Cristianismo e com a natureza criada ou incriada do Corão no Islã.
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São Tomás havia inicialmente sustentado concepção totalmente diferente da que adotou finalmente sobre o Intelecto agente: afirmara que “certos doutores católicos haviam afirmado com bastante probabilidade que é o próprio Deus que desempenha em nós o papel de Inteligência ativa”, confirmando isso com as palavras de São João sobre o Verbo como “Luz que ilumina todo homem vindo a este mundo.”
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Posteriormente, porém, São Tomás considerou que não seria natural crer que na própria alma não se encontrasse um princípio imediato e suficiente de suas próprias operações; se o poder de compreender pertencesse a uma realidade comum, seja Deus ou uma Inteligência separada, o indivíduo não seria seu agente imediato.
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Por essa razão, São Tomás se fixou na opinião contrária e chamou de Intelecto agente o poder que permite a transformação da experiência sensível em ideias gerais.
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No próprio versículo de São João que cita São Tomás se podem discernir os diferentes aspectos constatados para Buddhi: enquanto a Lux vera aparece no mundo e ilumina todo homem, ela é o raio de Atma que ilumina todas as individualidades; enquanto imagem ou impressão recebida pelo homem, ela é Buddhi considerada como um dos 19 órgãos que a individualidade possui.
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São Tomás conclui: “esta verdadeira Luz ilumina como causa universal da qual a alma humana recebe uma potência particular”; e, antes disso, a demonstração tomista evidencia diferentes graus dessa Luz: Aristóteles comparou o Intelecto agente à luz recebida no ar, enquanto Platão comparou ao sol o Intelecto separado que deixa impressões em nossas almas; o Intelecto separado, segundo a fé, é o próprio Deus, e é dEle que a alma humana participa da Luz intelectual, segundo o Salmo 4.
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São Tomás conclui sobre se há um único Intelecto agente para todos os homens: “todos os homens devem ter em comum a faculdade que é princípio desta ação, e essa faculdade é o Intelecto agente; mas não é necessário que ela seja a mesma numericamente para todos; é necessário, contudo, que em todos ela derive de um mesmo Princípio”, distinção que faz no sentido da univocidade o que o Matsya Purana enuncia no sentido da equivocidade ao dizer de Mahat/Buddhi: “no universal, Mahat é Ishwara, mas encarado distributivamente, pertence aos seres individuais.”
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Nas doutrinas cristãs mais metafísicas, como as de Mestre Eckhart, Ruysbroeck e Nicolau de Cusa, se encontra de que legitimar mais facilmente o aspecto de continuidade dos estados múltiplos do ser, sendo indispensável recusar-se a ver aí posições e opiniões de caráter individual e arbitrário.
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Ruysbroeck, cuja ortodoxia permaneceu finalmente inatacável e que declarou nunca ter escrito uma palavra em seus livros que não fosse sob a moção do Espírito Santo, afirma em O Ornamento das Bodas Espirituais que em todos os homens se encontra, pela própria natureza, uma tríplice unidade, que nos justos é ainda sobrenatural.
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A primeira e mais alta unidade é em Deus, à qual todas as criaturas estão ligadas quanto à essência, à vida e à conservação, possuindo-a em si mesmos mas acima de si mesmos como princípio e sustentáculo do ser e da vida; a segunda unidade é a das potências superiores que têm sua origem natural na unidade do espírito, de onde procedem memória, inteligência, vontade e toda possibilidade de atividade espiritual; a terceira unidade é o domínio das potências inferiores, com sede no coração como princípio e fonte da vida animal, de onde se originam todas as operações do corpo e dos cinco sentidos.
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As três unidades de Ruysbroeck constituem um único reino e uma única vida: na inferior, o homem é sensível e animal; na mediana, racional e espiritual; na mais elevada, mantido em sua essência.
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Essas três unidades são sobrenaturalmente adornadas pelas virtudes morais unidas à caridade na vida ativa, por exercícios interiores na vida espiritual, e pelo ornamento mais digno e feliz na vida contemplativa sobrenatural.
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O texto é particularmente precioso porque mostra ao mesmo tempo as relações entre a natureza integral do homem e a graça, e que esta no fundo apenas revivifica a primeira; nas outras formas tradicionais se encontram equivalentes dos sacramentos das obras organizados para o mesmo fim final.
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As três unidades do homem em Ruysbroeck formam um esquema fundamental dos estados múltiplos do ser total comparável ao que se encontra nos dados hindus; essa hierarquia de graus é atribuída ao homem da forma mais explícita, o que mostra que se pode falar de um tricotomismo do homem entendendo que se trata também do que ultrapassa a individualidade humana.
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O ternário indicado por Ruysbroeck não é exatamente o mesmo que o de São Paulo: o primeiro é constituído em certo sentido pelos “cimos” do segundo, ou então por um deslocamento dos graus do conjunto.
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As correspondências nas linhas horizontais de um quadro comparativo não são sempre do mesmo nível, e no sentido vertical as colunas não estão em toda parte completas, pois os pontos de vista segundo os quais são feitas as diferentes classificações não são exatamente os mesmos.
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