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XEIQUE AL-ALÂWI
VÂLSAN, Michel. L’Islam et la fonction de René Guénon. Paris: Editions de l’Oeuvre, 1984.
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A resenha do livro “Un Saint Musulman du vingtième siècle : Le Cheikh al-’Alâwî”, de Martin Lings, publicada recentemente em tradução francesa, aproveita a ocasião para destacar um ponto particular das biografias do xeque, o qual, corroborado por outros documentos e esclarecido por noções doutrinais do Tasawwuf, revela um aspecto até então não observado da figura e da função espiritual desse mestre da época contemporânea.
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A obra de Lings já havia sido objeto de resenha nas “Études Traditionnelles” por ocasião de sua edição original em inglês.
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O objetivo é trazer à tona um elemento novo sobre a personalidade e o papel do Cheikh al-’Alâwî.
Nas memórias do Dr. Marcel Carret, utilizadas por Lings como introdução, registra-se a impressão inicial do médico francês ao visitar o Cheikh al-’Alâwî na zâwiya de Mostaganem, impressionado com a sua semelhança com as representações convencionais de Cristo, impressão reforçada pelas vestes e pela atitude do xeque, a ponto de sugerir como seria Cristo recebendo seus discípulos na casa de Marta e Maria, e de posteriormente referir-se a ele como “essa figura de Cristo”.-
O relato do Dr. Carret descreve uma semelhança física e estética com a imagem tradicional de Jesus.
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O médico emprega novamente a expressão “figura de Cristo” para se referir ao Cheikh al-’Alâwî.
Embora muitos leitores possam atribuir a observação do Dr. Carret a uma referência superficial e estética à santidade ocidental, há razões para considerar que a “ressemelhança” apontada traduz um elemento mais sutil do que a mera aparência física.-
A interpretação comum seria a de um recurso simplificador por parte de um europeu moderno.
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A resenha propõe que existem outras considerações que explicam, em certa medida, a percepção do médico.
Após a morte do Cheikh Al-Bûzîdî, que não designou sucessor, muitos membros da confraria em Mostaganem tiveram sonhos espirituais que indicavam o Cheikh Al-’Alâwî como seu sucessor, sendo que, entre as numerosas visões registradas pelo Cheikh Sidi Adda Ben Tunes em sua obra “Ar-Rawdat as-saniyya”, algumas apresentam um caráter particularmente significativo para o tema em questão.-
A ausência de um sucessor designado deu lugar a revelações por meio de sonhos entre os membros da tarîqa.
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A obra do Cheikh Adda Ben Tunes é a fonte das visões que serão citadas.
Em uma dessas visões, um faqîr viu a lua partida ao meio, de onde desceu uma prancha suspensa por correntes; ao alto dessa prancha estavam o Mestre Al-’Alâwî e Sayyidunâ Aïssá (Jesus), e um arauto convocava os que quisessem vê-los, que haviam descido do céu.-
A visão estabelece uma conexão direta e visual entre o Cheikh Al-’Alâwî e Jesus em um evento de descida celestial.
Numa outra visão, um xeque viu-se em Tlemcen, onde uma imensa multidão aguardava a Descida (Nuzûl) de Jesus do céu; quando o homem desceu, todos disseram tratar-se de Jesus, mas ao fitá-lo, o vidente reconheceu o Cheikh Al-’Alâwî.-
A expectativa coletiva pela descida de Jesus é substituída pelo reconhecimento do Cheikh Al-’Alâwî como a figura que desceu.
Em outra visão, um xerife viu um grupo anunciando a Descida de Jesus, descrevendo-o com um sabre de madeira com o qual transformava pedras em homens e feras em seres humanos; o vidente, que mantinha correspondência com o ser descido, reconheceu-o como o Cheikh Al-’Alâwî, com o aspecto de um médico auxiliado por mais de sessenta homens.-
A visão identifica o Cheikh Al-’Alâwî com a figura de Jesus descido do céu, descrito com atributos simbólicos e uma função curativa.
Há também o relato de um evento que parece ter ocorrido entre a vigília e o sonho, no qual um devoto, durante a invocação suprema, viu as letras do Nome divino “Allah” preencherem o universo e constituírem a forma luminosa do Profeta; em seguida, as mesmas letras formaram a figura do Cheikh Al-’Alâwî com o nome “Mustafâ Ahmed ben Alioua” inscrito em seu corpo; por fim, as letras se manifestaram como um xeque com uma coroa na cabeça, e um pássaro que desceu sobre sua cabeça anunciou tratar-se do maqâm (estação espiritual) de Jesus.-
O relato descreve uma progressão teofânica em que as letras do Nome divino assumem sucessivamente as formas do Profeta Muhammad, do Cheikh Al-’Alâwî e de uma figura coroada, identificada como a estação espiritual de Jesus.
Enquanto uma dezena de outras visões estabelecem uma relação direta entre o Cheikh Al-’Alâwî e o profeta Muhammad, as visões que o relacionam particularmente com “Sayidunâ Aissâ” e com sua “estação espiritual” (maqâm) no Islã constituem um fenômeno pouco comum, não comentado pelo Cheikh Adda nem mencionado por Martin Lings, e que é significativo tanto para o caso espiritual pessoal do xeque quanto para a sua função iniciática.-
O contraste entre as visões que ligam o xeque a Muhammad e aquelas que o ligam a Jesus ressalta a peculiaridade destas últimas.
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A ausência de comentário prévio sobre essas visões justifica a análise proposta.
O fenômeno ilustra, primeiramente, os tipos iniciáticos existentes na forma muhammadiana, conforme a doutrina de Ibn Arabi, segundo a qual a forma profética muhammadiana, como síntese final do ciclo profético desde Adão, inclui e resume os tipos de espiritualidade dos profetas anteriores, cujas entidades espirituais figuram como realidades constitutivas da própria forma muhammadiana e como funções presentes na economia iniciática do Islã, de modo que os homens espirituais do Tasawwuf se desenvolvem iniciaticamente segundo o tipo espiritual que lhes corresponde, podendo alguns passar sucessivamente pelo regime iniciático de várias entidades proféticas inscritas na esfera totalizadora muhammadiana.-
A doutrina de Ibn Arabi sobre a precedência e a totalidade da luz muhammadiana é exposta.
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A incorporação das espiritualidades proféticas anteriores na realidade muhammadiana é explicitada.
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A consequência prática para os espiritualistas muçulmanos é a possibilidade de realização segundo esses tipos proféticos.
No caso do Cheikh Al-’Alâwî, as visões, embora indiretas e limitadas a um momento crucial de sua vida e da história da tarîqa, indicam que a sua função de dirigir um ramo norte-africano da Tarîqa Shâdhiliyya, que deveria estabelecer uma presença efetiva do Tasawwuf nos confins do mundo ocidental, se expressaria através de modalidades apropriadas ao contato com a sensibilidade intelectual do Ocidente, a qual, na medida em que subsistia, era de caráter predominantemente crístico, tornando compreensível a presença de um espiritual muçulmano de tipo “aïssawî” à frente dessa confraria.-
A função histórica da tarîqa incluía a interação com o mundo ocidental.
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A sensibilidade ocidental remanescente, apesar do modernismo, era marcadamente crística.
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A adequação entre o tipo espiritual do xeque e a missão da tarîqa é apresentada como providencial.
A respeito dos Chadhilitas, recorda-se o papel do xeque egípcio Elîsh El-Kebir, autor da declaração sobre os cristãos terem o signo da Cruz e os muçulmanos a doutrina, declaração citada por René Guénon em “O Simbolismo da Cruz”, livro central em sua obra que concerne às modalidades ocidentais de participação na intelectualidade tradicional e que procede de princípios característicos dos homens espirituais “aissawîs”, princípios da Ciência das Letras ('Ilmu-l-Hurûf), a qual também foi a ciência de Al-Hallâj, cujo caso, por uma coincidência não fortuita, constitui na época contemporânea o tema por excelência da interpretação orientalista do Tasawwuf, muitas vezes distorcida e usada como instrumento contra o Islã.-
A doutrina da Cruz, central para o Ocidente, tem sua formulação mais completa no Islã, segundo a declaração citada.
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A obra de Guénon sobre simbolismo é vinculada aos princípios da Ciência das Letras e ao tipo espiritual “aissawî”.
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O caso de Al-Hallâj é apresentado como exemplo mal interpretado pelo orientalismo, em contrapartida aos fecundos contatos intelectuais entre Islã e Ocidente.
A resenha conclui afirmando que não esgotou as reflexões possíveis sobre o livro de Lings, tendo sido igualmente discreta em um ponto sobre o qual o autor também o foi, por razões talvez diferentes, mas não opostas, na esperança de um dia poder ser mais completa.-
A resenha admite ter-se limitado em suas considerações.
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A discrição deliberada sobre um ponto específico é justificada pela expectativa de um futuro tratamento mais aprofundado.
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