SACRIFÍCIO HUMANO
Hitler et les sociétés secrètes. Enquête sur les sources occultes du nazisme, 1969
Durante o reinado do imperador Tibério, um decreto promulgou a pena de morte para qualquer druida condenado por sacrificar vítimas humanas aos seus deuses. Os historiadores não deixaram de aprovar essa medida, que parece tão justa quanto honrosa. No entanto, podemos questionar seu verdadeiro significado, sabendo que monstro era Tibério e como, em Roma, milhares de prisioneiros e gladiadores eram imolados para o prazer do público, levando o realismo ao extremo de queimar vivo um homem no palco, a cada apresentação da tragédia de Ésquilo: A Morte de Hércules.
Os legionários, acostumados a manejar o machado e a picareta tão bem quanto a espada e que abriam clareiras em imensas florestas, foram as primeiras vítimas dos sacrifícios druídicos, durante suas expedições na Gália e na Germânia. O decreto de Tibério não significava nada mais do que o direito de matar sacerdotes inimigos e profanar seus altares ao menor sinal de perigo para as legiões romanas.
Os druidas compreenderam a natureza puramente repressiva dessa decisão e se submeteram a ela, constatando que seus povos não podiam se opor a ela pela força de suas armas nem pelo estado de suas defesas naturais. Na Germânia, as coisas seguiram um curso diferente, pois os adoradores de Wotan, recuando diante das águias de Roma, retiraram-se para longe dos caminhos trilhados, sob o abrigo de refúgios inacessíveis.
Enquanto os procônsules tentavam em vão subjugar os rebeldes, os germânicos (francos e burgúndios) invadiram a Gália e começaram a se estabelecer por direito de conquista nas províncias romanas. Era necessária uma política religiosa mais tolerante em relação a eles. Uma trégua, se não a paz, foi acordada entre os cultos. Odin e Júpiter tiveram altares distintos; templos foram erguidos para o deus Thor, respeitando os de Marte; Bragi, Frigg e Freya tiveram seus feriados, assim como Baco, Apolo e Diana. Seus sacerdotes tinham interesses comerciais comuns: sua entente baseava-se em uma nova economia que havia surgido com a construção das grandes vias de comunicação do Império.
No entanto, se a civilização urbana dos romanos, protegida por poderosas fortificações – o limes germânico – nos vales do Reno e do Danúbio, se desenvolvia em centros como Colônia, Tréveris, Mainz e Estrasburgo, ela não penetrava além dessas fronteiras, atrás das quais se agitavam povos ainda hoje pouco conhecidos. Sabe-se, pelo menos, que a sua religião correspondia, em geral, às crenças comuns ao grupo linguístico indo-europeu.
Os povos da Germânia não ficavam atrás dos da Gália nas práticas de adivinhação: cultivavam a arte dos auspícios e dos feitiços. Não empreendiam nenhum negócio importante sem antes consultar o relincho dos cavalos brancos que criavam em prados sagrados. Imolavam vítimas humanas com o objetivo de consultar suas entranhas, ainda pulsando com o calor da vida, sobre as chances na guerra e o resultado das negociações.
Quando os povos do outro lado do Reno, saxões, bructérios, salianos, chamavos, angrivários, sicambros e aqueles que formavam a confederação franca, deixaram as florestas da Germânia para procurar na Gália uma nova pátria em terras mais férteis, trouxeram novas práticas mágicas, que se juntaram às que os gauleses receberam dos romanos.
Eles conheciam, entre outras coisas, a arte das runas, tão cultivada entre a maioria das nações do Norte.
Havia as runas vitoriosas, que davam sabedoria, inteligência, coragem e predispunham a todos os tipos de triunfos. Os guerreiros gravavam-nas na guarda e na bainha de suas espadas; eram escritas em quadrados de pergaminho e deviam ser acompanhadas pela letra tyr, reproduzida duas vezes. Os navegadores inscreviam as runas marítimas e fluviais na popa, no leme, nos mastros e nas velas dos navios, para preservar a tripulação e as mercadorias de qualquer acidente infeliz. Aqueles que tinham processos a defender, disputas a vingar, direitos a fazer valer, escondiam as runas protetoras nas tendas que serviam de tribunal e até mesmo sob o assento dos magistrados. As runas báquicas, gravadas na alça das ânforas e nos copos, protegiam os bebedores das surpresas que lhes poderiam ser feitas na embriaguez; para maior segurança, traçavam-nas na mão e escreviam a letra naud na unha. Os médicos usavam runas auxiliares para proporcionar às mulheres partos felizes e fáceis. Isso era apenas uma pequena parte da ciência do verdadeiro médico: ele devia possuir o segredo das runas corticais, a fim de inscrevê-las adequadamente na casca das árvores e no lado certo, para curar doenças, afastar feitiços, quebrar encantamentos, estancar hemorragias e fechar feridas. As runas cordiais davam coragem aos covardes; eram inscritas no peito, na região do coração. As runas poderosas eram tatuadas nos membros que mais eram usados: nos braços, para o trabalho; nas coxas, para a marcha.
Esses encantamentos e tatuagens mágicas suscitaram numerosas e enérgicas protestos por parte dos prelados durante os séculos VI, VII e VIII. Declarou-se que constituíam uma invocação ao demônio, desonravam os membros consagrados pelo batismo e que a ostentação que faziam aqueles que as usavam ofendia frequentemente a pudor.
A repressão dos crimes cometidos por meio da magia foi um dos objetos mais constantes da solicitude dos legisladores. Envenenamento, feitiços e maldições, ligaduras e encantamentos, feitiços e encantamentos, assembleias de feiticeiros e seus banquetes abomináveis, tais são as práticas contra as quais os códigos, tão lacônicos em muitos outros pontos, punem com mais detalhes jurídicos.
