bazan:metafisica

DOUTRINA METAFÍSICA

René Guénon o la Tradición Viviente. Francisco García Bazán & Carlos Velloso & Luis A. Vedoya & Alicia Blaser & Olivia Cattedra, 1985

  • A metafísica distingue-se da religião por constituir conhecimento espiritual ou intelectual puro que envolve tanto um objeto que ultrapassa o domínio físico quanto o ensinamento derivado da experiência desse objeto, sendo este a esfera dos princípios universais eternos e ainda o que está além do próprio eterno, inapreensível pela razão discursiva e acessível apenas por intuição intelectual infalível, cuja eventual limitação pertence à formulação mental e não à fonte suprarracional, fundamento pelo qual se rejeitam as correntes modernistas intrinsecamente antimetafísicas.
    • Referência à definição nominal apresentada por Guénon como “além da física”.
    • Indefinibilidade do objeto por transcender o devir e as categorias lógicas.
    • Distinção entre realidade imutável e suas expressões transformáveis.
    • Conhecimento intuitivo, direto e imediato que identifica cognoscente e conhecido.
    • Crítica às teorias progressista, evolutiva, relativista, racionalista, individualista, cientificista e empirista.
  • O saber metafísico transmite desde tempos imemoriais um esquema doutrinal ontológico e ôntico cujo fundamento reside no caráter sui generis do Infinito ou Absoluto entendido como realidade única, Possibilidade Universal atual e princípio imanifestável de toda manifestação, designado tecnicamente por Guénon como Não-Ser, interpretação iluminada por sua compreensão do pensamento de Shankara e do Vedanta advaita.
    • Realidade única e sem segundo, distinta dos modos contingentes.
    • Posibilidade Universal como raiz permanente de toda realidade.
    • Não-Ser situado além do Ser, sendo este sua primeira reflexão.
    • Superação de toda dualidade, inclusive forma e substância.
  • A realidade absoluta, indiferenciada e sem possibilidade de geração ou manifestação, recebe diversas denominações nas tradições esotéricas que apontam analogicamente para a mesma referência suprema além de qualquer determinação ontológica.
    • Brahman sem qualidades na perspectiva metafísica hindu segundo Shankara.
    • Tao na tradição chinesa.
    • Allahu Ahad no esoterismo islâmico.
    • O Uno em Plotino.
    • A divindade acima de Deus em Mestre Eckhart.
    • O Abismo sobre o Silêncio entre os gnósticos alexandrinos.
  • Na região da plenitude indiferenciada dissipam-se símbolos, palavras e definições, permanecendo apenas denominações alusivas que funcionam como apoio indicativo para a ascensão a uma identidade em si mesma inefável e impossível de descrever.
    • Caráter vicário das expressões positivas, negativas e simbólicas.
    • Experiência de anonadamento diante da perfeição absoluta.
    • Inefabilidade como traço constitutivo da realidade suprema.
  • As essências não finitas, as formas universais ou o Deus pessoal criador dotado de atributos perfeitos constituem o princípio não manifestado da totalidade do ser cósmico e configuram o nível do Ser propriamente dito, região intuível dos archai ou fundamentos eternos paradigmáticos cuja manifestação se reflete no mundo.
    • Identificação com o reino das raízes ontológicas.
    • Distinção entre princípio não manifestado e ordem manifestada.
    • Dependência do cosmos em relação aos fundamentos eternos.
  • A metafísica aristotélica, a teologia cristã, a tradição hindu com Ishvara, o mundo das ideias de Platão e a dualidade purusha-prakriti do Samkhya permanecem no horizonte ontológico do Ser, distinguindo-se metafísica e teologia quanto à interpretação de manifestação e criação.
    • Metafísica definida por Aristóteles como saber dos primeiros princípios.
    • Teologia cristã centrada na análise racional da natureza divina.
    • Ishvara como Brahman qualificado por atributos infinitos.
    • Manifestação entendida como determinação de possibilidade invisível.
    • Criação concebida como ato voluntário expresso no fiat lux.
    • Referência ao mito de Prajapati e à diferença metodológica entre concepção intelectual e imagem artesanal.
  • A manifestação ou physis, no sentido amplo dos pré-socráticos, constitui o domínio organizado do devir individual e coletivo como reflexão particularizada dos princípios, abrangendo estados múltiplos do ser em formas sutis e corporais dentro do universo regido por lei interna ou dharma.
    • Roda do samsara como símbolo do devir incessante.
    • Crítica de Guénon às filosofias naturalistas antigas e modernas.
    • Estados individuais e coletivos ilimitados pela abrangência do Ser.
    • Distinção entre formas psíquicas e formas corporais.
    • Cosmos como organismo total estruturado desde a matéria secunda.
    • Referência a Manu, kalpa, manvantaras e ao domínio eterno de Ishvara na tradição indiana.
  • No ponto em que o cosmos é concebido como totalidade vivente convergem a teoria dos ciclos cósmicos, a cosmologia guenoniana e a doutrina da autorrealização ou liberação do homem paralela à hierarquia dos estados e graus da realidade.
    • Integração entre cosmologia e realização metafísica.
    • Correspondência entre ciclos cósmicos e graus do ser.
    • Libertação humana como culminação do percurso metafísico.
  • A exposição evidencia Guénon como restaurador moderno do alcance do saber metafísico em continuidade com Platão, Plotino, os doutores gnósticos e Shankara, ao afirmar a unidade hierarquizada dos graus do ser culminando na Possibilidade em si e ao reconhecer o sentido autorrealizador do conhecimento que liberta o homem de sua condição de imagem limitada do Ser.
    • Recuperação da unidade hierárquica do real.
    • Relação necessária entre níveis como reflexos ascendentes.
    • Inserção na tradição metafísica estrita.
    • Metafísica como culminação iluminadora da filosofia.
    • Conhecimento elevado à dimensão metafísica como verdadeiro relevo do saber humano.
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