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CATEDRAIS

BENOIST, Luc. Art du Monde. La spiritualité du métier. Paris: Michel Allard Éditions Orientales, 1978

  • Para compreender o simbolismo das catedrais é necessário recorrer aos números e à geometria, sendo que a tradição judaica e o próprio texto da Bíblia haviam preparado a integração dos números divinos no pensamento escolástico, e a igreja da nova aliança devia oferecer um resumo da criação.
    • A igreja recordaria, em suas formas e proporções, o templo de Salomão visto em sonho por Ezequiel e a Jerusalém celeste cujas dimensões foram transmitidas por são João.
    • Boécio escreveu que um homem estranho às matemáticas não pode atingir o verdadeiro conhecimento divino; o cardeal de Cusa repetiria que a linguagem matemática oferece o simbolismo menos inadequado à inteligência das verdades divinas.
    • Os beneditinos do século XI foram os primeiros a difundir essa verdade; os monges de Cluny fizeram esculpir nos capitéis do coro um resumo do sistema do mundo governado pelos oito tons do cantochão gregoriano.
  • Pesquisas recentes conduzidas por arqueólogos e arquitetos revelaram que os mestres de obra traçavam o plano e a elevação de seus edifícios com auxílio de um ou vários círculos diretores de partição poligonal regular, sendo a figura circunscrita mais frequentemente o pentágono pitagórico ou o dodecágono.
    • O único álbum de desenhos de um arquiteto do século XIII conservado, o de Villard de Honnecourt, mostra a recorrência do pentagrama na concepção geométrica dos mestres de obra.
    • O módulo obtido era quase sempre incomensurável, determinável geometricamente mas não exprimível aritmeticamente por números inteiros.
    • Utilizava-se um dos três módulos de proporção definidos pelos números raiz de 2, raiz de 3, raiz de 5 e sobretudo pela secção de ouro, invariante que reúne todas as propriedades do pentágono e que aparece exclusivamente na morfologia dos seres vivos.
  • A existência de segredos profissionais não deixa sombra de dúvida, sendo as corporações medievais de pedreiros organizadas em três graus de iniciação, aprendiz, companheiro e mestre, derivando dos colégios de artesãos que Roma havia estabelecido nas províncias conquistadas.
    • O grupo corporativo de pedreiros mais importante da Idade Média era a Bauhütte, ou Federação das Lojas do Sacro Império, cujos centros principais se encontravam em Estrasburgo, Colônia, Viena e Berna.
    • Os privilégios acordados pelos imperadores a essas lojas fizeram dar a seus membros o nome de freimaurer, pedreiros livres, franc-maçons; é aí a origem da maçonaria moderna.
    • Os companheiros viajantes deixaram na pedra sua assinatura falante sob forma de selos lapidários, dos quais um arquiteto austríaco recolheu cerca de nove mil, classificáveis em quatro tipos diferentes de matrizes.
    • Em 1398, o arquiteto parisiense Jean Mignot resumiu a ciência medieval numa sentença lapidar: Ars sine scientia nihil, sem o conhecimento, o ofício não é nada.
  • A arte medieval é essencialmente simbólica e oferece antes de tudo um espelho do mundo que é uma suma de teologia, reunindo a natureza, os animais e as plantas, a ciência e as artes liberais, os trabalhos e os dias, a moral, os vícios e as virtudes e toda a história desde a criação até o Juízo Final.
    • O templo figura o mundo e o homem, o macrocosmo e o microcosmo; a raiz da palavra templum implica uma ideia de lugar qualificado, de separação e de reserva.
    • A Igreja cristã, desenhando sobre o solo e no céu uma imensa cruz de pedra a três dimensões, fixa para o mundo as coordenadas de uma geometria de caráter sobrenatural.
    • O desdobramento integral pode ser considerado como se efetuando primeiro horizontalmente no plano humano, o da amplitude, depois verticalmente através da hierarquia de todos os estados do ser, no sentido da exaltação; são Ambrósio relaciona as virtudes teologais às três dimensões do templo de Salomão e são Paulo fala da largura e do comprimento, da altura e da profundidade do amor de Jesus.
  • As determinações virtuais contidas na forma cruciforme da igreja se desenvolvem no solo graças à orientação obrigatória de sua cabeceira em direção ao ponto do horizonte onde nasce o sol equinocial, rito de construção que remonta às Constituições Apostólicas.
    • A igreja cristã representa em seu plano o homem universal, ou seja, o Cristo colocado na cruz, com a cabeça a oriente e os pés a ocidente, tal como morreu no Gólgota.
    • O altar, sob o arco triunfal, representa o coração de Jesus, centro e ponto sensível e sagrado da igreja, comentado por Clemente de Alexandria ao descrever as seis extensões que partem de Deus, coração do universo, encerrando o simbolismo do número sete.
  • O rito mais misterioso da dedicação de uma igreja é o do alfabeto, pelo qual o bispo, avançando pela nave, traça com sua mitra sobre uma cruz de Santo André desenhada em cinzas no solo todas as letras do alfabeto grego num braço e todas as do alfabeto latino no outro.
    • O bispo Guilherme Durand afirmou que as coisas representadas por signos são produzidas invisivelmente nas almas; o duplo alfabeto significa a união dos dois povos, judeus e gentios, as duas letras dos dois Testamentos e os artigos da fé.
    • O tempo coexiste na extensão que é sua figura imóvel; a cronologia se inscreve na topografia, e as seis direções do espaço manifestam a presença eternamente simultânea dos seis dias da criação, sendo o sétimo o dia do repouso e do retorno ao centro.
  • Os escultores dos séculos XII e XIII explicitaram esse simbolismo grandioso nos portais das catedrais, sendo que em Amiens a fachada expõe da base ao tímpano o ciclo do ano solar segundo os signos do zodíaco, imagem do ciclo cósmico; ao nível do olhar se respondem de cada lado os profetas e reis da antiga lei, os apóstolos e padres da nova aliança; e no alto reinam o futuro e a consumação dos tempos com o Juiz que separa os eleitos dos condenados.
    • No centro do tímpano preside o Cristo, o Verbo eterno; abaixo dele o arcanjo são Miguel pesa as almas; à sua esquerda os condenados conduzidos por Satã; à sua direita os bem-aventurados precedidos das cinco virgens sábias que personificam os cinco graus de contemplação.
    • Os signos do zodíaco correspondentes a esses dois episódios são o Carneiro ou o Cordeiro e a Balança, que formam o fiel igual das noites e dos dias sobre o qual oscilam o ano solar e o ritmo da liturgia.
  • O ciclo das festas cristãs mais antigas e solenes, Natal, Páscoa, São João de verão e São Miguel de outono, situa-se nos equinócios e solstícios e corresponde diretamente ao zodíaco, sendo que os solstícios coincidem com São João de inverno e Natal de um lado e São João de verão do outro, e os equinócios com a Páscoa e a festa de são Miguel.
    • A tradição pitagórica dá ao solstício de verão o nome de Porta dos Homens porque conduz à metade descendente do zodíaco e aos Infernos, símbolo dos estados inferiores do ser.
    • As chaves de são Pedro figuram o depósito do conhecimento em todos os domínios, a entrada do Paraíso terrestre e da Jerusalém celeste, o poder de ligar e absolver; são João Evangelista celebrado no solstício de inverno abre a Porta dos Deuses sobre a metade ascendente do zodíaco.
  • Do alto ao baixo do portal, a cena do Juízo Final comanda, por sua finalidade temível, tanto a história universal e o ritmo da natureza quanto a humilde vida do cristão, sendo que todos os ciclos secundários que se repercutem no tempo e no espaço vêm se concentrar na quintessência do sacrifício do cordeiro e nas fases da liturgia, sobre as quais a arquitetura se modelou para oferecer o magnífico asilo de sua roupa de pedra.
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