COZINHA DOS ANJOS
BENOIST, Luc. La Cuisine des Anges. Un essai sur la formation du langage. Paris: AWAC Bretagne, 1978
O presente ensaio sobre a linguagem, ou melhor, sobre o surgimento da linguagem, foi escrito em Paris em dezembro de 1929 e recebeu em 1930 um dos dois prêmios criados naquele ano pela Revista Universal. Concebido num espírito “tradicional”, no sentido dado por Guénon a essa palavra, e mesmo “existencial”, no duplo sentido atribuído a essa expressão por Gabriel Marcel, foi homenageado por este último com uma carta-prefácio encorajadora, na qual ele considerava a imensa tarefa de um desenvolvimento mais preciso das minhas teses. Foi o que tentei fazer em 1975, quarenta e cinco anos depois, com um estudo sobre Signos, Símbolos e Mitos. Infelizmente, Gabriel Marcel nos deixou e não pôde julgar o valor de uma síntese que pretendia responder à generosidade de sua previsão.
Eu havia dado a esse ensaio o título singular de La Cuisine des Anges (A Cozinha dos Anjos), em alusão ao quadro de Murillo que se encontra no Louvre, e onde se vê anjos-cozinheiros preparando a refeição dos monges, enquanto São Tiago de Alcalá, em estado de levitação, permanece absorto em uma contemplação extática. Essa imagem me parecia evocar maravilhosamente o fenômeno da inspiração e seu misterioso mecanismo. Os anjos, que representam os estados superiores do ser, sempre colaboram nas obras terrenas, nas quais a mais espiritual das causas é obrigada a emprestar os meios de expressão do mundo sensível. Santa Teresa de Ávila não dizia que o próprio Deus passeava entre as panelas?
Este ensaio deveria ser publicado em 1932, com uma tiragem de oitocentas cópias, pelo meu amigo René Helleu, genro de Pelletan, criador da Editions d'Art, sem ser reeditado. Entre as reações que a publicação deste ensaio provocou, três me tocaram particularmente, cada uma proveniente de um mundo diferente, seja científico, filosófico ou religioso. O cientista era um físico, Gustave Juvet, decano da faculdade de ciências de Lausanne. Ele me parabenizou por ter tomado como ponto de partida da minha abordagem a assimilação da teoria matemática dos grupos às ideias platônicas. O filósofo era Arnauld Dandieu, fundador, com Robert Aron, da revista Ordre nouveau e amigo dos existencialistas, que me apresentou no antigo hotel do Sr. Thiers, onde se reuniam periodicamente.
O religioso foi o R.P. A. Maydieu, dominicano, que fez uma longa resenha do meu trabalho na revista de sua ordem, La Vie intellectuelle, não sem me fazer, no final, a crítica, sem dúvida merecida, de não ter compreendido os conceitos de Aristóteles sobre o mesmo assunto.
Mas a aprovação que mais me alegrou foi a de René Guénon, que, do Cairo, onde acabara de chegar, me escreveu para sugerir algumas melhorias pertinentes a um texto no qual ele sem dúvida teve a surpresa de descobrir a evocação antecipada de “sua teoria do gesto”, sobre a qual ele ainda não me havia revelado nada.
À presente reedição deste ensaio, revista e corrigida, juntei um estudo de igual importância, ainda inédito em francês, mas que foi publicado em tradução inglesa nos Estados Unidos, em 1969, sob o título de Literatura e Tradição. Ela me foi solicitada por Joseph Strelka, hoje falecido, que era então professor do departamento de línguas germânicas da Universidade da Pensilvânia, para o volume II do Yearbook of Comparative Criticism daquele ano, intitulado Problems of literary evaluation. Ela nunca havia sido publicada em seu texto original em francês e pode ser considerada uma exposição do desenvolvimento histórico dos princípios esboçados poeticamente no primeiro ensaio.
Espero que o leitor não encontre entre esses dois textos outra diferença além daquela que se manifesta naturalmente entre o ardor da juventude e a serenidade da velhice.
