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ESPIRITUALIDADE
BENOIST, Luc. Art du Monde. La spiritualité du métier. Paris: Michel Allard Éditions Orientales, 1978
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As tradições autênticas nunca separam a arte da meditação nem do trabalho manual, sendo que a fabricação do primeiro objeto aparece tanto como rito quanto como obrigação de existência, e a arte consistia não em fazer uma coisa particular e completamente inútil, mas em fazer todas as coisas necessárias ao corpo de uma maneira que satisfaça o espírito.
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O radical latino ar, presente em ars, tem o sentido de soprar e penar, reencontrando-se em arare, lavrar, e em ârya, termo honorífico aplicado às castas superiores hindus que caracteriza uma tradição de povo agricultor e sedentário.
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O grego techné significa arte tanto quanto ofício e vem do verbo teko, produzir, onde se reconhece a raiz sânscrita taksh, fazer.
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Nas civilizações antigas o trabalho constituía uma liturgia, um serviço público e religioso, e certas indústrias como as do ferro e do fogo conservaram por longo tempo um caráter reservado e interdito.
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Na origem dos tempos tudo era sagrado e a significação do objeto ultrapassava de muito sua aparência.
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A alegria no trabalho manifesta uma comunhão que hoje se designa pelo nome obscuro de inspiração artística, sendo outrora um estado normal, natural e consciente.
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O trabalho manual é o meio de iniciação particular aos artesãos e o único caminho de retorno adaptado às suas próprias possibilidades.
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Jano, entre os romanos, era ao mesmo tempo o patrono dos artesãos e o deus que presidia aos mistérios, sendo que os colégios de homens de ofício lhe prestavam culto especial e celebravam em sua honra as festas dos dois solstícios, tornadas sob o cristianismo os dois São João de inverno e de verão.
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As corporações possuíam um caráter sagrado e o exercício de um ofício sob seu controle permitia o acesso aos estados superiores, a restauração do Homem Primordial, que era o objetivo da iniciação aos Pequenos Mistérios.
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A figuração do zodíaco inscrita nos portais das catedrais manifesta o vínculo entre o ritmo do tempo e a evolução espiritual, entre as ocupações manuais e o ciclo cósmico.
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O ofício, por sua natural adaptação à função do homem, faz parte de seu ser e torna-se para ele o melhor e às vezes o único meio de conhecimento, e pelo trabalho que lhe aplica com sua arte o homem não traz apenas uma transformação à matéria, mas a si mesmo.
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Um homem sem ofício nada conhece por dentro, de forma efetiva e real.
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O homem pode contribuir para retificar a harmonia ambiente e a sua própria impregnando o objeto de um elemento sobre-humano, como Deus criou o homem infundindo-lhe seu sopro, elemento sutil fortemente sensível nos verdadeiros obras-primas.
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A obra de arte pode ser definida essencialmente como um sistema de símbolos expressos por ritmos, definição que explica seu valor, pois no presente estado de existência o homem só pode comunicar com os estados superiores do ser e facilitar seu acesso aos outros por meio de ritmos, sejam palavras, objetos ou gestos, isto é, encantações, meditações ou ações.
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Perceber ritmos constitui uma necessidade; o ritmo, retorno cíclico, religa o ser à sua origem e perpetua nele o sopro primordial do qual é oriundo.
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As verdades primeiras encontram nas coisas belas suas manifestações sensíveis menos imperfeitas; por isso, dizem os escolásticos, a beleza é um dos nomes divinos.
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A arte não pode ter origem puramente humana, sendo que todas as tradições ensinam que deuses, demônios, anjos ou heróis inspiraram aos homens o uso dos materiais e instrumentos de ofício, como Hefesto na tradição helenística, Atena que tece a tela, e Set na tradição hebraica que constrói a primeira cidade.
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A arte não progride; seu começo é sempre atual, pois se situa fora do tempo e transmite a imagem ritual do que se fez na origem.
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Entre um bisão desenhado em ocre nas paredes da gruta de Altamira por um artista magdaleniano e um galgo de Pisanello ou um leão de Barye não se pode dizer que haja progresso.
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A autonomia e a autarquia do primitivo permanecem inconcebíveis para o homem moderno, que não compreende que o ter, ou seja, o material inteiro da civilização, não pode prosperar senão às expensas do ser, sendo que a civilização moderna, por evidentes que sejam suas vantagens, constitui uma excrescência que esvaziou o homem de sua substância íntima.
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O homem primitivo era um super-homem no verdadeiro sentido do termo, correspondendo aos antigos indivíduos autônomos do taoismo.
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Criar necessidades é esvaziar o homem de sua substância; para compreender a vida dos homens antigos é preciso admitir neles, por equilíbrio, uma espiritualidade tanto mais elevada quanto não era entravada por nenhum artifício.
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A criação da arte participa da queda do homem, de sua separação e da maldição divina, sendo os ofícios uma compensação a essa queda e um remédio coexistente ao mal, embora a arte plástica só se desenvolva mais tarde com os neolíticos agricultores, sedentários e criadores de cidades.
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Não existe diferença essencial entre as artes rítmicas do tempo, poesia e música, próprias aos povos pastores, e as artes plásticas do espaço próprias aos povos sedentários.
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Em todas as suas manifestações, a arte era e continua sendo a fixação simbólica de um pensamento.
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