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FATOS E GESTOS
BENOIST, Luc. Signos, símbolos e mitos. Tradução de Anna Maria Viegas. Belo Horizonte: Interlivros, 1976.
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Percorrendo ao inverso do tempo a árvore genealógica de uma família de palavras numa língua indo-europeia, guiado pela identidade dos fonemas, chega-se a uma raiz cujo sentido muito geral se transmitiu com infinitas nuances a todos os ramos derivados.
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Da onomatopeia clic-clac, que traduz o estalo seco de duas superfícies, derivam cliquet, cliquetis, déclic, clanche, déclencher e cliché.
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Do latim clavis, a chave, derivam clore, inclure, conclure e conclave; do latim clarus, que designa um som brilhante, derivam os nomes reais Clotário, Clodômiro, Clóvis e a série dos Luíses.
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Da raiz fla, que deu o latim flatus, o sopro, derivam enfler, gonfler, souffler, flûte, flan, flétrir, fiasco, flacon, fou, flou e flair.
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Com um dicionário etimológico seria possível esgotar o vocabulário de uma língua reconstituindo as derivações de algumas raízes ligadas a atividades humanas.
A etimologia é uma ciência fascinante cujo testemunho permanecerá sempre conjetural, pois supõe a reconstituição da forma original de uma língua falada durante milênios antes de ser escrita, sem poder invocar qualquer documento probatório.-
As leis fonéticas parecem provar que existe um rapport certo, uma parentela homofônica, entre um som e um sentido, entre um gesto e sua expressão falada.
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Platão e Aristóteles já sustentavam posições opostas sobre esse ponto: os platônicos afirmavam que a relação entre a palavra e sua significação era espontânea e fundada na natureza das coisas; os aristotélicos, seguidos pelo ilustre Saussure, estimavam que ela era arbitrária e convencional, posição que hoje volta a ser contestada.
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Nas épocas muito remotas em que as primeiras vocalizações devem ter aparecido, uma denominação arbitrária dos atos e das coisas teria sido contrária à conduta ordinária do primitivo, que obedecia antes de tudo a seus reflexos; como a convenção deve ter intervindo ulteriormente, as duas teses devem ser unidas: uma convenção posterior sancionou, como toda boa lei, um estado de fato.
As raízes primordiais não desempenham o papel de coisas, mas de embriões de fatos ou gestos obedecendo ao funcionamento dos órgãos humanos nos limites do espaço, e os linguistas estimam que nenhuma língua conhecida exige mais de uma centena de fonemas para ser falada.-
O órgão do tato e seus prolongamentos musculares forneceram com mais frequência as metáforas do mediador verbal.
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Para qualificar sensações que escapam ao tato, como uma cor, um sabor ou um odor, foram as metáforas táteis que serviram de relais, em razão da riqueza de seu vocabulário e do simbolismo conquistador da mão.
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Ainda hoje expressões como vinho áspero, cor quente e suave perfume mostram que as sensações interiores são expressas com imagens exteriores, o que produz às vezes expressões absurdas, mas simbolicamente justificadas e perfeitamente compreendidas, como cumprir um dever, abrir um parêntese ou abraçar uma carreira.
Quanto mais vaga é uma palavra, mais ela evoca similitudes de forma, cor ou gosto, e mais é preciosa e utilizada, o que é uma lei do simbolismo da língua.-
Verlaine havia pressentido isso ao aconselhar o poeta a não escolher suas palavras sem algum equívoco, tomando por fantasia da musa o que era na verdade uma lei da simbólica.
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Todas as figuras de estilo, metáfora, sinédoque, metonímia e catacrese, traduzem analogias, assimilações ou correspondências, baseadas no princípio de que o que importa não é a coisa evocada pela palavra, mas o fundo comum ao qual se liga sua função.
A etimologia confirma que os primeiros gestos do primitivo se transformaram em palavras que conservaram o sentido desses gestos originais.-
Todos os verbos que significam tomar querem dizer igualmente ter inteligência de algo: saisir, comprendre, piger (piéger).
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O latim cogitare, cogitar, significa originalmente agitar juntos e acabou por significar agitar em ideia; intelligere, compreender, significa escolher entre, que é a definição mais exata da inteligência.
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O latim putare significou originalmente cortar, podar árvores; fracionando as coisas, conta-se, daí calcular, pesar, avaliar, e putare acabou por significar julgar e pensar.
Em todas as línguas existe um rapport estreito entre o nascimento e o co-nascimento, e a raiz gen, gon, gn gerou uma imensa linhagem de palavras que Claudel explorou em seu Art poétique.-
Do latim gens derivam gênese e genealogia; do grego gonos, a criança, derivam epígono, gineceu, gentil, engendrar, generalizar e generosidade.
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Do latim ingenium derivam gênio, engenheiro e engenhoso; do latim ingenuus derivam benigno, bênção, benigno, benoît, ingênuo, natal e noël.
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Do grego gnosis derivam gnose, diagnóstico, gnomos e noção; do latim nobilis derivam nobre e ignóbil, ignorar, narrar e ineenarrável.
Os linguistas discutem sobre a prioridade de aparecimento do verbo ou do nome no núcleo da nebulosa oratória, mas o verbo acabou por encarnar sozinho a ideia comum de ação, e o nome frequentemente deriva do verbo imobilizado em uma atitude.-
O gramático hindu Panini já havia reconhecido o caráter verbal das raízes, e Grimm declarava que os verbos e os pronomes parecem ser as verdadeiras alavancas da linguagem.
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Desde as línguas antigas, em que as formas verbais superabundavam, até o inglês, que as substitui por advérbios e preposições, constata-se um despojamento progressivo da expressão sem que o sentido da frase seja modificado, revelando os elementos invariantes e as impulsões ocultas cuja existência Humboldt havia suspeitado.
A classificação dos verbos franceses em grupos correspondentes a gestos de direção precisa, traduzidos por preposições ou advérbios, leva a trinta e seis conjuntos que esgotam a variedade de gestos possíveis, dentro de cada um dos quais os verbos são intercambiáveis.-
Goethe relata nos Entretiens avec Eckermann que, segundo o dramaturgo veneziano Gozzi, não haveria mais de trinta e seis situações trágicas possíveis, e que Schiller se esforçou muito para encontrar mais, sem conseguir chegar a esse número.
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O etnólogo e linguista russo Propp, em livro tornado clássico sobre os contos maravilhosos, reduziu a trinta e uma as funções do herói e as situações que delas resultam.
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Como o sujeito de qualquer narrativa pode ser o herói do conto, o personagem do drama ou o deus animador do mito, suas ações são igualmente limitadas às que o próprio homem pode efetuar, pois é sempre o mesmo sistema de símbolos que se manifesta em todos os casos.
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É singular que o número trinta e seis seja em francês um idiotismo indicando a passagem ao domínio do indeterminado, enquanto o número trinta e um, na linguagem familiar, indica a mais alta qualidade da aparência.
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