benoist:fortuna
FORTUNA – FADO
SOCOA, Michel de. La Part de Fortune. Paris: Éditions Traditionnelles, 1983.
-
A parte da fortuna é um dos elementos astrológicos aos quais os antigos atribuíam grande importância, mas que os modernos negligenciam, sendo que astrólogos como Wilson chegaram a chamá-la de fantasma concebido pelo cérebro imaginativo de Ptolomeu, sem nenhuma influência.
-
Ptolomeu lhe consagra três páginas; os astrólogos da Renascença, salvo Junctino, não a tratam especialmente; Cardano não lhe dá grande valor; e vários a rejeitam inteiramente.
-
Jean Hieroz observa que a parte da fortuna já aparece no livro de Manílio, que viveu antes de Ptolomeu.
-
Os antigos a colocavam no mesmo nível que o ascendente e os luminares, sendo um dos cinco significadores do método das direções.
-
A desgraça em que caiu a parte da fortuna está ligada a uma degenerescência de seu sentido primeiro, pois muitos astrólogos modernos tendem a restringir sua portada dando à palavra fortuna o sentido estreito de dinheiro que lhe atribui a linguagem corrente.
-
É conveniente distinguir os diferentes termos latinos ligados à palavra destino: providentia designa etimologicamente a presciência divina; fatum designa o que foi dito e predito, notadamente a palavra divina transmitida por via oracular; fortuna é o destino individual, correspondente ao grego tyche, com relação ao acaso e à chance; e casus designa o que cai, acentuando o que há de mais imprevisível e mais aziago no acaso.
-
A palavra fortuna tomou progressivamente o sentido exclusivo de evento feliz, sendo assimilada a Ceres e à Lua, às riquezas e às colheitas, recebendo como atributo a cornucópia.
-
O antigo francês possuía o termo heur, que traduzia na sua significação perfeita o sentido primitivo do latim, designando tanto um evento favorável quanto decepcionante, e do qual derivam bonheur e malheur.
-
Para interpretar corretamente a expressão parte da fortuna é necessário restituir-lhe sua antiga significação, constatando que, longe de ser sempre favorável, ela pode como qualquer outro significador astrológico indicar uma ausência de sorte, dando para cada natividade o quociente de favor que o céu lhe reserva.
-
Compreende-se assim por que esse elemento astrológico sofreu tantas vicissitudes, pois atribuir-lhe exclusivamente uma significação favorável conduzia forçosamente a decepções.
-
Os autores antigos provavelmente supunham nos leitores um conhecimento do sentido das palavras que desapareceu necessariamente nas traduções.
-
O empenho em dar aos preceitos uma aplicação exclusivamente humana e imediatamente prática foi velando pouco a pouco a significação verdadeira do termo.
-
/home/mccastro/public_html/perenialistas/data/pages/benoist/fortuna.txt · Last modified: by 127.0.0.1
-
-
