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DO GESTO AO SIGNO

BENOIST, Luc. Signos, símbolos e mitos. Tradução de Anna Maria Viegas. Belo Horizonte: Interlivros, 1976.

  • O homem das origens reagia ao espetáculo novo do ambiente com movimentos reflexos, gestos ou gritos que expressavam emoções como medo, desejo, desgosto, curiosidade, surpresa ou admiração.
    • O gesto é coexistente à vida e anterior de vários milhões de anos à palavra, da qual não é senão uma modalidade ulterior, localizada na boca.
    • O homem primitivo se expressou primeiro por gestos tornados signos para seus familiares.
    • Esse homem não vivia isolado, mas em sociedade, como sempre viveu e como ainda se vive hoje; considerado como emissor de mensagens, era um objeto de conhecimento privilegiado, pois sua individualidade era conhecida do entorno e seus gestos eram imediatamente compreendidos por irmãos de raça e de tribo.
    • Os signos preenchem o hiato que se abre entre a sensibilidade e a inteligência, e só se compreende verdadeiramente aquilo que se pode repetir.
  • Todo gesto é precedido por uma aspiração profunda do peito, primeira fase do ritmo respiratório, e seguido por uma expiração que, em sua forma mais elementar, se exprime por um grito.
    • Rilke disse que a respiração foi o berço do ritmo.
    • O grito, terceiro tempo do ritmo respiratório e primeira manifestação de vida do recém-nascido, mostra que toda ação é uma doação de si, que todo homem deve expirar para agir.
    • Essa lei é simbolizada pelo mito hindu do sono cósmico de Brahma, cuja expiração cria um mundo que a inspiração seguinte, de ritmo milenar, reabsorve até uma próxima recriação.
  • Hans von Bülow preferiu dizer que no começo era o ritmo, corrigindo Goethe, que havia suposto que no começo era a ação, pois todo gesto e todo movimento arrítmicos se tornam ritmados pela repetição.
    • O ritmo condiciona a continuidade necessária a toda ação, a sua transformação ulterior e a sua propagação nas zonas psíquica e espiritual do ser.
    • O ritmo do indivíduo define sua forma; os yogis o definem como uma invariância na mobilidade, uma periodicidade vivida.
  • Para se expressar, o homem primitivo recorreu a signos gestuais, ainda praticados hoje, que pressupõem a experiência prévia do tato para interpretar as mensagens da vista e da audição.
    • Na China e no Egito antigos, a negação ou a recusa eram expressas pelos dois braços estendidos horizontalmente, como os agentes de trânsito contemporâneos fazem para barrar a passagem.
    • Na Índia, os mudras, mimicas compostas pelas mãos das dançarinas, traduzem as mais sutis nuances do pensamento.
    • Os trapistas contemporâneos comunicam entre si por um sistema dactilológico rico de mil e trezentos signos.
  • Outros meios de comunicação gestual concernem à audição tanto quanto à vista, com variados sistemas usados por diferentes povos e culturas ao longo da história.
    • Os negros da África transmitem informações detalhadas com apitos; os caucasianos fazem o mesmo; os ameríndios usam tambores; outros usam fogos de brousse.
    • São conhecidos os quippus dos incas, cordéis com nós usados também na China antiga; os bastões com entalhes dos antigos escandinavos, ainda utilizados como referências de fornecimento por padeiros de províncias francesas.
  • Com sinais gestuais também se experimentou a inteligência dos animais, e as sociedades animais comunicam entre si por signos diversos.
    • O Dr. Ph. De Wailly conseguiu dialogar com chimpanzés usando gestos dos surdos-mudos.
    • São conhecidas as danças informadoras das abelhas, os sinais olfativos ou em ultrassons das formigas, os cantos e cortejos rituais dos pássaros, os cento e quatorze sinais sonoros que os corvos se transmitem, os grunhidos de referência dos golfinhos e os radares dos morcegos.
  • A espontaneidade dos gestos constitui o fundamento de um método clássico proposto a atores, dançarinos e oradores, segundo o qual o gesto deve preceder e anunciar a palavra, e frequentemente substituí-la.
    • Esse procedimento é uma lei fundada nas necessidades da vida social, não um simples artifício de ofício.
    • Desde os três anos uma criança pode revelar a um psicólogo, por seus gestos, se será um mestre ou um discípulo.
  • Na elaboração da expressão do pensamento, mesmo a mais desencarnada, tudo começa por um movimento reflexo, e a emoção que está na sua origem manifesta o laço que une o físico e o psíquico.
    • Rémy de Gourmont via na palavra sentimento a fusão do fato de sentir e do fato de compreender.
    • De expressão subjetiva, o gesto se torna por repetição um signo institucional, a comunicação de uma noção e logo a sugestão de um pensamento.
    • Na filiação do gesto há uma analogia entre a formação de um hábito, a compreensão de um fenômeno e o nascimento de um símbolo.
  • Seguindo o R.P. Jousse, deve-se atribuir ao gesto uma significação muito geral: a de uma atitude essencial que utiliza os sentidos mais diversos, auditivos, visuais, olfativos e táteis.
    • Todo ser vivo pode ser considerado um complexo hereditário de gestos, e o corpo humano, um conjunto funcional de gestos fixados, tornados membros e órgãos.
    • O gesto seria a sobrevivência de uma atividade antiga estabilizada, da qual permaneceria a cabeça buscadora, o único elemento ainda livre e criador.
    • Como toda criatura tende a reproduzir o que é, o que representa e o que significa, essa semiologia do gesto fornece a melhor definição do sacramento e do rito, que não é senão a repetição de um gesto ancestral.
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