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GRITO COMO CANTO
BENOIST, Luc. Signos, símbolos e mitos. Tradução de Anna Maria Viegas. Belo Horizonte: Interlivros, 1976.
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O aparecimento da linguagem como balbucio e articulação da boca é um falso problema, pois ela nasceu com o homem, não sendo nem menos precoce nem menos natural do que os gritos dos animais.
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A linguagem se desprendeu progressivamente do esboço de canto que é o grito, nascendo de uma silabização do grito e do suspiro, e permanece em todas as ocasiões fortemente musical.
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Desde o canto popular e espontâneo, passando pela melopeia antiga, as salmodias religiosas e as canções sentimentais, até o simples falar prosaico, constata-se uma degradação insensível da densidade musical, sem que ela desapareça totalmente.
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A impossibilidade de eliminação total da musicalidade é provada pelos tons que modulam a pronúncia obrigatória de certas línguas, como o chinês ou o twi da África.
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Um rapport constante associa certas sensações a certos sons, fazendo pressentir a misteriosa analogia que une a música e a vida interior em uma afinidade ainda mal estudada.
Toda fala é identificável e única, ao menos pelo timbre, e toda voz é reconhecível por flexões e acentos tão pessoais quanto impressões digitais.Os tons da frase podem ser notados, registrados e estudados independentemente do sentido das palavras, sem que essa eliminação prejudique sua compreensão nem sua potência emotiva.-
O espectador de um filme mudo ou de uma peça em língua desconhecida, percebendo apenas gestos e sons, é penetrado pela atmosfera dos sentimentos de maneira talvez mais profunda do que pelo sentido das frases, cujo conteúdo contradiz com frequência a intenção secreta.
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Cães e gatos provam cotidianamente que o tom vale mais do que o texto.
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Esse é o segredo do êxito de certos oradores cujos ouvintes acorrem não para aprender, mas atraídos pela sedução de uma voz, para ouvi-los não falar, mas cantar.
A linguagem nasceu de um acordo fortuito, reconhecido e aceito, entre um sentimento e um som correspondente emitido pela boca, por meio de uma entonação da voz associada a esse sentimento.-
Em francês, as labiais B e M provocam o movimento de abertura dos lábios, facilitando ao mesmo tempo ações como beber, morder e murmurar; a dental T deriva naturalmente de sugar, ordenhar e puxar; a gutural G se associa a rosnar, gritar e inchar; o R evoca o escoamento e o ímpeto; o L, a lentidão e o languor.
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As vogais graves A, O, U parecem mais distantes; as vogais agudas E e I parecem mais próximas.
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Essas consonâncias são relíquias que testemunham em favor de uma antiga correlação entre fundo e forma, vestígios de uma língua muito antiga que conservaria traços de uma origem quase animal ou celeste.
Os linguistas contemporâneos abandonaram a pretensão dos sábios do século XIX de encontrar a língua primitiva, e tudo o que se pode dizer sobre o aparecimento da fala é hipótese baseada em reconstituição psicológica confrontada com os estados mais antigos das línguas datados pela glotocronologia.Os linguistas anglo-saxões supuseram várias fontes possíveis para o nascimento das línguas, nenhuma delas exclusiva e todas provavelmente redutíveis a uma fonte comum.-
A teoria do bow-wow propõe uma fonte imitativa: a linguagem teria nascido de onomatopeias que imitavam ruídos ou gritos naturais.
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A teoria do pooh-pooh propõe uma fonte emotiva: a linguagem teria se formado progressivamente a partir de sons espontaneamente expressivos associados a sentimentos definidos.
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A teoria do ding-dong propõe uma fonte harmônica: a língua evocaria uma correlação simbólica entre um som e seu impacto impressionista.
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A teoria do yo-he-yo propõe uma fonte social: a língua teria nascido dos cantos ou coros que acompanhavam o esforço muscular e ritmavam os gestos coletivos dos ancestrais no trabalho.
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Outras teorias recorrem ao desenvolvimento do primeiro balbucio infantil ou ao canto espontâneo como afirmação de uma presença.
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O que se pode reter é o aparecimento simultâneo do homem e da fala: quando o grito emitido sob a pressão de um sentimento foi interpretado pelos ouvintes como comunicação suficientemente clara para ser obedecida, de um só golpe a linguagem nasceu e com ela o símbolo, pela associação de um sentimento com a música de uma voz.
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