benoist:initiatio-medievo
ORGANIZAÇÕES INICIÁTICAS NO MEDIEVO OCIDENTAL
L'ÉSOTÉRISME. Paris: PUF, 1975
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O esoterismo, refugiado em ermitagens orientais e claustros ocidentais, recorreu a meios reservados e secretos para garantir sua continuidade, sendo as aparições públicas das organizações iniciáticas forçadas pelas vicissitudes históricas diante da religião oficial e do poder civil.
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A religião oficial ignorou as organizações iniciáticas; o poder civil as condenou.
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Os governos, como os homens, temem o que não compreendem.
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O objetivo do texto é reconstituir o filme descontínuo dessas aparições, avaliando sua sucessão, pertenças recíprocas e autenticidade provável.
A decadência das organizações iniciáticas decorreu essencialmente da ruptura dos vínculos entre elas e com seu centro, ruptura agravada pelo cisma do Oriente e pelo bloqueio árabe do Mediterrâneo, circunstâncias que as Cruzadas visavam superar, e foi nesse contexto que a Ordem do Temple, fundada em 1119, assumiu o papel de intermediária.-
A Ordem do Temple foi fundada entre a primeira e a segunda cruzada.
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Seu propósito era consolidar a conquista e manter a paz no novo reino cristão, não combater.
Os estatutos da Ordem do Temple, revisados e aprovados por São Bernardo, revelavam pela escolha do Templo de Salomão como emblema uma consciência da unidade superior das três religiões abraâmicas, o que explica as relações não apenas guerreiras que os cavaleiros mantiveram com os muçulmanos durante mais de um século.-
São Bernardo quis patrocinar uma cavalaria cristã ideal encarregada da guarda da Terra Santa.
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Os cavaleiros ocupavam em Jerusalém a mesquita de El-Aqçâ e conviviam diariamente com os árabes.
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O título de guardiões da Terra Santa sugeria consciência da unidade das tradições abraâmicas.
O poder temporal dos reis se alarmou com a fraternização que transcendia os dogmas e, impulsionado pela cupidez denunciada por Dante, obteve de Roma a condenação da Ordem, qualificável conforme o ponto de vista como inevitável ou escandalosa.-
A fraternização entre cavaleiros e muçulmanos passava por cima das fronteiras dogmáticas.
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Dante denunciou a cupidez como motivação do poder temporal.
Várias manifestações importantes das doutrinas esotéricas coincidiram com a destruição da Ordem do Temple, e iniciados cristãos e muçulmanos se articularam para manter o vínculo rompido por meio de fraternidades como a Fede Santa, os Fiéis de Amor e os Rosa-Cruz, que por prudência jamais constituíram sociedades definidas.-
René Guénon descreveu duas medalhas no museu de Viena, uma com Dante e outra com o pintor Pisanello, ambas trazendo no verso as letras F.S.K.I.P.F.T., interpretadas como Fidei Sanctae Kadosch Imperialis Principatus Frater Templarius.
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A Fede Santa era uma terceira ordem de filiação templária cujos dignitários se chamavam Kadosch, isto é, santo ou consagrado.
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Dante parece ter sido um dos chefes dessa associação.
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Guénon observou que Dante, ao fim de sua viagem na Divina Comédia, toma São Bernardo como guia, como se indicasse que a espiritualidade do santo era o único meio oferecido aos cavaleiros para alcançar o grau supremo da hierarquia espiritual.
A Divina Comédia é construída sobre uma arquitetura de símbolos esotéricos, com fontes muçulmanas identificadas pelo padre Asin Palacios e correspondências com os sete graus iniciáticos dos Fiéis de Amor, fraternidade à qual Dante pertencia junto a poetas amigos.-
As duas fontes principais identificadas por Asin Palacios são o Livro da Escada e o Livro da Viagem Noturna, obras de espirituais muçulmanos.
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Os sete céus do poema equivalem aos sete degraus iniciáticos dos Fiéis de Amor.
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A Dama dos Fiéis era a Inteligência Transcendente ou a Sabedoria Divina.
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O Cuore gentile dos mesmos Fiéis designava o coração nobre e purificado dos apegos mundanos.
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Os Fiéis de Amor deviam escrever em verso, língua dos anjos e dos deuses.
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Boccace, membro da fraternidade, indicou sua transcendência esotérica numa novela do Decameron, fazendo Melquisedec declarar que ninguém sabia qual das três fés, judaísmo, cristianismo ou islã, era a verdadeira.
A Fede Santa pode ter tido como herdeira a fraternidade dos Rosa-Cruz, que jamais tomou forma exterior e cujo termo designa um estado espiritual ligado ao hermetismo cristão e caracterizado pelo dom das línguas, isto é, pela capacidade de falar a cada um em sua própria linguagem.-
Os Rosa-Cruz adotavam os costumes dos países que atravessavam e tomavam inclusive um novo nome, sendo cosmopolitas no sentido verdadeiro do termo.
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A fraternidade manifestou publicamente sua existência em 1614 com a publicação da lenda de seu fundador Christian Rosenkreutz e de suas viagens simbólicas, feita pelo alquimista alemão Valentin Andreae.
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O selo de Lutero trazia uma cruz no centro de uma rosa; a maioria dos que foram chamados Rosa-Cruz eram alquimistas luteranos como Khunrath, Maïer e R. Fludd.
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Leibniz colocou uma rosa de cinco pétalas no centro de uma cruz no início de seu De arte combinatoria, obra sobre a característica de uma língua universal.
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Descartes tentou sem êxito entrar em contato com uma organização desse nome.
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Diz-se que os Rosa-Cruz deixaram a Europa rumo à Índia no início do século XVII, o que pode ser interpretado como reabsorção da sociedade por um centro oriental.
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Os rosacruzes modernos não possuem nenhum vínculo efetivo com os verdadeiros Rosa-Cruz, e quem assim se declara, por esse mesmo fato, não o é.
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