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LUZ DE GLÓRIA
BENOIST, Luc. Art du Monde. La spiritualité du métier. Paris: Michel Allard Éditions Orientales, 1978
* Os escolásticos distinguiam, nos dois polos da função artesanal, a arte como aptidão natural ou cultivada de fazer um objeto com retidão, e o belo como um dos transcendentais e um dos nomes divinos, separando assim o que os modernos unem e unindo o que os modernos separaram.
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A atividade humana escapa à arte e depende da virtude de prudência; mas a arte lança uma ponte entre o conhecimento e a ação, sendo um conhecimento sob forma de ato que tem em si sua finalidade perfeita.
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Os escolásticos distinguiam as artes liberais, disciplinas intelectuais como a música e as matemáticas, e as artes servis, que reclamam uma parte de execução manual como a pintura e a escultura.
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A arte é um habitus, força disciplinada, capacidade meio natural meio adquirida que tende ao máximo de perfeição; o artista não é uma espécie particular de homem, mas cada homem pode tornar-se uma espécie particular de artista, como afirmou Coomaraswamy.
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Segundo são Tomás, a arte imita bem a natureza, mas em sua operação e não em suas obras, sendo a similitude entre a arte e seu objeto apenas quanto à forma, isto é, quanto à essência, à causa e à ideia-tipo.
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A imagem preexistente não resulta de um ato da vontade do artista; ela nasce como um reflexo das coisas, visita a alma em repouso e move a vontade por uma ressonância interior que logo se traduz em ato.
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Mestre Eckhart formulou que fazer e tornar-se são idênticos; o desejo de hoje é a tarefa de amanhã.
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O artista ao trabalho pode ser comparado ao Deus criador; deve permanecer tão transparente e dócil que nada dele se mostre em sua obra senão seu ofício.
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A obra de arte criada pelo homem é inteligível por natureza, representando não a cópia de um objeto mas um reflexo no espelho das essências que constitui um espírito, sendo a arte intelectual e não voluntária.
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Se humilde e desprendido que seja, o artista não pode evitar marcar sua obra com um estilo pessoal, que é um acidente e um defeito, pois a arte só se torna inteligível e universal se supera o estilo; Deus não tem estilo porque os possui todos.
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Nenhum motivo é privilegiado; os sujeitos sagrados não são imagens mais válidas da divindade que as formas das espécies naturais; só importa a perfeição da obra que consiste em preparar todas as criaturas a retornar a Deus.
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A vida ativa conduz à contemplação; o desígnio de Deus na união contemplativa é a fecundidade em obras, pois ninguém nesta vida atingiu o ponto que libera do trabalho.
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Entre a arte e o belo não existe para os escolásticos nenhum vínculo necessário, sendo que o belo aparece mais frequentemente na natureza onde tudo é belo em seu grau, e os doutores reconhecem no belo três elementos principais chamados por são Tomás integridade, proporção e clareza, e por Ulrich Engelbert forma, harmonia e luz.
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A noção de integridade recorda que toda natureza e toda obra de arte deve ser tratada como um pequeno mundo, um microcosmo à imagem do cosmos.
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A feiura revela uma ausência, uma negação provisória; o feio se confessa um belo incoerente e fragmentário, um belo que se ignora.
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A proporção e a harmonia se reencontram na medida, lembrança da simetria pitagórica concebida como transcendental, pois Deus é a causa da harmonia cósmica.
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A luz e a clareza evocam diretamente a inteligibilidade do belo, que reúne o belo e o verdadeiro em sua origem comum, a fonte de todo conhecimento.
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A teoria do belo importa muito para a compreensão da arte medieval, em particular das catedrais góticas, cuja embriaguez cósmica testemunha uma idêntica certeza, traduzindo a doutrina dos pensadores para quem a beleza do universo ultrapassa, fora de toda medida, o trabalho humano acumulado pelos tempos.
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O pórtico norte da catedral de Chartres oferece, nas arquivoltas da porta esquerda, uma ilustração da passagem da vida ativa à vida contemplativa em doze pequenas figuras: uma mulher que lava, penteia, carda, bobina e fia a lã, depois pega um livro, reza, medita e entra em êxtase de contemplação.
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Essa reconciliação de Marta e Maria ilustra o papel preparatório e ascético do trabalho na vida do espírito; o artista figura em sua ordem uma espécie de contemplativo e a arte uma espécie de carisma.
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O elemento mais singular e misterioso da cena do Cristo em Glória é a grande auréola elíptica em forma de amêndoa que envolve o Juiz, sendo que os arqueólogos veem nessa aura o irradiação que banha os corpos gloriosos e os teólogos ensinam que essa luz de glória constitui um auxílio celeste acordado à inteligência para torná-la apta a receber a visão beatífica.
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Uma prosa do século XII atribuída a Adão de Saint-Victor explica o simbolismo: a amêndoa é o Cristo, sua casca é a dor da cruz, a divindade é escondida pela carne, e a suavidade do Cristo é representada pelo núcleo.
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A amêndoa é traditionalmente tomada como figura da divindade oculta; evoca a transformação, ou seja, a passagem além da forma e o nascimento a um novo estado do ser.
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A filologia confirma o vínculo: o latim lux, luz, e nux, amêndoa, são reunidos em hebraico por uma única palavra, luz, que possui os sentidos múltiplos de lugar oculto, amêndoa, núcleo imortal e designa também a glória que emana do lugar de imortalidade.
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O Cristo em Glória foi durante dois séculos o tema preferido da arte ocidental, sendo depois substituído nos tímpanos das catedrais pela Virgem em Majestade, que manifesta a presença divina sob a mais sedutora das aparências, e quando no século XV a pintura substituiu a escultura em sua primazia artística, adotou o tema central da Adoração dos Magos.
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A gruta da Natividade é a caverna imemorial, origem de toda arquitetura e centro de toda espiritualidade, que se torna o envelope obscuro e sagrado de uma nova era.
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Do ponto de vista iniciático, os Reis Magos inclinam diante do Deus-Criança seu duplo poder espiritual e temporal: o primeiro oferece o ouro e o saúda como rei; o segundo oferece o incenso e o saúda como sacerdote; o terceiro oferece a mirra e o saúda como profeta e Mestre por excelência.
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Essa homenagem é um testemunho legítimo prestado ao Cristo pelos depositários da Tradição Primordial, razão pela qual os anjos entoam: Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade.
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