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MUNDO DOS SÍMBOLOS

BENOIST, Luc. Signos, símbolos e mitos. Tradução de Maria Helena Trindade. Lisboa: Edições 70, 1999.

* Povos nômades e sedentários desenvolveram sistemas simbólicos distintos segundo suas formas de vida e os reinos da natureza com que interagiam.

  • Nômades e pastores, voltados ao mundo animal e ao movimento, produziram línguas ricas em expressões cinéticas, com predileção pela poesia e pela música, reguladas pelo ritmo do tempo.
  • Povos sedentários, agricultores e fundadores de cidades, exploraram os reinos vegetal e mineral, criando simbolismos de signos fixos dirigidos à vista: escrita, arquitetura e artes plásticas.
  • A complementariedade dos estados da existência corrigiu o exclusivismo de cada tendência, cruzando as vocações: os nômades ao tempo, os sedentários ao espaço.
  • A analogia entre microcosmo e macrocosmo, estabelecida pelas tradições antigas, constitui a chave do simbolismo figurativo que usa elementos da natureza para expressar concepções do espírito.
    • O mundo espiritual se reflete no espelho das coisas visíveis em imagens invertidas.
    • Antigas escrituras sagradas simbolizaram a humanização do cosmos na figura de Adão, no Qadmon da cabala e no Homem Universal do Islão.
    • Cabeça nas nuvens e pés sobre a terra, o velho Adão reconhecia um mundo espiritual no céu, um mundo psíquico na zona intermediária do espaço aéreo e um mundo carnal no plano terrestre.
    • No hermetismo ocidental, essa concepção mítica corresponde ao primordial Andrógino.
  • Todo simbolismo comporta ao menos duas interpretações opostas que devem unir-se para atingir seu sentido completo, e essa ambivalência essencial se manifesta até no nível do vocabulário.
    • Em hebraico, a palavra shet (serpente) carrega dois sentidos opostos: fundamento e ruína, justificando os dois sentidos do caduceu hermenêutico.
    • Em latim, altus significa alto e profundo; sacer significa santo e maldito.
    • Geometricamente, a função simbólica pode ser definida como uma linha reta de direção vertical percorrida em dois sentidos opostos, de cima para baixo e de baixo para cima.
  • Cada zona do espaço em que o homem se move carrega-se de qualidade impressiva diferente, por contágio com o coeficiente emocional dos gestos humanos, gerando atribuições distintas de valor à esquerda e à direita, ao alto e ao baixo.
    • Na tradição ocidental, o lado direito é ativo e benéfico; o lado esquerdo, passivo e sinistro.
    • Na tradição chinesa, a mão direita é yin (feminina), por levar os alimentos à boca, tarefa inferior; a mão esquerda é yang, por ser ociosa.
    • Um complexo hereditário sustenta essas atribuições diferenciadas às direções do espaço.
  • O homem bilateral divide o mundo em duas metades opostas e complementares, refletindo a dissimetria misteriosa do cérebro, anatômica e funcional.
    • O hemisfério esquerdo contém a zona da linguagem; o hemisfério direito preside à ação muda de um pensamento por signo, imagem e som.
    • Descobertas recentes, mencionadas em nota, demonstram que não há especialização rigorosa dos hemisférios: pelo processo de comissurotomia os dois hemisférios passam a funcionar de maneira independente, com o esquerdo comandando linguagem e pensamento abstrato nas pessoas dextras e o direito referindo-se às imagens da realidade concreta, comandando também a prosódia e a linguagem plástica.
    • Pasteur já havia notado que a dissimetria original é condição do aparecimento da vida, pois esta exige o equilíbrio de duas forças opostas, e a polaridade remonta a antes do aparecimento do reino animal, sendo visível na célula viva.
  • Psicotécnicos, grafólogos e especialistas de testes de caráter atribuem significação psíquica diferente às direções do espaço, chegando às mesmas correspondências das antigas tradições.
    • A superfície horizontal de uma folha de papel pode ser considerada a projeção de um indivíduo que traça linhas escritas, revelando três zonas escalonadas de alto a baixo: a espiritual, a psíquica e a corporal.
    • No centro da zona média situa-se a consciência do eu; na zona superior esquerda, a espiritualidade especulativa; na superior direita, a intelectualidade ativa; na inferior esquerda, os instintos sociais de submissão; na inferior direita, os impulsos de iniciativa e liberdade.
    • A parte esquerda da zona média, comandada pelo cérebro direito, seria consagrada ao passado; a direita, comandada pelo cérebro esquerdo, ao futuro.
    • A má reputação do lado esquerdo pode ser experimentalmente explicada pelo traumatismo do nascimento, ao qual o lado esquerdo do embrião parece mais exposto por sua posição intra-uterina.
  • Todo movimento que parte do centro em direção à direita caminha para o exterior, enquanto o que se dirige à esquerda refugia-se na interioridade, e todo gesto se espiritualiza elevando-se para o alto ou se materializa dirigindo-se para baixo.
    • A esquerda revela a parte hereditária e receptiva, o lado social e conformista do indivíduo.
    • A direita revela a originalidade criadora e a vontade de expansão.
  • A escrita das línguas não invalida essa cinemática caracterial, pois a direção da escrita de cada povo pode ser usada para testar e confirmar suas tradições.
    • Povos semíticos, judeu e árabe, que escrevem da direita para a esquerda, revelam retorno ancestral permanente, fidelidade extraordinária à natureza de sua raça e unicidade específica que chega à intolerância.
    • Povos como os chineses, que escrevem da esquerda para a direita mas de cima para baixo, dominam o particularismo de sua fidelidade racial por um retorno periódico à espiritualidade original e por uma tendência positiva que atribui maior importância ao resultado do que ao método.
  • O espaço mítico desempenha papel preponderante em relação à percepção sensível e ao pensamento abstrato, pois as noções de alto e baixo, direita e esquerda, antes de serem materialmente comprovadas, já estavam inscritas no espaço interior, qualificado desde sua origem pela manifestação do cosmos.
    • Diferentes concepções tradicionais dessa manifestação serão passadas em revista segundo o seu simbolismo, do céu à terra.
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