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MUTAÇÕES DO GESTO
BENOIST, Luc. Signos, símbolos e mitos. Tradução de Anna Maria Viegas. Belo Horizonte: Interlivros, 1976.
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A psicologia, as lendas tradicionais e a etimologia podem lançar alguma luz sobre a mecânica do simbolismo da linguagem, cuja origem se perde na noite dos tempos.
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Vico e Humboldt, meditando sobre a questão a partir de sua experiência de escritores em busca de termos capazes de expressar o pensamento, estimavam que, anteriormente a toda articulação verbal, existia uma força interior, uma pulsão que viam como fonte de todas as metáforas e que era a forma arcaica e embrionária da teoria do gesto.
O mecanismo pelo qual o homem primitivo formulou ideias abstratas como a de árvore pode ser reconstituído a partir da análise de como a palavra se oferece ao espírito sob a pressão do que se chama ideia.-
Os lenhadores da pré-história distinguiam perfeitamente o freixo, o bétula, o carvalho e o pinheiro porque utilizavam seus materiais para fins diferentes, correspondendo uma palavra precisa a cada uso particular, sem que ninguém sentisse a necessidade de reunir todas as essências arbóreas em uma única abstração.
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Só após um lapso de tempo provavelmente longo inovadores menos engajados em trabalho especializado, talvez mais sensíveis ao aspecto estético da floresta, conceberam a ideia geral de árvore em si.
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A alta estatura de um carvalho e a visão de uma floresta antiga despertam algo mais íntimo, intenso e geral: uma potência irresistível de ereção, uma tensão vital inesgotável e subjacente que se sente por simpatia, o que explica que, em indo-europeu, a raiz dreu, firme e dru, tenha podido dar em grego os nomes do carvalho, da árvore e do homem constante.
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Os Upanishads dizem: como a árvore, rei da floresta, tal é o homem.
O utilizador de uma palavra procede como um caricaturista que retém das múltiplas aparências do modelo um único traço suficientemente original para tipificá-lo, mas geral o bastante para ser sentido e interpretado por todos.-
Nicole já havia observado que um espectador externo é interiormente um ator secreto.
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O ator das origens que reuniu pela primeira vez na mesma sílaba a ideia do carvalho, do gênio das matas e do homem íntegro mostra que as palavras não têm valor fixo ou exclusivo, mas cumprem uma função.
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Se o gesto é bem escolhido, ele será tão revelador quanto um teste, e os psicólogos descobrirão nele a síntese de um caráter, a assinatura movente e comovente de um tipo do qual pode tornar-se símbolo.
A impulsão original de Humboldt é o início de um gesto, o começo de uma mímica inconsciente que os músculos esboçam e que se empresta às coisas, quando na verdade são elas que sugerem o movimento, e a palavra simbólica que reúne essas duas noções contagiosas desempenha o papel mediador de um verbo.-
René Guénon via na teoria do gesto a verdadeira chave do simbolismo.
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Concebida em sua acepção mais ampla, a teoria do gesto postula a reintegração da continuidade a todos os níveis de um mundo que a física quântica apresenta como dominado pelo descontínuo.
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A ação, imediata por definição, produz seus efeitos em modo sucessivo e só escapa ao provisório graças ao ritmo que comanda os gestos, os ritos e os símbolos.
Guénon afirma haver identidade entre o símbolo e o rito, não apenas porque todo rito é um símbolo realizado no tempo, mas porque o símbolo gráfico é a fixação de um gesto ritual.-
A palavra apresenta um caso ainda mais puro dessa identidade, pois toda palavra ritual é geralmente pronunciada por uma personagem consagrada cuja qualificação não depende de sua individualidade, mas de sua função.
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Essa definição é a mesma que rege o emprego do ator e o papel da palavra.
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