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PENSAR ARTESANAL
BENOIST, Luc. Signos, símbolos e mitos. Tradução de Anna Maria Viegas. Belo Horizonte: Interlivros, 1976.
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A transmissão direta e intuitiva de ideias e sentimentos ocorre apenas em circunstâncias excepcionais, obrigando em geral ao recurso a meios de expressão que, reduzidos a um elemento comum, se resolvem em uma combinação de gestos que podem parecer contraditórios.
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A dicotomia corrente entre homens de execução manual e homens que vivem de palavras e símbolos é factícia, pois todo pensamento se afirma tão artesanal quanto a mão, e os escultores que talharam as pedras das catedrais não pensavam menos profundamente que os lógicos da escolástica.
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A mão e o pensamento estão igualmente ativos diante da passividade da matéria.
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Toda expressão é superficial mesmo quando pretende revelar a essência.
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A metafísica mais elaborada se reduz a uma geometria implícita que materializa o pensamento, adaptando-se a um pensamento espacial desde sua origem.
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Os meios de expressão não devem ser confundidos com sua finalidade, erro que Descartes cometeu ao reduzir o mundo a uma combinação de movimentos no espaço e identificar todo fenômeno com o que não era senão seu símbolo, equívoco denominado em religião idolatria.
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A expressão algébrica da realidade proposta por Descartes era apenas uma notação nova e mais cômoda.
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Essa notação é tão acolhedora quanto estalagens onde cada um encontra apenas o que traz, e tão pouco reveladora quanto retratos-robôs em que todos podem reconhecer os seus.
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Entre a coisa e a ideia o símbolo ergue um simulacro, mas também lança uma ponte que vivifica toda aparência, como o jogo do ator transforma as palavras em sentimentos experimentados e em momentos emocionantes de vida.
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O símbolo assemelha-se a um figurinista de teatro que vestiria as ideias mais novas com os trapos gastos de gerações de saltimbancos, deformados pelas exigências dos personagens que sucessivamente encarnaram.
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A realidade que se esconde sob esse disfarce é inexprimível.
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Entre o nominalismo empírico, para o qual há apenas palavras, e o realismo platônico, fundado na densidade imutável das essências, o símbolo interpõe essa ponte vivificante.
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O que se chama fato é a interpretação de uma observação, como afirma Eddington, e a física não estuda qualidades inescrutáveis da matéria, mas registros de aparelhos que não têm mais relação com essas qualidades do que um número de telefone com a pessoa do assinante, asserção aplicável igualmente às matemáticas, conforme enunciado por Hilbert.
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Em álgebra, a natureza própria dos entes considerados não conta; apenas suas relações importam, que é justamente o que retém a lógica topológica.
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O fenômeno é deformado tanto ao ser percebido quanto ao ser expresso, pois só se retém da coisa considerada o que se mede em unidades de observador, e há tantas unidades quantas consciências, tornando toda expressão pessoal e não suprimindo as demais possibilidades.
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Reduzir tudo a movimentos elimina do mundo, como fez Descartes, o que lhe confere valor, ou seja, cores, perfumes, sons, o sabor dos frutos e toda a fecundidade do mundo sensível, sem a qual o próprio espaço não existiria, pois desde Einstein sabe-se que ele existe apenas pelo que nele se encontra.
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O símbolo, como um taumaturgo, ressuscita um tempo e um sentimento apagados, mas as imagens de palavras ou formas jamais são compreendidas em sua integridade tal como foram pensadas ou vividas por seu autor, sobretudo quando séculos os separam do receptor.
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Cada um é prisioneiro de seu tempo, e as próprias matemáticas são históricas.
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O espírito do homem é limitado por sua língua materna; ele vive e pensa no interior do mundo que sua cultura explora e lhe permite nomear.
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Uma encarnação sempre nova deve reanimar toda expressão geralmente admitida para ser compreendida por quem a recebe.
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Entre a noção lógica de que todo homem é mortal e a morte súbita da própria mãe há o choque de uma revelação perturbadora que transforma por magia.
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Kierkegaard expressou isso magnificamente ao dizer que só compreende a verdade quando ela se torna vida em si.
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A nebulosa intuitiva da ideia mãe jamais poderá resolver-se em simples lógica, pois subsistirá sempre algo de tradicional, anterior e dado, e a parte exprimível e aparente é, como a de um iceberg, o sinal de alerta de uma realidade incomensurável e invisível.
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Gonseth afirma que em toda construção abstrata há um resíduo intuitivo impossível de eliminar, que faz seu valor e sua significação.
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Os próprios símbolos têm seus limites, mas antes de serem fixadas, as imagens mentais constituem o guia interior e a matéria mesma da vida, e essa gesticulação patética que anima em segredo a consciência só pode nascer para a existência se se recebeu a iniciação de um sistema de signos suscetível de ser compreendido e se, como Orfeu, se tem a capacidade de libertar o próprio canto.
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Essa normalização dos signos, esse alfabeto dos símbolos e dos ritos, é o que define uma civilização.
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