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ARTE, POVOS E CIVILIZAÇÕES
BENOIST, Luc. Art du Monde. La spiritualité du métier. Paris: Michel Allard Éditions Orientales, 1978
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A arte não foi praticada em todos os tempos por todos os povos, e uma primeira e essencial diferença distingue as artes rítmicas dos povos pastores, música e poesia, das artes plásticas dos povos sedentários, arquitetos, escultores e pintores, com consequências diversas de conservação e duração.
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As artes rítmicas se transmitiam por aprendizado de homem a homem e desapareciam com a língua e a civilização de que eram oriundas.
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As artes plásticas duram tanto quanto sua realidade material e podem reaparecer após séculos de esquecimento, sem que isso signifique que sejam compreendidas como as conceberam seus criadores, pois o sentido da arte plástica depende também de uma tradição oral que, mesmo fixada pela escrita, permanece muda com a ruptura dessa tradição, como se constata para as línguas etrusca, celta ou maia.
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Os próprios povos pastores praticaram as artes plásticas, ainda que apenas para decorar a cobertura de suas tendas ou tatuar ritualmente seus corpos, sendo que os tatuagens corporais são talvez as mais antigas manifestações pintadas, com existência provada há mais de dez mil anos, e o homem de Neandertal pode ter sido enterrado com o ocre com que pintava seu próprio corpo há talvez cem mil anos.
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Do corpo do homem essa expressão decorativa passou a suas vestes, à sua tenda, aos muros de suas habitações, para se fixar enfim numa folha de manuscrito ou num painel de madeira.
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A cerâmica e o tecido contam entre as mais antigas matérias a oferecer suas superfícies às artes da cor, e os vasos ornados constituem às vezes os únicos vestígios de uma civilização desaparecida, de modo que se deve chamar pintura todo decoro de cores aplicado sobre uma superfície qualquer, seja uma pele humana, os muros de uma tumba, os vitrais das catedrais ou as tapeçarias dos palácios.
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A pintura figurativa dos quadros modernos é apenas um pequeno cantão do grande domínio da pintura decorativa, abstrata ou não.
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Nas origens da história e durante milênios a religião comandou todas as manifestações sociais e portanto a arte, sendo que os povos pastores, em acordo com sua mentalidade mais espiritual que material, proibiram na pintura toda representação figurada para evitar a adoração de ídolos, proibição que pôde ser absoluta ou relativa.
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Não existe pintura judaica antiga, salvo raríssimas exceções, mas existe uma pintura muçulmana, a mais abstrata de todas.
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Essa imensa e antiga secessão do domínio da pintura esclarece sua história mais recente, mostrando um afastamento progressivo em relação a todo sujeito e mesmo a todo objeto, indo da semelhança à abstração e do real ao imaginário.
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A peripécia da pintura abstrata coincide com a invasão da Escola de Paris por pintores da Europa central e oriental, judeus ou ortodoxos de uma espiritualidade tradicionalmente hostil às imagens, sendo que Picasso, o pintor mais representativo do século XX, é filho da Espanha ocupada pelos árabes durante dez séculos e onde a elite judaica foi intimamente assimilada pelo gênio castelhano.
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A pintura não figurativa não oferece nada de novo nem de revolucionário; é um aspecto historicamente conhecido da pintura eterna.
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Ela manifesta o refluxo de uma grande onda pictural que alternadamente vai do real ao imaginário e do imaginário ao real, sendo esse refluxo um testemunho de desumanização do mundo moderno sob a pressão de uma ciência que se mede à escala cósmica e de um mundo maquinista que encontra no antigo iconoclasmo um exemplo, um refúgio e talvez uma justificação.
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