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PRIMAZIA DO RITMO
BENOIST, Luc. Signos, símbolos e mitos. Tradução de Anna Maria Viegas. Belo Horizonte: Interlivros, 1976.
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As línguas mais antigas chegadas até nós remontam ao quarto ou quinto milênio, e para além desse limite só se dispõe do testemunho aleatório das lendas conservadas por textos sagrados dos povos da recitação e das religiões do livro: a Índia, Israel e o Islã.
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Nesses textos a palavra é apresentada como uma revelação divina à qual o ritmo está intimamente ligado, pois é esse ritmo que transmitiu aos homens a vida da qual são uma manifestação, sendo toda forma devida à repetição de um mesmo gesto.
Uma tradição islâmica relata que no Paraíso Adão falava em versos, em uma língua ritmada que até então havia sido privilégio dos deuses, dos anjos e de seus símbolos angélicos, os pássaros.-
Essa lenda é a forma tardia de uma tradição histórica muito mais antiga conservada pelos Vedas, nos quais a língua primordial e poética era chamada língua síriaca ou solar, a língua de uma Síria originária e lendária que os textos védicos situavam simbolicamente no polo, onde também localizavam o foco primitivo de seus ancestrais arianos.
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Esse centro circumpolar da tradição hindu tornou-se na mitologia grega a Tule hiperbórea e, entre os latinos, a ultima Thule, a ilha situada nos confins árticos do mundo.
Nos tempos antigos o ritmo poético não apenas facilitava a retenção, a recitação e a transmissão dos textos sagrados, mas determinava no recitante uma harmonização dos elementos inconscientes e incoordenaos do ser, por meio de vibrações síncronas que se propagavam nos prolongamentos psíquicos e espirituais de sua individualidade.-
Os ritmos, que formam a ossatura numerada da natureza inteira desde sua mais íntima substância até seus mais distantes limites, recolocavam o homem em uníssono com a harmonia cósmica que ele se tornava capaz de sentir e compreender.
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Os atos humanos podiam assim escapar à instantaneidade, prolongando suas consequências naturais e imprevisíveis em todas as direções do espaço e do tempo.
O ritmo comanda a execução de todo trabalho, tornando-o mais fácil ao transferir o esforço exigido para a responsabilidade do inconsciente e do hábito, graças ao acordo de uma respiração escandida pelos cantos de ofício.-
Esses cantos se desenvolveram junto com as diferentes técnicas artesanais, por meio de uma codificação precisa dos gestos exigidos para a realização de uma obra-prima e pelo conhecimento de um jeito de mão apto a assegurar o cumprimento de uma tarefa difícil.
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A atitude correta é tão necessária para o trabalho quanto para o rito, e um artesão pode ser julgado por seus gestos, pois o instrumento de que se serve não faz senão prolongar o esforço de seu cérebro e de sua mão.
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Como exemplo desse ritmo coletivo, menciona-se o ha-han ofegante de uma equipe de assentadores de trilhos cujos gestos eram regulados, durante a manobra perigosa, como um balé obedecendo ao fôlego de vinte homens respirando como um só.
As técnicas mais antigas, as do cesteiro, do oleiro, do tecelão, do ferreiro e do lavrador, permitiram o desenvolvimento da linguagem, e o vocabulário de toda língua é originalmente artesanal, pois gestual.-
Mesmo hoje, através das palavras mais fundamentais, é possível descobrir os gestos desaparecidos de antigos artesãos, que souberam distinguir modos de atividade diferentes cujas metáforas grosseiras servem hoje para exprimir as mais sutis nuances do pensamento.
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Se houve originalmente tantas línguas quantos clãs e famílias, apenas as exigências do aprendizado e da colaboração artesanal entre diferentes grupos ou tribos permitiram a generalização de termos técnicos e o aparecimento de uma língua comum compreendida por todos.
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