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RITOS
BENOIST, Luc. Signos, símbolos e mitos. Tradução de Anna Maria Viegas. Belo Horizonte: Interlivros, 1976.
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Um rito pode ser definido como uma sequência de gestos respondendo a necessidades essenciais e executados segundo uma certa euritimia, sendo que sua etimologia sânscrita designa o que é conforme à ordem, e sua origem se perde na noite dos tempos, permanecendo desconhecida mesmo de quem o pratica.
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Os ritos não têm nada de gratuito, sendo gestos simples tornados procedimentos de realização compostos de cantos, músicas e palavras que reproduzem atitudes naturais originalmente reflexos espontâneos em circunstâncias análogas às mesmas necessidades.
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São gestos elementares realizados cotidianamente, acompanhando as maneiras de viver, caminhar, vestir-se e manifestar benevolência ou hostilidade.
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Os ritos do banho, da refeição, do amor e da morte santificam os momentos maiores da existência, como o nascimento de uma criança, as ablações do batismo, o casamento, os funerais com a deposição do defunto como uma semente destinada a renascer, e o banquete que completa toda cerimônia verdadeira e que o simbolismo nutridor da Eucaristia santifica.
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Todos os ofícios têm seu ritual, e a agricultura antiga, a arquitetura, especialmente a dos templos, e a metalurgia, cujo simbolismo se transformou em alquimia, obedeciam a regras religiosas.
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Na aurora dos tempos arcaicos não havia diferença entre gesto profano e rito sagrado, pois o domínio profano não existia, e em uma civilização tradicional toda função era sacerdócio, sendo a noção de impureza apenas uma má interpretação do caráter sempre positivo dos ritos autênticos e um desconhecimento de sua ambivalência essencial.
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Toda ocupação cotidiana era ritual, e os próprios homens de hoje repetem ritos antigamente sagrados tornados profanos ao tirar o chapéu, inclinar a cabeça ou estender a mão, sendo que um texto confuciano afirmava que os ritos permitiam unir vontades, dirigir ações, harmonizar almas e alcançar um equilíbrio geral das forças físicas e sociais, o que faz de Confúcio uma espécie de Pitágoras chinês.
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Na China antiga, modificar um rito era um crime punido como tal.
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Essa harmonização coletiva era uma aplicação da lei das correspondências sutis que religa os diferentes níveis do ser humano.
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Certos ritos religiosos chamados sacramentos permitiram e permitem transmitir uma influência espiritual que facilita uma realização metafísica.
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Os ritos acabaram por delimitar um círculo reservado, isto é, sagrado, nas civilizações que laicizaram o conjunto de seu domínio, e tornar sagrado o que se faz e o que se é chama-se sacrificar, dedicando esses atos às potências invisíveis das quais se espera ajuda e proteção.
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As formas dessa súplica muda foram inumeráveis, desde os sacrifícios humanos dos astecas e dos egípcios nas primeiras dinastias até as matanças das grandes guerras.
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Os sete sacramentos cristãos tornaram-se puros símbolos cujas orações conjuntas precisam a significação.
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Entre os arianos védicos, a noção de sacrifício recebeu um desenvolvimento extraordinário; Alain Daniélou revela que houve na Índia sacrifícios do cavalo que duraram anos, empregaram milhares de sacerdotes e absorveram a renda de grandes reinos.
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A atividade ritual se insere no curso do ano, dos meses e dos dias obedecendo aos ritmos fundamentais que comandam a vida, os do ritmo cardíaco e da respiração, sendo que o ritmo do pé batendo no chão engendrou a dança, gesto primitivo e primordial manifestado nas danças do urso na China e na África negra, e nas danças do bisão, da águia, do condor e da serpente entre os ameríndios.
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A Índia oferece o estado mais elaborado dessa pulsação vital com a figura de Shiva, deus da atividade e da alegria cósmica, cujo aspecto popular é o de Rei da Dança, o nataraja, que manifesta a energia da vida sob o incessante confronto de duas forças opostas.
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Uma mão direita do deus maneja um pequeno tambor que escande o ritmo de sua dança; uma mão esquerda apresenta em sua palma uma língua de fogo.
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Ele dança sobre o corpo esmagado de um pequeno anão que figura o homem mergulhado na ignorância.
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A auréola de chamas que o envolve representa a vitalidade inesgotável da natureza e a luz do conhecimento.
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As dançarinas hindus desenvolvem a expressão dos oito sentimentos codificados por sua arte por meio de 50 gestos das mãos, os mudras, e 125 atitudes do corpo.
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As danças sagradas introduzem nos bastidores do teatro grego, onde reinava a choreia, a rítmica que unia poesia, música e dança e que possuía na vida dos helenos uma importância maior que a das artes plásticas, sendo que Platão declarava que os jovens deveriam não apenas dançar em perfeição, mas ser a perfeição.
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Os mistérios órficos e dionisíacos comportavam danças, assim como os mistérios medievais ocidentais.
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O teatro no, no Japão, oferece um exemplo comparável de simbolismo teatral, com atores que acompanham suas atitudes hieráticas de um texto salmodiado, encenando geralmente cinco no por sessão em torno de uma lenda antiga.
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Um peregrino ou viajante chega a um lugar ilustrado por uma lenda antiga, narrada por um camponês do lugar.
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Os personagens do drama aparecem como espíritos ou fantasmas, interpretados pelos habitantes da aldeia, alguns usando máscaras, todos movendo-se com uma lentidão ritual.
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Dez figurantes formam o coro à esquerda; uma flauta, dois pandeiros e um tambor formam a orquestra à direita.
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Prosseguindo pela via do ritmo, da dança à música e ao teatro, encontram-se as festas rituais celebradas no início e no fim do ano com o objetivo essencial de renovação, geralmente simbolizado pela extinção e reanimação do fogo, rito ainda praticado nas fogueiras de São João e diante do túmulo do Soldado desconhecido sob o Arco da Estrela, o que prova que, além dos ritos religiosos, existem ritos civis que são suas contrafações modernas.
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Atividades que parecem hoje simples jogos foram rituais, como o xadrez, o tarô, a pelota e o balanço, sem esquecer as máscaras do Carnaval que, como as Saturnais antigas ou as Orgias primitivas, permitiam limitar a alguns dias ou semanas os excessos proibidos em outros momentos.
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Entre os sioux confinados nas reservas do Dakota, o Cachimbo sagrado, o Calumet descido do céu, cuja fumaça sobe como incenso, representa segundo F. Schuon uma síntese doutrinal e um instrumento ritual em torno do qual se organiza a vida espiritual dos Peles-Vermelhas, comportando o ritual completo três fases desde a purificação pela fumaça, sua expansão às dimensões do universo e seu simbolismo do sacrifício pelo fogo.
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No Japão, a cerimônia do chá deriva de um ritual instituído pelos monges zenistas que tinham o hábito de beber seu chá numa tigela diante da imagem de seu fundador Bodhidharma, e tudo que é necessário a esse rito, desde a casa do chá, o jardim ao redor e a alameda que a ela conduz, transmite uma impressão de simplicidade, serenidade e pureza.
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Os mesmos japoneses adeptos do zen praticam o rito do tiro ao arco, no qual a maestria da arma é condicionada pela maestria de si mesmo, devendo o atirador tornar-se hábil e desapegado o suficiente para retesar o arco tão naturalmente quanto respira e soltar a flecha de modo suficientemente inconsciente para atingir o alvo de olhos fechados.
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A flecha sendo o arqueiro e Deus o alvo, só se pode atingi-lo graças a um desapego absoluto dos vínculos temporais.
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O tiro ao arco conduz aos rituais antigos da caça e da guerra que se tornaram na cavalaria ritos de iniciação, assim como os diferentes estágios iniciáticos em muitas tradições são considerados etapas de uma viagem ou navegação, cujas aventuras, como as de Ulisses na Odisseia ou as do herói chinês do Si-Yeou-Ki, podem ser vistas como uma ilustração dos Pequenos Mistérios.
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O estado de errância é um estado de provação.
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O teatro está ligado à viagem por sua origem, que em todos os povos começou por ser ambulante.
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A escrita constitui o último e talvez o mais importante dos ritos, sendo um símbolo da língua falada que é ela mesma simbólica, portanto um símbolo de segundo grau, tendo evoluído ao longo de trinta mil anos pelos estágios dos pictogramas pré-históricos, dos ideogramas egípcios e chineses e dos alfabetos silábicos e alfabéticos dos fenícios, sem que haja necessariamente evolução de uns para os outros.
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Os ideogramas constituem o que se poderia chamar escrita absoluta, independente da língua falada, linguagem sintética e muda, puramente visual, como os algarismos chamados árabes, compreensíveis por todos os povos mesmo que os nomeiem com palavras diferentes.
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Praticada originalmente por sacerdotes e secretários dos antigos soberanos, a escrita foi por muito tempo um depósito sagrado protegido como eco de uma língua original, cuja forma das letras era ela mesma hierática.
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O mundo era considerado um livro que desvelava a mensagem divina, e as escrituras tradicionais não eram senão traduções em língua visível.
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René Guénon afirma que a ciência das letras era o conhecimento de todas as coisas, e a caligrafia, que reproduzia o processo cosmogônico, era um rito prévio à iniciação dos escribas, todos clérigos na origem.
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