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DA SENSAÇÃO AO CONHECIMENTO

BENOIST, Luc. Signos, símbolos e mitos. Tradução de Anna Maria Viegas. Belo Horizonte: Interlivros, 1976.

  • A sobrevivência do homem desde as origens dependia de atenção constante aos sinais transmitidos pelos seres e coisas do ambiente, necessidade que permanece atual ainda que ilusoriamente atenuada pela civilização.
    • Todo primata via-se obrigado a prestar máxima atenção aos sinais do entorno a cada instante.
    • Hoje como ontem, uma vigilância contínua e subconsciente se exerce sobre a ambiência cotidiana: alimentação, clima, trânsito, encontros ao acaso.
    • A vida do homem dependia, desde a origem, de sua função de conhecimento, mesmo que elementar.
  • A dimensão das mensagens recebidas do ambiente varia segundo o órgão receptor, e os três sentidos mais concretos, tato, paladar e olfato, ajustam-se a objetos próximos com especificidades distintas e limitadas.
    • O tato é cego, polivalente e pouco seletivo, misturando noções de forma, peso, calor, resistência e textura.
    • O paladar revela sabores tão exclusivos que se resigna a subdividi-los grosseiramente em quatro grupos: amargo, ácido, salgado e doce, aos quais a China acrescenta o acre.
    • O olfato humano, longe de ser utilizado como o dos demais mamíferos, reparte subjetivamente os odores em apenas dois grupos elementares, agradáveis e repelentes, enquanto cães e gatos individualizam os mil odores do mundo como o homem individualiza fisionomias.
  • A audição e a vista, sentidos mais intelectuais, informam sobre fontes em geral fora do alcance, mas carregam um caráter conjectural que limita a certeza do conhecimento que proporcionam.
    • Do perfume de uma flor ao ruído de um sino e ao brilho de uma estrela, a fonte das informações se afasta progressivamente, podendo a claridade de uma estrela datar de milhares de anos-luz.
    • O olho pode perceber a chama de uma vela a dezessete quilômetros, mas não garante a certeza de que se trate realmente de uma vela.
  • A audição limita-se a uma zona de dez ou onze oitavas, e a identificação precisa de uma nota exige musico consumado, numa informação que só outro músico igualmente dotado poderá compreender.
  • A imprecisão subjetiva dos sentidos deriva de todos provirem da pele e do tato, que Epicuro já considerava o sentido fundamental, e as mensagens sensoriais devem atravessar numerosos centros nervosos antes de serem assimiladas.
    • Os demais sentidos se destacaram do tato por especificação do ectoderma embrionário, conservando muito de sua superficialidade.
    • As mensagens das células sensoriais percorrem medula, hipófise, hipotálamo, corpo estriado e córtex, que sintetizam essas mensagens e as comunicam às funções motoras para sua interpretação racional.
  • Leibniz, retomando o adágio escolástico de que nada há na inteligência que não tenha passado pelos sentidos, acrescentou a correção fundamental de que a própria inteligência é exceção, restabelecendo no primeiro plano da apreensão dos signos a atividade do pensamento, posição antecipada por Plínio na afirmação de que é por meio do espírito que se vê.
  • A psicologia contemporânea chama de projeção a interpretação pela qual o intelecto faz passar cada signo percebido, sem a qual ele permaneceria incompreensível, e Alberti havia reconhecido o fato no artista.
    • Cada nova mensagem é interceptada por um crivo de referências estritamente pessoais.
    • O termo supra-impressão, tornado familiar pelo cinema, seria mais evocativo que projeção, por revelar a natureza retroativa desse palimpsesto de imagens que faz reviver, para toda percepção nova, uma sensação antiga instintivamente reaparecida.
  • Nada pode ser compreendido sem que remeta a uma recordação, e nada pode ser admitido sem que se possa aproximá-lo de um precedente conservado na memória, verdade repetida por pensadores de todos os tempos.
    • Platão afirma que o conhecimento depende de uma reminiscência.
    • Diderot afirma que a palavra dor só começa a significar algo quando faz retornar à memória uma sensação já experimentada.
    • Goethe afirma que só se vê aquilo que se conhece.
    • Cassirer afirma que não se pode admitir a existência de uma coisa sem que se lhe possa dar uma significação.
    • Proust redescobriu essa coincidência de duas experiências afastadas, alargando seu campo até confundir duas ambiências geográficas e sentimentais, dois momentos e duas situações de sua vida, evocados pelo sabor da madeleine de Combray e pelo contato dos calçamentos desiguais de São Marcos.
  • Toda sensação faz retornar à superfície da consciência um esquema mental esquecido, um signo correspondente a uma impressão já experimentada, permitindo classificá-lo numa estrutura temática da memória, reconhecê-lo e aceitá-lo, operação que Gombrich definiu na frase: decifrar uma mensagem é perceber uma forma simbólica.
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