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TEÓSOFOS

L'ÉSOTÉRISME. Paris: PUF, 1975

Embora a Reforma estivesse muito distante de qualquer esoterismo, ela respondia indireta e “funcionalmente” a certas aspirações desse tipo. Isso explica por que ela conseguiu dar espaço, especialmente em seus primórdios, a personalidades tão excepcionais como Jacob Boehme.

Ele surgiu como um verdadeiro “inspirado”, dotado do dom das línguas em um meio de médicos alquimistas e astrólogos, herdeiros de Paracelso, que viviam um pouco à margem dos reformados oficiais. Ele adotou o vocabulário do hermetismo. Sozinho no Ocidente, ele conhece e utiliza, com Gichtel, a noção dos centros psíquicos do homem. Com Eckhart, ele fala do nascimento eterno do Filho e da deificação pelo Verbo. Daí seu Ungrund, seu “Sem Fundo” indeterminado, correspondente ao Não-Ser metafísico. Ele pertence a essa linhagem de pensadores que, diante da imutabilidade da lógica escolástica, exaltam o desenvolvimento metódico da Sabedoria interior, noção que se encontra com a da Sophia ortodoxa, como gostava de dizer N. Berdiaeff.

Como e por que a Divindade se torna criadora é o que Boehme tenta dizer em sua linguagem. Ele o diz com dificuldade, pois para ele o criador é o Mysterium Magnum, o grande mistério. Como é inspirado, ele vê brotar todas as hipóstases do “Sem Fundo” porque esse “Sem Fundo” é liberdade absoluta ou, como diriam Leibniz e Guénon, Possibilidade Universal. Jacob Boehme, como os metafísicos alemães, enfatiza o aspecto da fecundidade ativa do possível, cuja primeira hipóstase é, como vimos, a Sabedoria. A natureza desta é dual, imagem e semelhança da Divindade em si mesma e da Divindade no homem. Ela possui a natureza andrógina que lhe foi reconhecida pela cosmologia hermética. A oposição dos contrários marca toda a criação, na qual se encontram as diferentes “assinaturas” das coisas que o homem reúne em si mesmo. Pela Sabedoria e pelas assinaturas, o homem é a imagem do mundo e uma imagem de Deus.

O espírito de Eckhart, herdado por Boehme, também inspirou o lirismo de Angelus Silesius, ligado a Frankenberg, amigo, editor e biógrafo de Jacob Boehme. Seu caminho é o do amor e sua expressão é a linguagem dos poetas. Em seus versos, ele gosta de exaltar as dualidades contraditórias em fórmulas abruptas. “Deus não pode nada sem mim”, “Deus é puro nada”, “eu sou como Deus e Deus é como eu”, antíteses aparentemente fáceis, mas carregadas de significado e que valem pela ressonância do espírito boehmiano, e cuja longa descendência chegará até os românticos.

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