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PESSOAS DO VERBO

BENOIST, Luc. La Cuisine des Anges. Un essai sur la formation du langage. Paris: AWAC Bretagne, 1978

  • A origem da palavra está ligada ao corpo e ao mundo, pois o nascimento da fala é uma co-nascença com o corpo, que por sua vez co-nasce com o mundo, expressando a palavra o pensamento por intermédio do corpo e do mundo.
    • O desenvolvimento poético dessa ideia é atribuído a Paul Claudel em sua obra “Art poétique”.
    • O corpo serve como elo entre o pensamento e o mundo.
    • A voz surge no homem através do contato com a terra.
  • A palavra é uma serva subordinada ao corpo, utilizada pelo pensamento para organizar a ruma contínua dos órgãos, impondo ritmo e silêncios, de modo que o desenvolvimento do pensamento é análogo à expansão regulada do silêncio sobre o sopro primordial.
    • A palavra capta a rumores dos órgãos e ordena seus gritos.
    • Tanto o pensamento quanto a música consistem na expansão do silêncio sobre um sopro contínuo.
  • É possível observar a primeira manifestação encantatória da palavra em multidões tomadas por uma exaltação coletiva.
    • A excitação coletiva aquece o pensamento e desata as línguas.
    • Nesses momentos, a fala coletiva revela uma súbita escapada do ritmo expressivo.
  • As emissões vocais confusas das multidões, como murmúrios e gritos, anulam a distinção dos tempos e remetem a estados extáticos e proféticos.
    • Esses sons lembram os prelúdios dos profetas e as vaticinações da Pítia em Delfos.
    • A abolição da diferença dos tempos é uma característica dessas manifestações.
  • O balbucio pouco articulado das multidões, rico em sonoridades, jamais ultrapassa os sons emitidos pelos recém-nascidos do espírito.
    • Caracteriza-se pela abundância de vogais, aliterações e assonâncias.
    • É comparado aos vagidos, mantendo-se em um estágio primário de expressão.
  • Esse tipo de fala revela a qualidade irredutível da palavra, que consiste em uma silabização do suspiro e cujo poder de sugestão se baseia na compreensão natural de uma linguagem de gritos.
    • A criança compreende as palavras antes de conhecê-las, assim como a multidão intui a lógica interna do sentimento.
    • A eficácia da palavra primitiva supõe uma compreensão prévia e encarnada.
  • A doutrina que liga a palavra ao gesto é evidente e atual, postulando que a palavra é movimento e gesto, repetindo em um nível superior a mimese harmoniosa que, na Grécia, era expressa por Polímnia.
    • Um ser imóvel não poderia falar e nem teria necessidade disso.
    • A palavra, como gesto, repete a mímica que unifica as atividades humanas.
  • O gesto da palavra, embora uno, é complexo, implicando uma harmonia de órgãos que cooperam para um fim, de modo que a primeira sociedade do homem é a de seus próprios sentidos, e um primeiro grito já continha em si toda uma conversa.
    • O primeiro grito, mesmo na solidão, incluía as três pessoas verbais de forma confusa, mas essencial para que pudessem emergir posteriormente.
    • A língua não basta para falar; são necessárias também as orelhas e a consciência, as outras duas pessoas do verbo.
  • Em toda linguagem, manifesta-se a condição de nosso ser, permitindo avaliar a qualidade dos órgãos e sentidos, como o olho, o tato, a audição e o gosto, que, assim como a agilidade das mãos ou a gourmandise, contribuem para desatar a língua.
    • A perfeição ou o defeito de um aparato corporal se faz ouvir na fala.
    • A relação entre o desenvolvimento motor e a fala é exemplificada pela criança que, se anda tarde, fala menos rapidamente e pior.
  • A preocupação intelectual excessiva tende a se fixar em fórmulas monótonas e defeitos de retórica que traem tanto a fadiga do corpo quanto a obsessão do espírito, sendo o ideal o equilíbrio encontrado no dançarino ou no clown.
    • Clichês, repetições e ênfase são sinais de um desequilíbrio.
    • O perfeito domínio do corpo é apresentado como modelo para a expressão.
  • A palavra está ligada não apenas ao corpo, mas também às coisas que o prolongam, pois o corpo, como coisa privilegiada, confiou à palavra seu segredo, que é também o segredo do mundo.
    • O homem nasce no meio das coisas, e o corpo estabelece essa relação.
    • O segredo do mundo é comunicado através da palavra, por intermédio do corpo.
  • O corpo possui uma sabedoria que supera a consciência, pois seu instinto é tão seguro que se confunde com a razão, acumulando um passado imenso e servindo como testemunho privilegiado do mundo e da memória.
    • Desde o nascimento, o corpo é tão velho quanto o mundo.
    • Por meio do corpo, a fala se torna veículo da memória e do passado.
  • Conhecer e falar são atos equivalentes a lembrar, e termos como hereditariedade, sensação, tradição e conhecimento designam aspectos de um mecanismo comum.
    • A sensação e a memória são processos intimamente ligados.
    • A tese de que a sensação pode ser reduzida à memória encontra respaldo em Platão.
  • Materialmente, o corpo é uma sensação global e duradoura que se mantém enquanto persiste sua ressonância perfeita com o ritmo universal.
    • A duração do corpo como sensação depende da manutenção de sua tensão originária.
    • Essa permanência vitoriosa permitiu que o corpo confiasse tudo à palavra.
  • O primeiro homem, em seu balbucio, possuía tanto conhecimento quanto Shakespeare, pois o estado de civilização é, por definição, o estado primitivo do homem.
    • A língua incipiente do homem primitivo já buscava expressar um conhecimento total do universo.
    • A ideia de que a civilização é um estado primitivo não é um paradoxo, mas uma definição.
  • Embora seja interessante o estudo histórico das contribuições da vida social para o aperfeiçoamento do instrumento verbal inato, a sociedade do homem não se restringe ao meio social, mas abrange toda a natureza.
    • A família, o trabalho e a vida social são aperfeiçoamentos ocasionais da palavra.
    • A palavra é a participação humana no canto plano universal.
  • A vida das coisas é conhecida porque o homem é seu desejo ou dor ativa de estar com elas, movido por uma sede de conhecimento e uma cobiça do mundo, como as figuras mitológicas que se encarnaram ou se metamorfosearam por amor às coisas terrestres.
    • O homem desce à terra impulsionado pela cobiça do mundo.
    • A relação com o mundo é de desejo e metamorfose, como nas fábulas.
  • Uma palavra verdadeira é um ato de assentimento e união ao mundo, uma resposta amorosa que continua o gesto do corpo, e os grandes séculos de expressão artística coincidem com os séculos de fé, não por acaso, mas por uma lei.
    • A palavra verdadeira diz “sim” ao mundo.
    • O corpo é um gesto geral de união ao mundo.
  • Ao falar, o homem não expressa apenas sua primeira pessoa e seu pensamento, mas também escuta as coisas, pois as palavras foram recolhidas por ele em seus lábios inspirados, no meio da fala contínua que acompanhava sua paixão de viver.
    • As palavras não foram escolhidas arbitrariamente por uma consciência pré-existente.
    • Linguagem e consciência nasceram simultaneamente nesse processo de escuta e recolhimento.
  • Essa visão se distancia daquela dos filósofos que concebem a origem da linguagem como uma tarefa arbitrária e inexplicável imposta pelo homem para traduzir a essência do mundo.
    • A ideia de um homem mudo que um dia decide criar palavras para expressar uma essência desconhecida é rejeitada.
    • A perspectiva apresentada se opõe à noção de uma invenção consciente e utilitária da linguagem.
  • Reafirma-se a concepção platônica de que a mimese não exprime a essência das coisas, mas as reproduz.
    • A mimese é um ato de reprodução, não de tradução de uma verdade essencial.
    • A autoridade de Platão é invocada para fundamentar essa distinção.
  • A palavra, como canto espiritual da sinfonia mimética que é o homem, não traduz a verdade do mundo, mas reproduz seus atos, com o homem imitando as coisas por meio de gestos e palavras que correspondem à ideia que esses gestos fazem nascer.
    • A correspondência entre a palavra e o ato do mundo é a base da mimese.
    • O ato de imitar as coisas gera a ideia que encontra expressão na palavra.
  • Nessa correspondência originária reside o mistério profundo da linguagem, uma união surpreendente e natural que os hindus atribuíam a uma convenção divina que confere sentido imediato às modulações do sopro.
    • O centro das meditações sobre a linguagem é essa união nativa.
    • A explicação hindu remete a uma convenção divina como fonte da compreensão imediata.
  • Em um universo profundamente conhecido por sua alma, mas onde sua razão chegava sempre nova, o homem primitivo, como uma criança, imitava as coisas para nomeá-las, enviando-lhes uma mensagem de simpatia por meio do movimento, elemento comum entre ele e o mundo.
    • A nomeação das coisas era um ato de imitação, uma forma de torná-las favoráveis.
    • O movimento era o intermediário universal que permitia a mimese das atitudes e gestos das coisas.
  • Essa pantomima ancestral é repetida cotidianamente, pois por trás de toda palavra subsiste o gesto que ela substituiu, como um suporte necessário, fazendo da palavra a extremidade sensível e sonora de um gesto inibido.
    • O espectador exterior é, no íntimo, um ator secreto, segundo Nicole.
    • A palavra necessita, para nascer, de afecções motoras, ideias ativas e desejos (motions), não de imagens estáticas.
  • O homem não é um contemplador impassível da natureza, mas reage em cumplicidade com as coisas, repetindo continuamente o movimento do mundo com uma docilidade que o sustenta e o consome.
    • O filme do mundo sofre uma perpétua sobreimpressão da alma humana.
    • A vida é um vibrar em sintonia com o mundo, uma vibração que, embora canse, é a condição da existência.
  • Mesmo na inatividade aparente, viver é fatigante, pois se vive a própria vida ou a dos outros, e as emoções, mesmo mais brandas, se multiplicam, compensando em número a falta de intensidade.
    • A experiência da vida é sempre ativa, seja por ação própria ou por empatia.
    • A quantidade de emoções compensa sua possível menor potência.
  • É por meio da ação interior, das atitudes que os músculos esboçam e retêm, que o homem, mesmo imóvel, toma a medida do mundo, constituindo esse processo o primeiro estágio materialmente tangível do pensamento, eternizado por Rodin em seu “Pensador”.
    • O arpentage interior é o movimento pelo qual o homem dimensiona o mundo.
    • A tensão muscular no “Pensador” de Rodin capta esse momento inicial do pensamento.
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