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TRÊS PESSOAS DO VERBO

BENOIST, Luc. Signos, símbolos e mitos. Tradução de Anna Maria Viegas. Belo Horizonte: Interlivros, 1976.

  • Tomando Cassirer como guia, é possível surpreender o aparecimento progressivo das partes do discurso a partir da nebulosa da frase, constatando-se em que medida o caráter dessa progressão é dominado pelos gestos do eu.
    • Como Humboldt já havia dito, os pronomes, substitutos dos nomes próprios e representativos das pessoas, foram os elementos mais precocemente isolados, e o pronome possessivo apareceu antes mesmo do pronome pessoal.
    • A ideia do eu, como se constata na criança, só se desprendeu lentamente de um conjunto no qual a pessoa permanece ainda ligada aos objetos familiares que a cercam.
    • Isso parece provar que o sentido da propriedade, dependendo do instinto de conservação, não é uma contribuição tardia de uma civilização avançada.
  • Toda conversa ou mensagem supõe o rapport de três entidades: duas que dialogam a respeito de uma terceira, muda ou ausente.
    • O terceiro personifica o outro, como o coro antigo, e é um figurante vago que não é longe de ser apenas uma presença.
    • A desigualdade que distingue o eu, o tu e o ele é geometricamente marcada no espaço pela importância decrescente que o eu, entronizado no centro da ação, atribui às pessoas e às coisas que dele se afastam.
    • O tu permanece suficientemente próximo para ser considerado um confidente a quem se pede conselho ou se dá uma ordem; o ele, de quem se fala, se confunde ao longe na multidão, sendo apenas um representante simbólico, o Outro, como diria Platão.
  • A vocalização das letras iniciais dos pronomes trai os sentimentos do locutor e a importância de sua situação.
    • O I agudo de aqui!, que o dono de um cão lhe ensina a compreender e respeitar, caracteriza o que é próximo e é natural que termine a palavra moi (eu em francês).
    • O A grave e reduplicado de là-bas indica um afastamento no espaço, no tempo e mesmo no interesse que se lhe dedica.
    • O M do moi está associado a tudo o que é íntimo e centrípeto, como Mãe e Morada; as letras T e D estão associadas às tendências centrífugas e são os ideogramas universais do outro, cujo pronome demonstrativo latino iste designa aquele cujo nome só se pronuncia com nuance de desprezo ou desgosto.
  • Com as três pessoas aparecem os três primeiros números, associando-se ao eu o Um, ao tu o Dois e ao ele o Três, que nas línguas mais primitivas, como entre os bosquímanos, representa uma pluralidade indeterminada, isto é, muito, como ocorre com a palavra cem no francês e no chinês, e mesmo com a palavra très, derivada também de três.
  • O primeiro locutor expressou seus rapports com as coisas que o cercavam a partir de sua própria pessoa, colocada no centro de sua atividade, recorrendo às posições do corpo e aos gestos da mão nas diferentes direções do espaço.
    • O dedo indicador da mão direita foi dirigido para a coisa que se queria assinalar à atenção do interlocutor, aquela coisa cujo nome se contentará de dizer mais tarde, pois dizer se liga etimologicamente a uma raiz que significa mostrar com o dedo.
    • A palavra aparece assim como um gesto supletivo e logo substitutivo, que economiza a execução de um gesto efetivo e tem a vantagem de poder ser ouvido por um interlocutor incapaz de ver.
    • A ajuda da etimologia, essa arqueologia da linguagem, tão delicada de interpretar quanto os vestígios desenterrados pelos pré-historiadores, permite precisar o mecanismo simbólico das palavras.
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