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CIÊNCIAS NÃO HUMANAS
BORELLA, Jean. ENSAIOS.
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O século vinte caracteriza-se pela profunda intoxicação ideológica promovida pelas ciências humanas, cujos maiores expoentes, Marx e Freud, impuseram uma visão do homem como ser puramente econômico e passional que passou a pautar até mesmo as adaptações da teologia contemporânea.
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Marx identificado como o fundador da ciência do homem coletivo e social.
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Freud identificado como o fundador da ciência do psiquismo individual e do desejo.
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Penetração dos pressupostos científicos no estado de evidência e nos reflexos especulativos.
A eventual rejeição do conteúdo ideológico do marxismo ou freudismo não elimina o hábito mental duradouro de tratar o ser humano estritamente como um objeto de ciência mudo, cujas próprias expressões de autoconhecimento são invalidadas e substituídas pela interpretação exclusiva dos especialistas.-
Crença na exclusividade das ciências humanas para o fornecimento do saber real e guia de ação.
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Ignorância da diferença fundamental entre a humanidade falante e colônias de animais silentes.
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Exigência metodológica de que o objeto de estudo permaneça calado perante a voz do observador científico.
A crise estrutural do catolicismo exemplifica de forma clara o processo de distanciamento científico, uma vez que clérigos imbuídos de saber acadêmico passaram a tratar as necessidades espirituais do povo cristão com a mesma frieza e distanciamento aplicados pelos cientistas às culturas populares.-
Imposição de bouleversements religiosos originada por uma elite clerical auto-suficiente.
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Subordinação direta da atitude clerical à postura padronizada pela ciência.
A percepção ocidental na Idade Média sobre as diferenças culturais pautava-se por um olhar de constatação séria destituído do distanciamento museológico que caracterizaria o questionamento posterior de Montesquieu sobre a possibilidade de se ser persa.-
Ocorrência frequente de viagens medievais de comércio, exploração e evangelização.
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Ausência da concepção de costumes exóticos como peças de zoologia humana.
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Reconhecimento pleno das sociedades distintas como expressões de igual possibilidade humana.
A perda da referência em Deus como definidora da natureza humana entre os séculos dezesseis e dezoito levou a civilização europeia a universalizar sua própria razão como modelo único, transformando o bom selvagem idealizado por Diderot e Rousseau em um mero europeu despido de cultura.-
Substituição da definição do homem como imagem de Deus pela auto-referência racional.
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Classificação das civilizações divergentes como anomalias perante o modelo post-medieval.
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Desprezo velado pela cultura real do selvagem em favor de um estado de pureza teórica e abstrata.
A fundação de disciplinas como a etnologia e a antropologia no século dezenove isolou a dimensão cultural do ser humano para estudá-lo mediante a fixação de uma distância intransponível entre o observador pretensamente dotado de razão e o observado tratado como mera espécie zoológica irracional.-
Analogia entre a criação de museus de botânica e a fundação do Museu do Homem.
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Incapacidade metodológica de indagar as razões dos povos estudados sobre seus próprios costumes.
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Postulado de que o cientista compreende o homem selvagem melhor do que este compreende a si mesmo.
A sociologia despontou no início do século vinte como o desdobramento da presunção científica europeia que, amparada por um imenso sentimento de superioridade, passou a aplicar o mesmo princípio implacável de distanciamento e silenciamento aos próprios cidadãos do Ocidente.-
Mudança do foco de medição craniana de povos exóticos para camponeses europeus.
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Manutenção absoluta do princípio da não consideração das falas dos próprios sujeitos estudados.
A superação da demasiada proximidade cultural na análise sociológica europeia, invertendo a lógica do distanciamento geográfico literário proposta por Racine, exigiu que os costumes locais fossem rebaixados à condição de sobrevivências anacrônicas de um passado extinto, alimentando a aceleração da ruína industrial.-
O afastamento no tempo utilizado como compensação para a falta de afastamento no espaço.
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Adoção necessária do olhar que transforma os fenômenos sociais em sedimentos culturais em vias de extinção.
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Ligação inseparável entre a consciência histórica emergente e a caducidade veloz das estruturas sociais.
A consciência histórica, definida como a percepção da heterogeneidade radical entre o presente e o passado, emergiu como consequência da ideologia da Revolução Francesa que destruiu as tradições ao persuadir as mentalidades de que o tempo anterior fora definitivamente abolido.-
A revolução vista como o evento que interrompe o devir e transforma o passado em pura história.
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Consolidação do poder revolucionário não apenas nos fatos, mas principalmente no plano ideológico das mentes.
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A ciência histórica estabelecida como descendente direta das rupturas do final do século dezoito.
A emergência da consciência histórica aniquilou a contemporaneidade cultural mantida pelo espírito tradicional que unia pensadores separados por milênios, como Tomás de Aquino, Aristóteles e Cícero, isolando o homem moderno em um presente desenraizado e sem memória.-
Predominância indevida da contingência das formas culturais sobre o conteúdo universal da verdade.
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Fragmentação temporal que corta os laços de semelhança entre gerações medievais, antigas e modernas.
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Redução do homem à condição de adulto em perpétuo renascimento isolado.
A interdependência mútua entre as ciências históricas e sociais sustenta um olhar analítico intrinsecamente destrutivo que diagnostica qualquer fenômeno milenar da vida humana como uma sobrevivência opressiva, resultando não na emancipação prometida, mas no completo desregramento e afundamento das almas.-
Objetividade sociológica atrelada inexoravelmente à alienação temporal do objeto de estudo.
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Denúncia sistemática das estruturas como paternalistas, repressivas ou irracionais por parte de psicanalistas e sociólogos.
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Substituição dos antigos e funcionais equilíbrios tradicionais pela confusão existencial generalizada.
A Igreja Católica destacava-se secularmente como a única instituição ocidental cujas formas e espírito resistiam imutáveis às turbulências da história, desenvolvendo sua doutrina em uma continuidade orgânica tradicional radicalmente imune ao ímpeto de ruptura revolucionária.-
Estabilidade de semblante e de espírito preservada durante dois milênios ininterruptos.
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Ocorrência de mudanças históricas pontuais que se deram sempre em continuidade e nunca por fratura.
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Compreensão da natureza mortífera das revoluções como perversão direta das mentalidades.
O Concílio Vaticano Segundo instaurou a era pós-conciliar de modo alheio à massa de fiéis, configurando-se sociologicamente como um mero acerto de contas institucional entre a estrutura da Cúria romana e a nascente colegialidade dos bispos, mediados por um papado hesitante e aplaudidos por uma imprensa ruidosa.-
Contraste agudo entre as intenções espirituais proclamadas e o jogo político clerical interno efetivado.
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Atuação de jornalistas ignorantes impondo a falsa dicotomia valorativa entre progressismo e conservadorismo.
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Bispos seduzidos pelo protagonismo midiático em detrimento da edificação da santidade.
A pretensão de atualizar a religião através do Concílio baseou-se na adesão cega aos princípios do mundo moderno e na utilização das ciências humanas como balizas inquestionáveis para adaptar a mensagem do Cristo às supostas necessidades dos homens.-
Ilusão de que a Igreja necessitava apenas de uma repaginação estética baseada em preceitos científicos.
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Extrema ignorância do corpo episcopal a respeito das ciências de cujas conclusões passaram a depender.
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Transferência da autoridade formadora para o domínio dos peritos e dos ecos da imprensa pública.
A liderança eclesiástica desprezou a via empírica de observar os cantos e as orações reais do povo, preferindo curvar-se a um aglomerado de chavões jornalísticos sobre a modernidade que travestiam de cientificidade a ação de aniquilar a tradição e classificar o passado apenas como elemento anacrônico.-
Rejeição deliberada da continuidade folclórica e das práticas devocionais espontâneas das paróquias.
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Adoção de lugares-comuns sob o disfarce da ciência rigorosa sem o ônus da comprovação empírica.
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Silenciamento punitivo contra as vozes que propunham o empirismo tradicional em detrimento das teorias abstratas.
A reforma dos ritos da missa e do calendário litúrgico materializou a infecção mental em vigor através de um desmantelamento vertiginoso sem precedentes em dois mil anos de história cristã, impulsionado pela atração incontida que as novidades totais exercem ao simularem inícios absolutos.-
Ausência absoluta de exemplos de mutações desta envergadura decretadas por ordens hierárquicas pregressas.
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A impossibilidade histórica usada pelos modernistas como estímulo para a radicalização das novidades.
A aniquilação arquitetada do edifício litúrgico milenar originou-se das determinações caprichosas de reformadores comparáveis aos médicos imaginados por Molière, que sufocaram as necessidades concretas dos crentes para impor um receituário devastador contra o latim, os ritos antigos e a veneração dos santos.-
Condenação do cânon romano, da orientação dos altares e das posturas de genuflexão como atitudes humilhantes ou obsoletas.
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Taxação injuriosa do ciclo festivo e das procissões tradicionais como práticas pagãs ou mágicas.
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Vontade expressa de não deixar pedra sobre pedra do culto legado pelos séculos passados.
A imposição arbitrária da reforma revelou sobretudo o tédio dos próprios clérigos com suas funções e desencadeou o abandono dos templos ao violar a lei de que a tradição é orgânica e sua extirpação asfixia os galhos novos separados do tronco original cristão.-
Desejo clerical de auto-satisfação mascarado pela falsa premissa de que os leigos exigiam as mudanças litúrgicas.
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Natureza letal dos cortes de tradição que interrompem o fluxo orgânico contido nas raízes judaico-cristãs.
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A ilusão fatal de buscar maior pureza ao desligar a ponta da árvore do percurso multiforme de seu tronco.
A vivência da religião pelas populações sustentava-se na fluidez de uma vida conduzida pelo hábito atávico e pela assimilação natural das formas herdadas que, mesmo carregando resíduos de épocas próximas, dispensavam o tormento de ter que inventar e improvisar perenemente as próprias orações.-
A vida coletiva enxergada como saber inato, reminiscente e livre do formalismo acadêmico.
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Aceitação pacífica de imperfeições, excrescências ou elementos lendários no curso do desenvolvimento espiritual.
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Rechaço absoluto à purificação estéril cadavérica em benefício do vigor vital da tradição mesclada.
O esgotamento do entusiasmo das inovações lançou a massa de fiéis em um estado de orfandade irrecuperável diante do banimento violento das vestes ricas, da musicalidade profunda das frases em latim e do senso de mistério que abrigava intacta a totalidade da fé.-
Desespero agudo substituindo o júbilo inicial da liberdade sem freios e da agitação constante.
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Luto imposto pelo desaparecimento do encantamento estético dos paramentos, das procissões de primavera e do culto eucarístico elevado.
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Extinção irremediável de uma ambiência protetora que mantinha o dogma envolto em inefável santidade.
A implantação do novo regime de culto infligiu uma amputação impiedosa contra as congregações atuais, forçando a ruptura da extensa corrente invisível de mãos entrelaçadas que unia as orações de hoje a todas as gerações antecedentes até alcançar a própria origem divina em Cristo.-
Rejeição imposta de rituais e palavras que serviram de suporte místico a milhões de antecessores na mesma fé.
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Sentimento de arrancar do próprio peito a força vital solidária sustentada pelas conexões do passado humano e divino.
O panorama eclesiástico final descreve-se pelo silêncio surdo onde os perpetradores da aniquilação espiritual permanecem resolutamente inacessíveis aos clamores angustiados daqueles que sofreram o despojamento de sua herança litúrgica.-
Atribuição explícita do papel de carrascos impiedosos aos idealizadores da nova fase religiosa institucional.
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