RELIGIÃO E HOMEM
JEAN BORELLA. La Charité profanée. Subversion de l’âme chrétienne. Paris: Éditions du Cèdre, 1979.
Examina-se as relações do homem à religião, quer dizer a concepção que se faz naturalmente da religião que ele pratica.
Introdução
A questão sobre a qual queremos chamar a atenção é bastante inabitual. Poderíamos formulá-la assim: quando não se é nem um santo, nem um teólogo, o que significa: ser cristão? Não se trata de saber como o homem ordinário lê os Evangelhos, ou participa ao culto litúrgico, mas como ele se situa relativamente à religião em seu conjunto, como, «ele se vê» cristão.
A resposta a esta questão, e o tema central aqui, é que, tão sublime seja uma religião, para ser praticável, deve ser compreensível para uma coletividade, sem o qual os homens dela se desviam, e a esquecem. Mas esta compreensão não é possível senão ao preço de uma atenuação dos aspectos mais transcendentes da Revelação.
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A religião deve ser compreensível para uma coletividade
De que compreensão se trata? Não de uma Palavra de conhecimento, mas de um mandamento, ou melhor (pois o Cristo, Palavra de Deus, é Via e Verdade) uma Palavra que é ao mesmo tempo e indissoluvelmente conhecimento e ação.
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Meu Reino não é deste mundo
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As virtudes naturais nos protegem do mundo
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As virtudes naturais “protegem” o humano do Absoluto divino
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Dois exemplos de virtudes naturais: a arte medieval, a Agonia do Cristo
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A Revelação exige uma compreensão coletiva que se manifeste sob a forma de evidências e virtudes naturais, sem as quais a religião não é possível para a imensa maioria dos homens.
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A dualidade inteligência-vontade torna impossível qualquer modo de emprego que indique como e em que espírito um Mandamento deve ser aplicado.
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A religião ordena a vida de toda uma humanidade e deve ser compreendida direta, espontânea e imediatamente pela coletividade que a recebeu.
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Sem um instinto das condutas religiosas, o povo fiel assemelha-se a um rebanho sem guia.
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A compreensão coletiva não exclui a pesquisa teológica e espiritual para algumas individualidades, mas, por ela mesma, a ignora.
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A Palavra do Cristo exige o acordo entre inteligência e vontade, cuja desunião pelo pecado original é precisamente o que a Revelação vem restaurar.
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São Tiago formula o imperativo: ser realizadores da Palavra e não apenas ouvintes.
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A virtude consiste na capacidade de submeter a vontade à inteligência, de poder querer o que a inteligência compreendeu.
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O caso prototípico é o da Virgem Maria, em quem as determinações da natureza humana são absorvidas e aniquiladas pela perfeita submissão da inteligência à Verdade e pela generosidade absoluta da vontade.
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A resposta da coletividade não pode ser a da pessoa singular: não pode haver aniquilamento das determinações naturais no nível coletivo sem que a coletividade deixe de existir como tal.
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A crise modernista consiste em querer realizar aqui em baixo o Reino que não é deste mundo, confundindo a religião como fato social com a via espiritual de perfeição.
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A lei mosaica instaurava um povo santo e organizava a cidade terrestre segundo a vontade expressa de Deus.
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Preceitos como odiar pai e mãe, dar todos os bens aos pobres ou arrancar um olho culpado de impureza não podem receber significação de ordem simplesmente humana e natural.
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A teologia foi levada a ver nessas exigências conselhos de perfeição que não se impõem a todos igualmente.
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A sentença “muitos são chamados, poucos são eleitos” funda o cristianismo como religião em sua primeira parte e como via espiritual de perfeição em sua segunda.
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Os modernistas conferem alcance exclusivamente social a preceitos de alcance essencialmente espiritual e esotérico, esmagando o relativo humano sob o peso do Absoluto divino e destruindo a ordem natural.
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As virtudes naturais são indispensáveis porque, sem elas, o homem fica exposto diretamente à indefinidade das possibilidades do mundo e à contingência pura.
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Sartre, em nome da liberdade, e o estruturalismo e Foucault, em nome das ciências humanas, negam a existência de uma natureza humana permanente.
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Sem a limitação que uma natureza impõe, o homem, podendo ser qualquer coisa, não é mais nada.
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Um organismo vivo desprovido de leis de funcionamento morreria instantaneamente: assim ocorre com a alma humana privada de seu meio natural, que é a cultura.
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As evidências naturais – ideias já formadas sobre si mesmo, sobre os limites, sobre a vida, a morte, o amor – desenham um espaço fechado que isola a alma da indefinidade e da incerteza cósmicas, conferindo-lhe o direito de ser ela mesma.
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As virtudes naturais têm a função de assegurar o equilíbrio da substância humana entre a pressão do mundo e a do Absoluto.
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A moral kantiana, que pretende confrontar diretamente a ação humana com o Absoluto recusando todas as motivações naturais, é a raiz do erro modernista e luterano.
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O Cristo disse: “Ninguém é bom senão Deus somente” – o que é verdadeiro na perspectiva de uma via negativa é mentira mortal no nível da via comum.
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Moises não pode aproximar-se da sarça ardente; o Cristo só se transfigura por um instante: o Absoluto em sua manifestação vela misericordiosamente seu insuportável esplendor.
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A criação, embora boa segundo o texto do Gênesis, permanece imperfeita relativamente à Bondade suprema de Deus; a obra do segundo Dia não é declarada boa.
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O Paraíso terrestre não é o Paraíso celeste, mas a bondade natural da criação, mesmo ferida pelo pecado, não está inteiramente abolida: é esse resto de bondade natural que constitui a boa terra em que a Palavra do Cristo lança raiz.
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O fundo pagão, permanente e necessário na alma da comunidade cristã, é o vestígio autêntico da natureza paradisíaca que serve de matéria ao Jardineiro divino.
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O Padre Bonnet chamou esse saber das coisas e dos seres, expresso nas crenças, lendas, folclore e mitologias, de terceiro Testamento.
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Tertuliano afirmou: nascemos pagãos, tornamo-nos cristãos – o que é verdadeiro para cada ser singular é também verdadeiro para a alma da comunidade cristã inteira.
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Se a sexualidade, a alegria do corpo, a vida familiar, o gosto pelo esforço, a amargura do sofrimento e a potência da morte forem destruídos em seu movimento espontâneo, retira-se da Palavra de Deus a terra onde ela poderia germinar, substituindo-a pelas abstrações da psicanálise ou da sociologia.
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Sem uma natureza a transmutar, a graça sobrenatural não pode mais agir.
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A virtude natural não corresponde apenas ao que é naturalmente evidente, mas à evidência da própria natureza e à sua força (a virtus latina), como demonstram a arte medieval e a agonia de Cristo.
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A escultura e a pintura medievais produzem um sentimento de inimitável familiaridade com o divino: Deus está tão próximo do homem que o artista sagrado pode representá-lo nas atitudes humanas mais naturais – um carpinteiro aplainando uma tábua, uma camponesa fiando – sem necessidade de nenhuma distanciação para que sejam sagradas.
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Nessa arte não há frivolidade mundana, nem tensão dramática, nem simplismo agressivo, nem complicação orgulhosamente expressiva, mas uma suave gravidade e uma interioridade meditativa.
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A agonia de Cristo no Jardim das Oliveiras, primeiro mistério doloroso do Rosário, não é episódio de fraqueza humana, mas combate entre a força da natureza humana que prova sua bondade e beleza, e a Potência divina que exige seu sacrifício.
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No Cristo Jesus, é a natureza humana inteira que sofre por dever aniquilar-se: corpo de mais nobre estatura, sangue mais rico, força mais real e mais tranquila, alma sem igual em amplitude e acuidade de inteligência, coragem, pureza, nobreza e generosidade – o último rebento da linhagem de Davi, em quem se resume a flor de toda grandeza humana.
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A agonia não é revolta nem recusa: é a palavra da natureza adâmica, o clamor que o ser lança ao se rasgar na noite, sob as oliveiras silenciosas.
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