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ALQUIMIA DA ORAÇÃO

  • A alquimia, enquanto ciência tradicional da natureza física e psíquica, permite que suas leis e conceitos sejam aplicados a outros domínios, como a medicina dos humores e a psicologia tradicionais, culminando numa analogia fecunda com a mística.
    • A medicina humoral concebe o organismo como totalidade indivisível.
    • A psicologia tradicional segue padrão análogo.
    • A mística oferece paralelo ao “casamento químico”.
  • No campo místico, a alquimia assume forma de alquimia da oração, entendida sobretudo como jaculatória revelada ou fundada em nome divino, repetida como meio de concentração.
    • Não se trata de pedido vago, mas de fórmula determinada.
    • A frase não é invenção humana, procede da revelação.
    • Sua repetição concentra e transforma o orante.
  • A jaculatória participa ontologicamente da Palavra divina, pois, sendo de procedência revelada, torna-se símbolo e prolongamento da Palavra eterna, segundo a doutrina evocada por Frithjof Schuon e pela afirmação de Râmakrishna.
    • “Deus e Seu Nome são um.”
    • A Palavra incriada é arquétipo da oração.
    • A fórmula sagrada contém força santificante real.
  • O nome divino, pronunciado na oração, relaciona-se com a alma passiva como o fíat lux com a matéria prima, retomando a polaridade descrita por Ibn ‘Arabî entre al-amr e tabî‘ah, e simbolizada por enxofre e mercúrio.
    • O enxofre representa o polo ativo.
    • O mercúrio representa o polo receptivo.
    • A oração atualiza essa polaridade no interior do homem.
  • Metodicamente, o enxofre corresponde à vontade unificada com o conteúdo da oração, que atua formativamente sobre o mercúrio da alma receptiva; em sentido último, é a luz espiritual latente na Palavra divina.
    • A vontade concentra e modela.
    • A luz espiritual é como fogo no pedernal.
    • A manifestação dessa luz realiza a transformação interior.
  • A transformação da alma pela oração percorre fases análogas às da obra alquímica: congelamento pela renúncia, fusão pelo calor interior e cristalização luminosa após fluxo de imagens mutáveis.
    • A renúncia inicial endurece.
    • O calor espiritual dissolve.
    • O estado final é cristal pleno de luz.
  • A tradição islâmica desenvolveu amplamente essa alquimia da oração na metodologia do dhikr, termo que significa simultaneamente “recordação” e “jaculatória”.
    • Recordação remete à anamnesis platônica.
    • O Nome desperta consciência do Absoluto.
    • Essa consciência impregna e transforma todo o ser.
  • A fórmula cristã do Ave Maria exprime simbolicamente a mesma lei alquímica: Maria figura a matéria prima e a alma receptiva; a saudação angélica prolonga o fiat lux; o fruto do ventre simboliza a pedra filosofal.
    • Maria representa receptividade pura.
    • A palavra do anjo atua como mandato criador.
    • Cristo simboliza o elixir ou resultado da obra interior.
  • A interpretação medieval que vê em Ave a inversão de Eva exprime a transmutação do estado caótico em espelho límpido da Palavra divina.
    • A inversão sugere conversão.
    • O nome indica mutatio essencial.
    • A providência rege mesmo os detalhes aparentemente fortuitos.
  • A exegese simbólica minuciosa das Escrituras na Idade Média revela convicção de que nada no âmbito sagrado é casual, mas portador de sentido providencial e transformador.
    • Nomes e palavras são examinados simbolicamente.
    • A leitura visa descobrir sentido oculto.
    • A entrega interpretativa participa da própria obra espiritual.
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