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ALQUIMIA DA ORAÇÃO
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A alquimia, enquanto ciência tradicional da natureza física e psíquica, permite que suas leis e conceitos sejam aplicados a outros domínios, como a medicina dos humores e a psicologia tradicionais, culminando numa analogia fecunda com a mística.
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A medicina humoral concebe o organismo como totalidade indivisível.
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A psicologia tradicional segue padrão análogo.
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A mística oferece paralelo ao “casamento químico”.
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No campo místico, a alquimia assume forma de alquimia da oração, entendida sobretudo como jaculatória revelada ou fundada em nome divino, repetida como meio de concentração.
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Não se trata de pedido vago, mas de fórmula determinada.
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A frase não é invenção humana, procede da revelação.
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Sua repetição concentra e transforma o orante.
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A jaculatória participa ontologicamente da Palavra divina, pois, sendo de procedência revelada, torna-se símbolo e prolongamento da Palavra eterna, segundo a doutrina evocada por Frithjof Schuon e pela afirmação de Râmakrishna.
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“Deus e Seu Nome são um.”
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A Palavra incriada é arquétipo da oração.
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A fórmula sagrada contém força santificante real.
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O nome divino, pronunciado na oração, relaciona-se com a alma passiva como o fíat lux com a matéria prima, retomando a polaridade descrita por Ibn ‘Arabî entre al-amr e tabî‘ah, e simbolizada por enxofre e mercúrio.
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O enxofre representa o polo ativo.
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O mercúrio representa o polo receptivo.
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A oração atualiza essa polaridade no interior do homem.
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Metodicamente, o enxofre corresponde à vontade unificada com o conteúdo da oração, que atua formativamente sobre o mercúrio da alma receptiva; em sentido último, é a luz espiritual latente na Palavra divina.
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A vontade concentra e modela.
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A luz espiritual é como fogo no pedernal.
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A manifestação dessa luz realiza a transformação interior.
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A transformação da alma pela oração percorre fases análogas às da obra alquímica: congelamento pela renúncia, fusão pelo calor interior e cristalização luminosa após fluxo de imagens mutáveis.
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A renúncia inicial endurece.
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O calor espiritual dissolve.
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O estado final é cristal pleno de luz.
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A tradição islâmica desenvolveu amplamente essa alquimia da oração na metodologia do dhikr, termo que significa simultaneamente “recordação” e “jaculatória”.
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Recordação remete à anamnesis platônica.
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O Nome desperta consciência do Absoluto.
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Essa consciência impregna e transforma todo o ser.
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A fórmula cristã do Ave Maria exprime simbolicamente a mesma lei alquímica: Maria figura a matéria prima e a alma receptiva; a saudação angélica prolonga o fiat lux; o fruto do ventre simboliza a pedra filosofal.
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Maria representa receptividade pura.
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A palavra do anjo atua como mandato criador.
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Cristo simboliza o elixir ou resultado da obra interior.
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A interpretação medieval que vê em Ave a inversão de Eva exprime a transmutação do estado caótico em espelho límpido da Palavra divina.
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A inversão sugere conversão.
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O nome indica mutatio essencial.
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A providência rege mesmo os detalhes aparentemente fortuitos.
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A exegese simbólica minuciosa das Escrituras na Idade Média revela convicção de que nada no âmbito sagrado é casual, mas portador de sentido providencial e transformador.
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Nomes e palavras são examinados simbolicamente.
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A leitura visa descobrir sentido oculto.
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A entrega interpretativa participa da própria obra espiritual.
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