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CIÊNCIA HERMÉTICA
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A doutrina hermética parte do princípio de que o Universo (macrocosmo) e o homem (microcosmo) se correspondem mutuamente e são reflexo um do outro, correspondência que se compreende melhor reduzindo-a à inter-relação entre sujeito e objeto.
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O mundo-objeto reflete-se no espelho do homem-sujeito, e cada um dos dois polos só pode ser apreciado em razão do outro.
A faculdade humana de reconhecimento não é apenas condicionada pelo indivíduo ou grupo, mas tem também certos caracteres específicos que definem uma esfera que abarca ao mesmo tempo o mundo como objeto reconhecível e o homem como ente reconhecedor, sem que nenhuma acumulação de percepções individuais ou ampliação dos sentidos possa superá-la.-
Em cada percepção, ainda que condicionada ao eu e à espécie humana, há algo incondicional; de outro modo não poderia existir uma ponte entre sujeito e objeto nem uma verdade única por detrás dos múltiplos mundos percebidos por seres diversos.
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Essa propriedade absoluta e imutável que infunde em cada percepção seu conteúdo de verdade é o espírito puro, o intelecto que, indiviso, está presente em todos os seres sem exceção.
O homem é o mais perfeito portador do espírito universal e originalmente divino entre todos os seres vivos, podendo ser considerado reflexo ou compêndio de todo o Universo.Devem-se distinguir três realidades: o espírito puramente cognoscente ou sujeito transcendente, frente ao qual se levanta tanto o mundo externo quanto o interior, pois os movimentos do entendimento também podem ser objetos do conhecimento; o sujeito humano dotado de pensamento, imaginação e memória; e o homem completo, composto de espírito, alma e corpo, que é parte do Universo e ao mesmo tempo microcosmo que o reflete.-
O espírito puro é o que infunde no sujeito-homem a luz que lhe permite reconhecer as coisas.
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A tese da correspondência mútua entre Universo e ser humano funda-se no conhecimento de um espírito único que guarda com o simples entendimento a mesma relação que um foco de luz com seu reflexo num campo limitado.
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Esse conhecimento, que constitui o nexo entre a Cosmologia e a Metafísica, não é privilégio da Hermética, embora tenha sido exposto com especial clareza nos escritos atribuídos a Hermes Trismegisto.
Um dos escritos do Corpus Hermeticum afirma que o espírito (nous) brota da substância de Deus irradiando deste como a luz irradia do Sol, e que no homem esse espírito é Deus, sem que esse símile implique uma emanação ou derivação material.-
O mesmo livro afirma que a alma está no corpo como o espírito está na alma e como o Verbo de Deus (Logos) está no espírito, tese próxima à teologia joanina, razão pela qual as esferas cristãs medievais viram no Corpus Hermeticum a semente pré-cristã do Logos.
A doutrina da unidade do espírito, embora garantida por todos os escritos sagrados, permanece esotérica em seu desenvolvimento, pois concebida de modo racional equipara-se a uma unidade material qualquer, apagando tanto a diferença entre Deus e a criatura quanto a singularidade intrínseca de cada ser criado.-
O espírito não é uno quanto ao número, mas em virtude de sua indivisibilidade, de modo que em cada criatura está completo e a singularidade desta funda-se precisamente nele.
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Uma interpretação errônea poderia levar ao curto-circuito filosófico de supor que, ao abandonar o corpo na morte, o ser espiritual se reintegra sem mais ao espírito universal; mas o que marca individualmente a luz do espírito não é o corpo, mas a alma, que ao separar-se daquele continua existindo.
O conhecimento do espírito não muda a experiência do mundo no plano dos fatos, mas determina essencialmente a assimilação interior destes e a compreensão da verdade.-
Para a ciência moderna as verdades naturais são apenas descrições simplificadoras das aparências, abstrações úteis mas transitórias.
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Para a ciência fiel à tradição, a verdade é expressão de uma possibilidade presente no espírito que, por estar contida nele com caráter imutável, manifesta-se também no mundo exterior; o que o entendimento ou a imaginação podem captar da verdade é apenas um símbolo das possibilidades que o espírito eterno contém.
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A ciência hermética descansa na transmissão de certos símbolos derivados de uma revelação espiritual: uma revelação de segunda ordem ou smriti segundo a terminologia hindu, ou inspiração do Espírito Santo dirigida a certas pessoas dotadas de visão especial segundo o ponto de vista cristão.
Os arquétipos ou ideias platônicas, possibilidades imutáveis contidas no espírito, não podem ser apreendidos de modo imediato pelo entendimento e não devem ser aplicados a conceitos gerais nem ao campo psicológico do inconsciente coletivo, falsa interpretação que confunde a indivisibilidade da luz espiritual com a impenetrabilidade do fundo obscuro e passivo da alma.-
Os arquétipos estão acima e não abaixo do entendimento, e só quando se produz a união da alma com o espírito o conteúdo deste cristaliza em símbolos no entendimento e na imaginação.
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No Poimandres do Corpus Hermeticum descreve-se a revelação do espírito universal a Hermes-Thot como uma visão de luz convertida em Todo ilimitado, identificada como o espírito, a forma primitiva, a origem e o princípio de tudo.
É símbolo tudo o que no plano da alma e do corpo reflete os arquétipos espirituais, tendo a imaginação certas vantagens sobre o pensamento abstrato por ser mais dúctil e apoiar-se na relação inversa entre os campos corporal e espiritual, conforme a lei da Tábua Esmeralda: o que está abaixo é igual ao que está acima.A contemplação hermética da Natureza visa não a natureza mensurável e sujeita a causas temporais, mas as propriedades essenciais das coisas, comparáveis aos fios verticais da urdidura de um tecido, enquanto a trama horizontal representa a qualidade material determinada pelo tempo e o espaço.-
Uma visão do cosmos baseada num legado espiritual pode ser exata no sentido vertical mas imprecisa no sentido horizontal da observação analítica.
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Os quatro elementos alquímicos não são componentes químicos das coisas, mas definições qualitativas fundamentais da matéria em si: a verificação analítica da composição da água em hidrogênio e oxigênio não dá nenhum indício sobre a essência do elemento água, ao passo que a experiência direta e sensorial do elemento desperta um eco que ressoa em todos os planos do conhecimento.
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A ciência moderna analisa as coisas para possuí-las e manejá-las, visando antes de tudo a técnica, enquanto a essência não se descobre mediante um simples detalhamento, como entendeu Goethe ao afirmar que aquilo que a Natureza não quiser revelar à luz do dia não se lhe poderá arrancar com alavancas ou parafusos.
O mais antigo esquema do Universo, em que a Terra aparece como disco sob a abóbada celeste, é o de significado mais amplo e profundo, representando o Céu o polo ativo e masculino da existência e a Terra o polo passivo e feminino.-
O movimento giratório do céu revela um eixo fixo e invisível que corresponde ao espírito sempre presente em todas as fases do mundo.
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A trajetória do Sol marca uma cruz simétrica que aponta para os quatro pontos cardinais, dividindo em frias e quentes, secas e úmidas todas as propriedades que determinam a vida.
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O movimento solar, visto em conjunto, plasma-se na figura de uma espiral de duplo giro, representada no yin-yang chinês e na vara de Hermes com duas serpentes enroladas em torno do eixo do mundo.
O esquema ptolomaico, em cujo centro aparece a esfera terrestre rodeada pelas órbitas celestes e pelo empíreo exterior sem estrelas, apresenta o símbolo do envolvimento no espaço: quanto mais ampla a órbita do astro, mais puro e próximo da origem divina o estado de existência correspondente.-
O empíreo sem estrelas, que comunica seu movimento ao céu das estrelas fixas e se move com maior velocidade e exatidão, representa o primum mobile e o espírito divino que tudo envolve.
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Dante adotou a interpretação tolemaica do Universo, já representada em escritos árabes, e um manuscrito hermético anônimo latino do século XII de provável origem catalã descreve a ascensão pelas esferas como subida através de estados espirituais em que a alma passa de uma percepção fragmentária e sujeita às formas a uma apreciação indiferenciada e imediata em que sujeito e objeto são uma mesma coisa.
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As órbitas celestes são completadas do lado da Terra pelas órbitas concêntricas dos quatro elementos: fogo, ar, água e terra.
O esquema heliocêntrico do Universo não é uma descoberta renascentista, pois Copérnico apenas retomou uma ideia já exposta na Antiguidade; visto como símbolo, é o complemento indispensável do sistema geocêntrico, podendo a origem divina do Universo conceber-se tanto como o espaço infinito que tudo envolve quanto como o centro irradiador de todas as manifestações.-
O pensamento racionalista utilizou o esquema heliocêntrico como prova de que o antigo esquema geocêntrico era um erro, gerando a paradoxo de uma ideologia que faz da razão a medida de toda realidade mas traça um esquema em que o homem aparece como mota de pó, enquanto o conceito medieval fundado na revelação e na inspiração situava o homem no centro do universo.
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Na visão de uma cosmologia fiel à tradição, o esquema heliocêntrico tem apenas significado esotérico, o mesmo que Dante apresenta em sua descrição teocêntrica do mundo dos anjos: visto de Deus, o homem está não no centro mas na borda externa da existência.
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O esquema heliocêntrico é correto do ponto de vista físico-matemático porque encerra algo extra-humano, cingindo-se ao campo material e quantitativo e constituindo o contraponto da visão que apresenta o homem sub specie aeternitatis.
Nenhum esquema do Universo pode ser absolutamente correto, pois a realidade em que se centra a observação é relativa, dependente e infinitamente múltipla, e a crença incondicional no esquema heliocêntrico criou um grande vazio espiritual ao despojar o homem de sua dignidade cósmica.-
A incorporação do Sol a uma multidão de bilhões de outros sóis, situados a anos-luz de distância, desfez todos os esquemas do Universo no sentido literal: o homem perdeu a sensação de fazer parte de um todo logicamente ordenado, pelo menos nos países do Ocidente.
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Se o conhecimento científico marchasse paralelamente a uma interpretação espiritual das aparências, poderia ver na progressiva dissolução de todos os sistemas a prova de que qualquer visão do mundo é apenas uma alegoria relativa.
Existem duas formas diametralmente opostas de contemplar o mundo: a científica, que estuda a inesgotável multiplicidade dos fenômenos e tende a se decompor à medida que acumula experiências; e a espiritual, que se orienta para o centro espiritual, assenta-se no caráter simbólico das aparências e tende a simplificar o que retém de essencial.-
A visão mais completa que o homem pode alcançar é simples no sentido de que sua riqueza interior não admite sinais distintivos.
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Um texto hermético em língua síria descreve um misterioso espelho colocado num templo sob sete portas que simbolizam os sete céus planetários: nele a alma descobre a vergonha que encerra, purifica-se, imita o Espírito Santo, transforma-se em espírito e reconhece a Deus e é reconhecida por Ele, numa visão que identifica o espelho ao Espírito divino, origem de tudo, e o preceito délfico conhece-te a ti mesmo ao reconhecimento espiritual de si no Espírito.
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