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ETAPAS DA OBRA

  • A divisão mais antiga da obra alquímica designa as etapas por cores: enegrecimento (melanosis, nigredo), branqueamento (leucosis, albedo) e avermelhamento (iosis, rubedo), provavelmente derivada de um determinado processo metalúrgico.
    • Negro é ausência de cor e de luz; branco é pureza e luz íntegra não quebrada em cores; vermelho é a essência da cor, seu ponto culminante e sua força máxima.
    • Os três colores básicos correspondem aos três movimentos primordiais (gunas) da matéria-prima (prakriti) na cosmologia hindu: o negro corresponde a tamas, movimento que se afasta da luz original em direção ao baixo; o branco, a sattva, ascensão à luz da origem; o vermelho, a rajas, tendência à expansão no plano da manifestação.
    • Que o resultado final seja o vermelho e não o branco indica o ponto de vista da alquimia: após a espiritualização do corpo representada pelo branqueamento, produz-se a corporeização do espírito com sua cor de púrpura real.
  • A trisecção por cores não exclui a bisecção por obra menor e obra maior, que reflete a dualidade de matéria e forma, alma e espírito, Lua e Sol, e ambas reaarecem na sétupla graduação da obra segundo as dominações dos planetas e as propriedades dos sete metais.
    • Em uma das interpretações principais da sétupla graduação, prata e ouro formam par e constituem o termo da série, seguindo o caminho ascendente do Sol desde a mansão de Saturno até a plenitude na mansão de Leão.
    • Na outra interpretação, mencionada por Filaletes, Bernardo Trevisano e Basílio Valentino, a obra menor que culmina na Lua precede a obra maior coroada pelo Sol; o signo de Mercúrio, andrógino por conter Sol e Lua ao mesmo tempo, não representa uma das etapas mas a chave do conjunto.
  • O mercúrio é para o alquimista o primus agens, o autêntico meio para a obra, a água que tudo dissolve e o alimento do feto espiritual, representação mais imediata da matéria-prima e ao mesmo tempo o fino hálito vital que enlaÇa o organismo psíquico-corporal individual com o mar cósmico da vida.
    • Transpondo ao plano da mística propriamente dita, o mercúrio corresponderia ao influxo espiritual, à Graça que penetra no mundo aparentemente fechado da consciência individual e dissolve sua cristalização metálica.
    • O papel de Mercúrio na obra alquímica concorda com o papel do deus Mercúrio ou Hermes nos mistérios órficos, onde conduzia as almas após sua morte corporal ou mística através dos reinos das sombras até seus lugares de residência permanente.
  • A primeira etapa da obra menor, dominada por Saturno, corresponde ao enegrecimento, à putrefação e à mortificação, representados geralmente por um corvo, uma caveira e às vezes uma tumba.
    • No princípio de toda realização espiritual está a morte para o mundo: a consciência deve ser extraída dos sentidos e voltada para dentro, e como a luz interior ainda não brilha, esse afastamento do mundo externo experimenta-se como obscurecimento, uma nox profunda.
    • A mística cristã aplica a esse estado o exemplo do grão de trigo que para frutificar deve ficar só na terra e morrer; várias cerimônias de iniciação aludem a essa morte psíquica mediante um enterro simbólico.
    • Saturno-Cronos, que devora seus próprios filhos, é a divindade que pela ação do tempo e da morte faz retornar tudo o que é temporal à sua origem amorfa.
  • A segunda etapa da obra menor, presidida por Júpiter, representa a saída do caos original e o início do desenvolvimento da força psíquica, que se libera de tamas e se une a rajas; a força espiritual sai de seu estado de cristalização na consciência corporal e converte-se de terra em água e ar, o que representa a sublimação.
    • Morieno afirma que quem souber limpar e branquear a alma e elevá-la terá libertado o corpo das trevas, da negrura e dos maus odores, podendo depois fazer a alma retornar ao corpo, momento em que se manifestarão grandes milagres.
  • Na terceira etapa, regida pela Lua, consegue-se a cor branco: a meia lua se elevou sobre a cruz dos elementos, neutralizando seu antagonismo, e todas as potências da alma latentes no caos original confluem num estado de absoluta pureza, fim da solução ao qual se seguirá nova cristalização.
    • Do ponto de vista cristão, esse estado representa simbolicamente a Santíssima Virgem em sua disposição para receber o Verbo Divino, e significativamente a Virgem é frequentemente representada com a meia lua sob seus pés.
    • Bernardo Trevisano, em A palavra esquecida, descreve com lágrimas de alegria e espanto a visão do mercúrio sublimado coberto de brancura pura como neve das altas cimas, com brilho diáfano e aroma incomparável, entregando-o então ao Sol e à Lua, pois dessas três coisas nasce a mistura.
  • As três etapas da obra menor desenvolvem um movimento ascendente nos signos planetários: a meia lua estava abaixo da cruz, depois unida ao seu travessão e por fim reina sozinha; as três etapas da obra maior encerram um movimento descendente: o Sol aparece primeiro acima da cruz, depois abaixo e por fim sozinho.
    • As três primeiras fases correspondem à espiritualização do corpo e as três últimas à corporeização do espírito ou fixação do volátil.
    • A obra menor visa restabelecer a pureza e receptividade originais da alma; a obra maior visa a iluminação da alma pela revelação nela do espírito.
  • A quarta etapa, primeira da obra maior, é regida por Vênus: o Sol do ouro e do espírito aparece sobre o mastro da cruz, engole a Lua e traça de novo a cruz dos elementos, mas a recreação ainda não está completa pois a força colorante do enxofre, embora presente, ainda é inconsistente e embrutecida pelo antagonismo dos elementos.
    • A Turba Philosophorum exprime esse processo: ao princípio a mulher sobe ao homem, e ao fim o homem à mulher.
  • A quinta etapa, segunda da obra maior, é regida por Marte: o Sol ocupa o lugar da Lua no signo de Saturno, mas enquanto em Saturno havia estado caótico, em Marte há descida ativa do espírito até as camadas inferiores da consciência, de modo que o corpo mesmo fique impregnado do enxofre incombustível.
    • O significado mais sublime do signo de Marte é a Encarnação do Verbo, que em certo modo comporta uma degradação da divindade, aparecendo como luz nas trevas do mundo.
    • Artefio descreve como o corpo se integra no espírito e o espírito converte o corpo num espírito colorido e puro, até que corpo dissolvido se eleva com a alma branca, ambos tão estreitamente abraçados que nunca mais podem separar-se: isso é a dissolução do corpo e a fixação do espírito, que são uma mesma obra.
  • A culminação da obra maior expressa-se pelo signo do Sol, que se distingue de todos os demais por indicar o ponto central do círculo, tornando evidente o que em todas as fases anteriores estava presente apenas em potência: na forma completa e definitiva, o conteúdo infinito está presente de modo invisível-visível.
    • Essa etapa marca a obtenção da cor vermelho, que Nicolas Flamel descreve como o lion vermelho escarlate que devora toda a natureza metálica e a converte em ouro puro, levando o homem de suas tribulações para que despreze a vida terrena e medite em Deus, e cujo fulgor deslumbrante parece querer comunicar algo supercelestial ao homem que, ao contemplá-lo, se assombra, treme e estremece.
  • Num escrito de Basílio Valentino, o andrógino que simboliza a culminação da obra alquímica tem os três signos do Sol do lado masculino e os três da Lua do lado feminino, com o signo andrógino de Mercúrio formando o elo entre as duas séries.
    • Os signos do lado direito podem considerar-se ativos e os do esquerdo passivos, pois a obra menor representa a disposição da alma e a obra maior a revelação espiritual.
    • Saturno designa um descenso passivo e Marte um descenso ativo; Júpiter corresponde ao desenvolvimento da receptividade espiritual e Vênus ao alvorecer do sol interior; Lua e Sol representam os dois polos em toda sua pureza; Mercúrio é em si portador de ambas as essências.
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