User Tools

Site Tools


burckhardt:alquimia:materia-prima

MATERIA PRIMA

  • Os alquimistas ensinam que os metais ordinários não podem converter-se em prata ou ouro sem antes serem reduzidos à sua matéria-prima, e essa redução interior significa libertar a alma de suas concreções e contradições para torná-la matéria dúctil sobre a qual o espírito possa imprimir uma forma que libera em vez de limitar.
    • Os metais ordinários correspondem a estados da alma incompletos e cristalizados na impureza; a matéria-prima é a alma em seu estado primitivo, não condicionada por impressões ou paixões.
    • A forma do metal ordinário é uma espécie de paralisia e representa uma limitação; a do metal nobre é um símbolo e, portanto, conjunção direta com o próprio arquétipo em Deus.
  • Para os alquimistas, a alma é em seu fundo passivo fundamentalmente a mesma coisa que a matéria-prima do mundo, e essa identidade é ao mesmo tempo premissa teórica e objetivo da obra: a unidade de alma e mundo se vive e se percebe verdadeiramente à medida que a obra se aproxima de sua culminação.
    • A matéria-prima que subjaz na alma é, em primeiro lugar, a substância básica do consciente individual; em segundo lugar, a substância de todas as almas sem distinção de individualidades; e, por último, a substância básica de todo o Universo.
    • Se a fibra do mundo não fosse essencialmente da mesma natureza que a da alma, cada ser estaria encerrado em seu próprio sonho; Shakespeare expressa isso na comédia hermética A Tempestade ao dizer que o mundo é feito da mesma matéria com que se fazem os sonhos.
  • A matéria-prima não deve ser confundida com o subconsciente coletivo da psicologia moderna, pois não é fonte de impulsos irracionais exclusivos da alma, mas o fundamento passivo de todas as percepções.
    • A palavra coletivo encerra uma contradição: ou designa um conjunto de disposições herdadas, caso em que não se compreende como pode existir qualquer unidade, ou é uma definição inexata de geral, ou seja, da natureza comum da alma e do corpo.
    • A posição do psicólogo que examina objetivamente o subconsciente coletivo é sempre a de quem pretende esvaziar o oceano sentado num barco.
    • Deve-se distinguir a camada mais ou menos obscura do consciente, cheia de sedimentos de impressões e reações, do fundo da alma propriamente dito, que é totalmente passivo e amorfo, nem obscuro nem claro, e que quando não está velado é espelho fiel do espírito original.
    • Um dos maiores perigos da psicologia profunda moderna é misturar indiscriminadamente símbolos autênticos e suas deformações; um verdadeiro símbolo nunca é irracional, e o suprarracional não deve ser confundido com o irracional.
  • O alquimista árabe Abu-l-Qasim al-Iraqi, do século IX, escreveu que a matéria-prima se encontra numa montanha que contém todos os tipos de conhecimento, virtude, arte, paixão, vício, guerra e morte que podem existir neste mundo, ilustrando que nela estão presentes todas as formas do mundo perecível.
    • A montanha em que se encontra a matéria-prima é o corpo humano, pois a redução à matéria-prima se realiza metodicamente partindo do conhecimento corporal.
    • Basílio Valentino interpreta a palavra-chave alquímica V.I.T.R.I.O.L. como Visita interiore terrae; rectificando invenies occultum lapidem (Visita o interior da terra; retificando encontrarás a pedra oculta), sendo o interior da terra também o interior do corpo.
  • A redução dos metais à matéria-prima nada tem a ver com uma sonâmbula reversão do consciente ao subconsciente, realizando-se apenas após dura luta contra as inclinações da alma dispersivas, e não é uma cura para doenças psíquicas.
    • Ao passar do consciente diferenciável ao não diferenciado produz-se um obscurecimento que representa o caos, ou estado de matéria bruta.
    • Se o consciente continua aprofundando, descobre o espelho do fundo da alma que reflete limpidamente a luz do espírito: o caos da alma era como o chumbo; o espelho do fundo da alma é como a prata ou como uma fonte clara.
    • O alquimista Bernardo Trevisano relata alegoricamente esse processo na imagem de uma fonzinha límpida cercada de pedra, fechada por todos os lados e reservada ao rei das terras, que nela se banha há duzentos e oitenta anos e dela recebe rejuvenescimento perpétuo.
  • Os alquimistas dão à matéria-prima grande diversidade de nomes para indicar que ela está presente em todas as coisas ou que todas as coisas estão presentes nela: chamam-na mar, terra, germe de todas as coisas, umidade básica, hyle, virgem, prostituta, pedra oculta.
    • A denominação pedra corresponde ao persa gohar e ao árabe jawhar, que literalmente significa pedra preciosa e por extensão designa a substância (ousia em grego).
    • Morieno explica ao rei Chalid que o homem é o jazigo da matéria da obra: de ti se extrairá esta coisa, cujo mineral és tu.
    • Em estado caótico, impuro e amorfo, a matéria recebe o nome de coisa ordinária; mas ao mesmo tempo é coisa preciosíssima, da qual se extrai o elixir para obter o ouro.
    • Heinrich Kunrath afirma que a terra molhada e ubérrima, o barro de Adão, a substância elemental de que é feito este mundo, nós mesmos e nossa poderosa pedra saem então à luz.
  • Vista como árvore, a matéria-prima é fundamentalmente a mesma coisa que a árvore do Universo cujos frutos são o Sol, a Lua e os planetas, e na árvore da matéria alquímica crescem o ouro, a prata e todos os metais e se desenvolvem as distintas etapas da obra com seus cores simbólicas: negro, branco, vermelho e às vezes amarelo.
    • Abu-l-Qasim al-Iraqi escreve sobre uma árvore que tem suas raízes não na terra mas no mar do Universo, crescendo nos países do Ocidente porque a matéria representa o Oeste enquanto a forma e o arquétipo simbolizam o Leste.
    • A árvore pode ter figura humana, pois é a forma interna do homem, e de seus frutos se obtém a matéria-prima da obra: é a árvore cujo fruto foi proibido a Adão, que ao comê-lo perdeu sua figura de anjo para adquirir a de homem.
  • A matéria-prima dos alquimistas é tanto a origem quanto o fim de sua obra, pois o caos da matéria é escuro e impenetrável enquanto as formas nele contidas em potência não alcançam seu pleno desenvolvimento, assim como a matéria mineral em estado amorfo aparece turva e opaca para tornar-se clara e transparente ao tomar forma e cristalizar.
    • A dispersão do conteúdo da alma é obstáculo para a realização da forma essencial, ou seja, do estado de conhecimento harmonioso e equilibrado que pode refletir inteiramente a ação divina do espírito.
    • A materia prima só pode ser percebida pelo conhecimento do ser puro cuja projeção ela é, e o verdadeiro fundo da alma só pode ser conhecido por sua resposta ao espírito puro; a alma não se revela plenamente até casar-se com o espírito, expresso no matrimônio do Sol e da Lua, do Rei e da Rainha, do enxofre e do mercúrio.
  • O descobrimento do fundo receptor da alma e a revelação do espírito criador são simultâneos; todo caminho de realização espiritual inclui a preparação de uma matéria receptora e a percepção do efeito da ação espiritual sobre essa matéria.
    • Como convém ao símile artesanal da alquimia, a alma se concebe como matéria, e o efeito do espírito transcendente se expressa em termos materiais como mutação química que, precisamente por ultrapassar os limites do que pode ser expresso com símiles artesanais, revela sua origem supramaterial.
  • Os dois aspectos ou fases da realização espiritual apreciam-se numa cruz-relicário de prata do início do século XIII conservada no mosteiro de Engelberg, cuja ornamentação é de signo alquímico.
    • O anverso apresenta no centro a figura do Salvador crucificado e nos extremos dos braços da cruz os quatro evangelistas com seus animais alegóricos, correspondendo à ação divina ou forma essencial do cosmos, ao Verbo Divino e seus quatro meios de manifestação.
    • O reverso apresenta a Virgem com o Menino no centro e nos quatro extremos os atributos dos quatro elementos: fogo acima, ar à direita, água à esquerda e terra abaixo, correspondendo à matéria-prima e ao mundo que dela se desenvolve.
    • A Virgem no centro ocupa simbolicamente o lugar do éter, enquanto os quatro elementos representam as quatro definições básicas da matéria-prima e os quatro fundamentos de todo o mundo ligado à forma.
    • O vínculo interior entre as duas composições encontra-se na pomba do Espírito Santo pousada sobre a Virgem e no Menino Deus em seu colo: a pomba representa o Espírito Eterno sob cujo efeito a matéria-prima toma forma, assim como a Virgem concebe e dá à luz.
  • A iconografia cristã da cruz tem paralelo na mandala do xintoísmo japonês, ramo do budismo Mahayana, que mostra em uma face o mundo dos elementos diamantinos ou arquétipos imutáveis e na outra os elementos matrizes, com o Buda Mahavairocana no centro de cada face.
    • No primeiro esquema o Buda tem atitude contemplativa com aureola branca; no segundo surge de um lótus aberto com aureola vermelha, símbolo de atividade, pois segundo a doutrina tao-budista a contemplação tem essência ativa e a ação essência passiva.
    • A meditação do primeiro esquema leva ao descobrimento do caminho da libertação do ser; a reflexão sobre o segundo esquema produz o conhecimento das cinco ciências cosmológicas.
  • O conceito de matéria-prima como espelho do espírito universal está presente também no simbolismo oriental do espelho: os espelhos chineses de culto mostram no reverso a imagem do dragão celeste que representa o espírito universal ou logos; no xintoísmo o espelho sagrado que recolhe a imagem da deusa do Sol Amaterasu simboliza a alma em estado de absoluta pureza.
    • Entre os índios crow e shoshone da América do Norte encontra-se idêntico simbolismo: o espelho mágico do xamã tem na superfície uma linha em ziguezague que representa o raio, símbolo do espírito universal e da revelação, assim como a águia que plana no céu para abater-se sobre a terra.
    • A universalidade desse simbolismo, presente em culturas tão distantes entre si no tempo e no espaço, evidencia a natureza não arbitrária mas essencial da equivalência hermética entre a matéria-prima e o fundo da alma.
/home/mccastro/public_html/perenialistas/data/pages/burckhardt/alquimia/materia-prima.txt · Last modified: by 127.0.0.1

Except where otherwise noted, content on this wiki is licensed under the following license: Public Domain
Public Domain Donate Powered by PHP Valid HTML5 Valid CSS Driven by DokuWiki