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ALQUIMIA

Esperamos que, com nossas explicações, tenhamos esclarecido o horizonte espiritual em que se insere a alquimia como “arte régia”, da distorção quase inevitável que implica todo exame puramente histórico. Da mesma forma que os objetos se tornam menores com a distância no espaço, tudo o que ficou para trás no tempo se apresenta sob uma figura simplificada e diminuída, tanto mais quanto maior é a distância espiritual entre uma época e outra. Entre o nosso tempo e aquele a que pertence a alquimia, essa distância espiritual é pouco menos que imensa, pelo que não deve surpreender ninguém que o investigador de hoje, que não possui certos conhecimentos das artes espirituais que ainda subsistem em alguns âmbitos culturais, veja a alquimia como através de um espelho que lhe oferece uma imagem deformada e diminuída. E isso porque, em geral, ele carece não apenas dos conhecimentos teóricos que o capacitariam a compreender a linguagem figurativa dos alquimistas, mas também de qualquer ponto de referência para discernir o que é possível e o que é provável nesse campo. A Natureza — e nos referimos tanto à natureza corporal quanto à natureza psíquica dos homens e das coisas — pode ser abordada de lados muito diversos, de modo que cada uma das “dimensões” correspondentes a um determinado ponto de vista é lógica e praticamente inesgotável. Por exemplo, a Química empírica pode se desenvolver até o infinito sem que suas descobertas saiam da determinada dimensão ontológica estabelecida por suas hipóteses, enquanto uma Ciência herdada pela tradição, como a alquimia, pode examinar e tratar os mesmos fenômenos naturais a partir de perspectivas totalmente distintas e também infinitas. Um exemplo disso é a medicina tradicional chinesa, hindu ou tibetana, cujos métodos são completamente estranhos ao conceito moderno de natureza, sem que por isso sejam menos eficazes.

A ciência moderna tem um olho implacável para descobrir os erros infantis que aparecem na cosmologia tradicional e que, no entanto, são tangenciais e irrelevantes; e, no entanto, é incapaz de ver seus próprios atentados contra o equilíbrio do homem e da Natureza que, aos olhos de uma arte espiritual como a alquimia, representam transgressões gravíssimas, além do totalitarismo injustificado e da negação, expressa ou tácita, mas em qualquer caso prática e quase sempre absoluta, do sobrenatural e do imaterial que caracterizam a ciência moderna.

A relação entre o homem e o mundo natural varia em certos casos não apenas teoricamente, mas prática e tangivelmente, e não apenas de forma subjetiva, mas também recíproca; porque o mundo corporal não está separado do psíquico, apesar de que a perspectiva particular do eu nos mostra a esfera psíquica do indivíduo como algo autônomo. Nas épocas e nos povos em que a consciência do eu é menos consistente e a relação com o ambiente natural não é dominada pelo preconceito de uma atitude meramente racionalista, pode acontecer mais facilmente que as forças psíquicas atuem diretamente e sem meios mecânicos sobre a natureza externa. Isso pode se aplicar, sobretudo, às tradições de forma arcaica, para as quais os fenômenos naturais, como o relâmpago, a chuva, o vento e o crescimento, representam símbolos essenciais; e pode acontecer que determinadas ações sagradas despertem uma ressonância cósmica; isso pode ser observado ainda hoje em alguns povos xamânicos, como os índios norte-americanos.

Portanto, é preciso situar a alquimia nesse seu contexto original para entender o significado correto de certas declarações sobre o efeito do elixir. Não há dúvida de que a conversão de metais comuns em ouro não é o verdadeiro objetivo da alquimia, e quando se busca apenas isso, nunca se consegue alcançá-lo. Mas há certos testemunhos sobre a realização visível do magistério que não podem ser descartados facilmente. O simbolismo metalúrgico está tão organicamente ligado ao trabalho interior da alquimia que, em certos casos isolados, o que se realizava interiormente também se manifestava no plano exterior, não como resultado de quaisquer operações químicas, mas como manifestação espontânea de um estado espiritual extraordinário. A realização da transformação espiritual é, em si mesma, um milagre não menos transcendental do que a conversão brusca de metais comuns em ouro. Somente concentrando-se espiritualmente, o arqueiro japonês iniciado nos mistérios do Zen podia acertar o alvo com os olhos fechados no instante de sua união com o Ser eterno. Assim também a transformação física dos metais era como um sinal que mostrava ao mesmo tempo a santidade do ouro e a do homem, do homem que havia conseguido realizar a obra interior.

(traduzido das Considerações Finais)

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