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COSMOLOGIA PERENNIS
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A realidade do mundo, na qual os modos existenciais corpóreos, psíquicos e espirituais se entrelaçam, não pode ser captada pelo método puramente analítico da ciência moderna, que se limita a dados numéricos, enquanto a consciência da múltipla gradação interna da existência é uma experiência primordial humana.
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A percepção sensorial de um objeto, sua incorporação às imagens interiores e seu reconhecimento pelo espírito constituem um processo indivisível que demonstra a inserção de condições diversas (espaço-temporais, temporais não-espaciais, supraespaciais e supratemporais) na realidade.
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A realidade não consiste em meras coisas, mas num ordenamento de inconcebível sutileza e multiplicidade de níveis.
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A pretensão totalitária da concepção moderna de realidade, condicionada pelo ponto de vista exclusivo da ciência moderna, leva a considerar como reais apenas os elementos que podem ser contados, medidos, pesados e registrados estatisticamente.
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O dualismo cartesiano, que separa a realidade em esferas material e espiritual e reduz o espírito ao conceitual, sobrevive na limitação do pensamento científico ao quantitativamente verificável, em contraste com as doutrinas cosmológicas antigas que concebem o universo com numerosos níveis existenciais (corpo, alma e espírito).
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Descartes dividiu a realidade em matéria corpórea e espírito conceitual, separando o homem do resto do cosmos como único ponto de convergência.
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As doutrinas tradicionais subdividem a existência em esferas: a corpórea (sujeita à matéria, número, espaço e tempo), a psíquica (subtraída a essas condições, mas ainda limitada) e o espírito puro (feito de conhecimento, superior à razão e livre de forma e mudança).
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A psicologia moderna oscila entre a verdade como efetividade exterior (ciência exata) e a dissolução de toda verdade no subjetivo, privando o homem de um apoio interior e separando-o do tecido cósmico.
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O cenário técnico, montado a partir de teses científicas abstratas, atua violentamente sobre a alma, tornando habitual uma visão exterior e quantitativa que impede a maioria dos homens de sentir a profundidade incomensurável do real, existindo mesmo uma visão materialista do mundo independente da filosofia materialista.
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Um erro sobre a natureza da criação, segundo Santo Tomás de Aquino, reflete-se numa errônea noção de Deus, sendo menos grave considerar a Terra plana do que identificar a percepção sensorial com um processo físico, pois conhecer a natureza da criação significa perceber suas sucessivas gradações, do corpóreo ao espiritual puro.
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A unidade expressa na coordenação dos diversos níveis de existência (espírito, alma e coisas corpóreas) é condição para o conhecimento, pois sem ela objeto e sujeito se cindiriam.
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Dante expressa essa ordenação ao afirmar que todas as coisas guardam entre si um ordenamento (forma) que, ao universo, a Deus faz semelhante, entendendo forma como unidade qualitativa e lei interior, não como conformação espacial.
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A unidade qualitativa do universo e a lei de sua estrutura de múltiplos níveis não são acessíveis à ciência moderna, mas o são à intuição espiritual ou intelectual, que se refere a verdades universalmente válidas inatas ao espírito, diferindo do sentimento ou da intuição fantasiosa.
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A intuição espiritual tem o caráter de certeza imediata presente em axiomas como os da matemática.
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Uma tradição é necessária para fornecer os pontos de apoio que permitam ao espírito superar o pensar consuetudinário e cristalizar na consciência as verdades universalmente válidas.
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As intuições mais elevadas do espírito humano referem-se à essência de Deus, campo mais amplo que o da teologia no sentido moderno, que comenta dogmas revelados, enquanto a intuição espiritual penetra até o fundo primordial suprapessoal da Divindade, para além do puro Ser.
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A teologia limita-se ao puro Ser (visão pessoal de Deus), enquanto a intuição espiritual alcança o Absoluto, sendo esta visão denominada metafísica.
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A cosmologia refere-se à totalidade dos mundos criados ou manifestados, interessando-se indiretamente pelas verdades metafísicas como fonte de suas certezas últimas.
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Uma teologia pode subsistir sem infraestrutura cosmológica, como nas religiões monoteístas, onde a consciência da onipotência e onipresença divinas é suficiente, desde que não seja invalidada por uma falsa valoração do mundo que atribua à matéria uma realidade autônoma.
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O que obstaculiza a consciência de Deus não é a consideração dos progressos materiais, mas o transtorno metódico das hierarquias visíveis, a subordinação do qualitativo ao quantitativo e a redução de dados psíquicos a fisiológicos.
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Os aspectos sutis, indivisíveis e não quantitativamente mensuráveis do mundo sugerem sua origem divina, necessitando de sustentação conceitual, pois o homem não pode tolerar viver no absurdo.
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A visão metafísica de Deus, para a qual o mundo é apenas um reflexo do Absoluto e nada perante Ele, é independente da cosmologia e imune a erros cosmológicos, estando explícita no Vedanta, no Budismo Mahayana e no esoterismo das religiões monoteístas.
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A enunciação vedanta do mundo como ilusão não nega sua realidade empírica, mas sim sua realidade autônoma, sendo ele totalmente relativo, um mero reflexo.
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A chave de qualquer autêntica cosmologia é a doutrina da Essência universal do espírito, pois o espírito humano, em sua essência mais profunda, é idêntico à Origem do universo, o que garante a coincidência entre ser e conhecer, objeto e sujeito.
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A cosmologia, embora tenha por objeto a existência (o mundo objetivo em sua estrutura), permanece sempre em conexão com a doutrina da Essência universal do espírito.
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A cosmologia hindu do Sankhya exemplifica essa conexão: Prakriti (matéria prima, raiz da multiplicidade) é totalmente passiva, e seus modos só se desdobram pela intervenção de Purusha (polo ativo, essencial), que é cognoscitivo e determina a existência em sua essência.
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Purusha e Prakriti distinguem-se apenas em seus efeitos cósmicos, estando unificados na origem, no Ser puro.
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A distinção peripatética entre “forma” (polo ativo, Purusha) e “matéria” (hyle ou materia prima, Prakriti) corresponde a esses dois pontos de vista ou dimensões da realidade cósmica.
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O conhecimento tradicional garante conhecimentos incomparavelmente mais profundos que a ciência moderna, pois o homem, em virtude de seu espírito que se ramifica nos sentidos e alcança o Ser indiferenciado, pode captar o eixo inteiro do universo, ainda que no plano empírico suas representações sejam simplesmente humanas e provisórias.
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Na visão cristã do mundo, o conhecimento da essência universal absoluta do Espírito é dado pela doutrina joânica do Logos, pelo qual todas as coisas foram feitas e que é a luz que ilumina todo homem, sendo a quintaessência da existência e a fonte luminosa de todo conhecimento.
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O aspecto cosmológico do Logos é traçado na concepção plotiniana do nous (primeiro espírito ou intelecto), primeira emanação do Uno, cujo reflexo gera a alma universal (psyche) e, desta, a natureza (physis) e o mundo corpóreo.
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Essa hierarquia deve ser interpretada simbolicamente, como uma expressão da infinitude contida na unidade divina que exige seu espelho.
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A aparente contradição entre a criação bíblica ex nihilo e a emanação grega do cosmos como expressão necessária do Ente divino é superada ao considerar que o tempo foi criado com o mundo, não lhe sendo anterior, e que o relato bíblico apresenta simbolicamente como desenvolvimento temporal o que na teoria das emanações aparece como hierarquia de realidades.
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A cosmologia cristã, referindo-se ao relato da criação no Antigo Testamento e utilizando a herança grega, é eclética no sentido de que as tradições se complementam providencialmente: o mito bíblico da criação, de forma mitológica, é comentado pela cosmologia grega, de terminologia relativamente racional e simbologicamente neutra.
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O mito bíblico representa uma ação divina que se desenrola simbolicamente no tempo, enquanto a cosmologia grega descreve a estrutura estática do universo como uma hierarquia de condições existenciais.
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A cosmologia grega, mesmo em Aristóteles, não é de origem meramente racional, derivando de um saber sagrado, mas sua limitação é representar a realidade apenas na medida em que é logicamente representável.
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A fusão entre o patrimônio cosmológico grego e o monoteísmo semítico completou-se na Idade Média nos mundos cristão, islâmico e hebreu, com diferenças apenas na extensão da simbologia particular de cada fé ao campo cosmológico, subsistindo os contrastes reais apenas nas soteriologias.
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A correspondência entre as visões cósmicas dos três credos demonstra que os elementos antigos serviram para estimular e expressar uma visão unitária, determinada pela Essência do espírito e pela natureza das coisas.
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A cosmologia é um modo indireto de conhecimento de Deus, de caráter cognoscitivo e impessoal, aproximando-se da gnose, enquanto a fé empenha a vontade numa decisão pessoal, relacionando-se com a gnose pela necessidade de uma visão espiritual metafísica mais sublime que interprete as escrituras.
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A renovação espiritual autêntica não se dá pelo abandono das formas transmitidas, mas por um conhecimento mais profundo do que elas encerram, pois o espírito não é sufocado pela forma, mas pelo uso desprovido de sentido que dela se faz.
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A separação entre cosmologia e filosofia ocorreu quando a primeira se reduziu à mera descrição do universo visível, perdendo a filosofia seu fundo universalmente válido e fragmentando-se em objetividade (ciências naturais) e subjetividade (filosofia moderna), com a perda do eixo seguro da doutrina do espírito.
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A demonstração dos critérios de verdade da cosmologia tradicional pode ser feita pela indicação dos erros e contradições inerentes à ciência moderna da natureza, que só podem ser superados com sua ajuda, examinando-se três aspectos típicos: a matéria inorgânica, a vida e a psique humana, e, finalmente, interpretando-se passagens da Divina Comédia de Dante para mostrar as possibilidades espirituais de uma visão cosmológica do mundo.
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