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MEDITAÇÃO

  • A meditação (al-tafakkur) é um complemento indispensável do rito por valorizar a livre iniciativa do pensamento, tendo porém os limites da própria mente, pois sem o elemento ontológico do rito a mente não poderia passar da separatividade (al-farq) da consciência individual à síntese (al-jam) do conhecimento informal.
    • A meditação funda-se no islã nos versículos corânicos dirigidos aos dotados de entendimento que recomendam os signos da natureza para a meditação.
    • Duas máximas do Profeta também a fundamentam: um momento de meditação vale mais que as boas obras cumpridas pelas duas espécies de seres dotados de gravitação (homens e gênios, jinna), e não mediteis sobre a Essência, mas sobre as Qualidades de Deus e Sua Graça.
  • A meditação procede normalmente segundo um movimento circular: parte de uma ideia essencial, desenvolve suas diversas aplicações e as reintegra na verdade inicial, que assim adquire para a consciência reflexiva uma atualidade mais imediata e rica.
    • Esse é o contrário de uma investigação filosófica, que considera a verdade como algo não contido essencialmente e a priori na mente do que conhece.
    • O movimento fundamental do pensamento é o que descreve a meditação, e qualquer filosofia que ignore essa lei engana-se sobre sua própria gestão: a verdade que parece encontrar por argumentos já está contida em seu ponto de partida, salvo que descubra, ao término de um longo desvio mental, a refração na mente de um elemento passional ou de uma preocupação individual ou coletiva.
  • O pensamento individualista implica sempre uma limitação por desconhecer sua própria essência intelectual, sendo a meditação uma ignorância sábia, enquanto o raciocínio filosófico procedente do individualismo mental é um saber ignorante.
    • Quando a filosofia esquadrinha a natureza do conhecimento move-se inevitavelmente num ciclo vicioso: ao separar o sujeito do terreno objetivo e atribuir-lhe apenas realidade relativa, esquece que seus próprios juízos dependem da realidade e da veracidade do sujeito; ao declarar que toda percepção tem apenas alcance subjetivo e relativo, esquece que esse mesmo acerto aspira à objetividade.
    • A mente, sendo apenas uma partícula do universo ou uma das modalidades da existência, não pode abarcar o universo nem definir sua posição em relação à totalidade; se tenta fazê-lo, é porque há nela uma centelha do Intelecto que compreende e penetra realmente todas as coisas.
  • O hadith sobre a meditação que proíbe meditar sobre a Essência, mas recomenda meditar sobre as Qualidades e a Graça divinas, significa que a Essência nunca pode tornar-se objeto do pensamento, que é distintivo por natureza, enquanto a Essência é una.
    • A meditação concebe em certo sentido as Qualidades divinas, sem poder saboreá-las diretamente, o que pertence à esfera da intuição pura.
  • O terreno próprio da meditação é a discriminação entre o real e o irreal, sendo o objeto por excelência dessa discriminação o eu.
    • A discriminação meditativa não alcança diretamente a raiz da individuação subjetiva, mas capta seus aspectos extrínsecos, que representam desproporções entre a afirmação quase absoluta contida no ego e o caráter efêmero e fragmentário da natureza humana individual.
    • Não é a natureza individual como tal que constitui a ilusão egocêntrica: o véu (al-hijab) a ser rasgado é unicamente a atribuição a essa natureza individual de um caráter autônomo e apriorístico que só corresponde à Essência.
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