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burckhardt:simbolos:barzakh

BARZAKH OU BARZAJ

  • O termo barzaj no esoterismo islâmico exemplifica o duplo sentido dos símbolos, pois na teologia designa um estado intermediário póstumo, enquanto no esoterismo recebe um sentido mais restrito fundado na leitura metafísica dos versículos corânicos que o empregam.
    • Barzaj como “istmo” entre dois mares em Ar-Rahmân.
    • Barzaj como “istmo” e “cerca fechada” entre mar doce e mar salgado em Al-Furqân.
  • As interpretações sufis dos “dois mares” os entendem como pares de graus consecutivos do Ser (wujûd), tais como Quididade e Qualidades, manifestado e não manifestado, não-forma e formal, conhecimento imediato e conhecimento teórico.
    • Dois mares como gradações hierárquicas do Ser.
    • Polaridades como traduções simbólicas de níveis ontológicos.
  • Considerado “de fora”, barzaj aparece como barreira separativa, mas sob o princípio da não-alteridade não pode ser apenas limite, pois “visto de cima” é o mediador entre os dois mares.
    • Barzaj como limite do ponto de vista do grau inferior.
    • Barzaj como mediação do ponto de vista do grau superior.
  • O barzaj é comparado a um prisma que decompõe a luz íntegra do mundo superior em cores do mundo inferior, ou a uma lente que concentra raios de cima filtrando-os por um ponto de inversão.
    • Mediação como tradução descendente em multiplicidade.
    • Ponto de inversão como concentração e passagem.
  • O barzaj só é separação na medida em que nele nasce a perspectiva separativa que o percebe como limite, e isso é análogo ao “ponto cego” do olho corporal no lugar onde o nervo óptico o perfura.
    • Separação como efeito de perspectiva.
    • Ponto cego como imagem da gênese do limite.
  • A complementaridade de barreira e mediação explica por que barzaj às vezes é empregado no sufismo como sinônimo de qutb, “polo”.
    • Barzaj como eixo regente de um domínio.
    • Qutb como nome do mediador central.
  • Um dito do sheij Si Muhammed Tadilí de Yadîdah define o barzaj de um campo de existência como o polo que rege esse campo e lhe dá “crescimento”, privilegiando aplicações cosmológicas da teoria do barzaj.
    • Barzaj como princípio regente e fecundante.
    • Ênfase cosmológica no dinamismo do “crescimento”.
  • Todo mundo ou grau da individualidade humana, à imagem da hierarquia dos mundos no kawn el-kabîr, é presidido por um barzaj, assim como toda faculdade humana é regida por esse polo.
    • Hierarquia humana espelhando a hierarquia cósmica.
    • Faculdades como domínios polarmente regidos.
  • Nas faculdades de concepção mental, os barâzij funcionam como eixos dos complementares “sujeito” e “objeto”, e isso se reconhece também nas faculdades da percepção sensível.
    • Barâzij como eixos estruturantes do conhecer.
    • Mediação do dual sujeito-objeto e do sensível.
  • Os barâzij do homem dependem do barzaj central, o coração (qalb), mediador entre as esferas do Espírito (Rûh) e da alma individual (nafs).
    • Qalb como mediação axial entre Rûh e nafs.
    • Centralidade do coração na economia dos barâzij.
  • O aspecto físico do coração permite figurar os barâzij como “pontas inapreensíveis” de onde emana vibração luminosa alternando concentração e expansão, e cada pulsação transforma a luz vital.
    • Alternância rítmica como assinatura do barzaj.
    • Transformação da luz vital por pulsação.
  • Para que a transformação luminosa não se torne “descendente” por negligência individual, deve ser determinada por orientação espiritual e sustentada por meios como o dhikr e por métodos ligados à ciência da respiração, baseados na analogia entre fases respiratórias e pulsação dos barâzij.
    • Dhikr como suporte de orientação e estabilidade.
    • Respiração como técnica ancorada na analogia rítmica.
  • Dhikr significa também “chamada” e “recordação”, permitindo analogia entre encantamento e chamada ao barzaj da memória, situado entre os “mares” da lembrança e do esquecimento.
    • Memória como barzaj entre recordar e esquecer.
    • Dhikr como operação de convocação e lembrança.
  • A natureza bifronte do barzaj, como Jano, junta e separa no sentido vertical, e no plano horizontal se traduz na alternância expansão e concentração, dualidades representáveis logicamente por afirmação e negação.
    • Verticalidade como junção-separação.
    • Horizontalidade como ritmo de bast e qabd em germe.
  • A Shahâdah é apresentada como barzaj doutrinal por excelência, dividida em an-nafî (Lâ ilâha, negação) e al-ithbât (ill’ Allâh, afirmação), e mais explicitamente subdividida em três partes: Lâ ilâha, illâ e Allâh.
    • Nafi como supressão.
    • Ithbât como afirmação do Real.
  • Para captar a natureza do barzaj illâ entre o “mar” da negação e o “mar” da afirmação, illâ é analisado em in (condição afirmativa) e lâ (negação), mostrando que afirmação e negação estão contidas em illâ em ordem inversa ao enquadramento global da fórmula.
    • In como afirmação condicionada.
    • Lâ interno como negação que opera singularização.
  • A partícula in funciona como “ponto de reflexão” para a graça de Allâh que alcança o ilusório ilâhun, e o segundo lâ funciona como “ponto de reflexão” da negação inicial, pois o primeiro lâ nega a divindade indeterminada ilâhun e o segundo lâ singulariza na forma Allâh, símbolo de incomparabilidade e não de determinação restritiva.
    • Reflexão ascendente como passagem pela condição.
    • Singularização como recusa de comparabilidade.
  • Illâ manifesta as duas funções do barzaj ao mediar “ascendentemente” a passagem do manifestado ao não manifestado, atravessando um ponto cego de extinção ou morte que é simultaneamente ponto de inversão da relação.
    • Passagem como morte/extinção no limiar.
    • Inversão como reconfiguração do vínculo.
  • A shahâdah integra os aspectos opostos no conceito de não-alteridade, que excede o campo da razão e por isso confere à fórmula certa aparência de pleonasmo.
    • Não-alteridade como princípio supra-racional.
    • Pleonasmo aparente como efeito do excesso de sentido.
  • O selo de Salomão representa aspectos do barzaj e conduz à relação entre barzaj e insânul-kâmil, o “homem universal”, que, exprimindo a analogia microcosmo-macrocosmo, é o barzaj por excelência e, portanto, o símbolo por excelência.
    • Insânul-kâmil como mediação universal.
    • Símbolo como barzaj realizado.
  • No Islã, o homem universal é Muhammadun, que compreende em si o hamd, o aspecto positivo da existência, e seu papel de barzaj é expresso na segunda shahâdah: Muhammadun rasûlu’illâh.
    • Hamd como positividade da existência.
    • Rasûl como função mediadora e transmissiva.
  • Comparando Lâ ilâha ill’Allâh e Muhammadun rasûlu’llâh, o barzaj aparece na primeira sobretudo como transformador (illâ = “se não é”), e na segunda como mediador e conservador (rasûl = “enviado”).
    • Transformação como atravessamento do limiar.
    • Mediação conservadora como envio e transmissão.
  • Uma interpretação sufí de Ar-Rahmân afirma que o Profeta é o “istmo” e que os “dois mares” são Seyidnâ ‘Alî e Seyidatnâ Fâtimah.
    • Barzaj profético como ponto de união.
    • Dois mares como polaridade personificada.
  • A Risâlatul-qushairiyah de Abûl-Qâsim al-Qushairî reúne termos técnicos do sufismo, e embora um orientalista a tenha tomado como psicologia religiosa, a regulação das energias psíquicas pertence à Tarîqah, mas só se compreende plenamente pela perspectiva simbólica que lhe dá alcance espiritual.
    • Tarîqah como método que integra o psíquico.
    • Perspectiva simbólica como chave do sentido.
  • Aplicando a teoria do barzaj aos termos da Epístola qushairí, a alternância de concentração e expansão aparece, no campo emocional, como temor (contração ao centro de consciência) e alegria/esperança (expansão).
    • Temor como movimento centrípeto.
    • Esperança como movimento expansivo.
  • Quando temor (al-jawf) e esperança (ar-raŷâ) se orientam para Allâh, não são abolidos, mas ritmizados e libertos de impulsões desordenadas, determinados pelo “Presente” no tempo e pelo “Centro” no espaço, unificando polo regente e fim visado.
    • Ritmização como integração no universal.
    • Presente e Centro como determinantes da orientação.
  • Uma vez absorvidos pela atualidade do presente, os estados de temor e esperança manifestam níveis mais essenciais e passam a ser chamados “contração” (qabd) e “expansão” (bast), e podem ainda transformar-se em haibah (“terror da majestade”) e Uns (“intimidade”).
    • Qabd e bast como termos cosmológicos.
    • Haibah e Uns como intensificação qualitativa.
  • Qabd e bast são proporcionais e pertencem ao mesmo plano, mas haibah se identifica com gaibah (“ausência” ou “arroubamento”), efetuando passagem do horizontal ao vertical, e pela inversão através do barzaj a ausência no mundo do farq torna-se Presença (Hudûr) no mundo do ŷam’.
    • Gaibah como limiar vertical.
    • Farq e ŷam’ como separatividade e união.
  • Al-Qushairî cita al-Yunaid: o temor contrai (qabd) e a esperança expande (bast), a Verdade (haqîqah) une e a justiça (haqq) separa, e na contração pelo temor ocorre extinção de si (afnânî’annî), enquanto na expansão pela esperança há retorno a si, e na união pela verdade há entrada na Presença, ao passo que a separação pela justiça faz testemunhar o outro-que-eu e vela de Allâh.
    • Extinção e retorno como efeitos rítmicos.
    • União e separação como efeitos de haqîqah e haqq.
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