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ÍCONES DA TRINDADE

CANTEINS, Jean. La passion de Dante Alighieri I. Paris: Dervy, 1997. (Parte II, nota 5)

Ao contrário do Oriente, que debateu vigorosamente esse assunto, o Ocidente cristão demonstrou pouco interesse, para dizer o mínimo, pelos aspectos teológicos da iconografia sagrada. Em um livro recente (Dieu dans l'art, Le Cerf 1984), o padre F. Bospflug expõe o problema da representação de Deus, mais precisamente da Santíssima Trindade, baseando-se em um dos raros textos circunstanciados provenientes da autoridade romana, a carta Sollicitudini Nostrae, enviada em 1º de outubro de 1745 por Bento XIV ao bispo de Augsburgo, que o havia consultado sobre um “caso” de difusão de uma imagem heterodoxa do Espírito Santo. Aqui estão, em essência, as conclusões do papa sobre a representação da Trindade (op. cit. pp. 295-7). As imagens da Trindade antropomórfica não são unanimemente aceitas devido a divergências na interpretação da aparição a Abraão. Há três maneiras de compreendê-la. A primeira é a de Santo Agostinho em De Trinitate (11.20); o bispo de Hipona, argumentando com base na oscilação do texto bíblico entre o singular (“o Senhor lhe apareceu”) e o plural (“três homens lhe apareceram”), vê nisso uma “insinuação” do mistério da trindade. Essa interpretação é a mais comum no Ocidente. A segunda é a dos judeus, para quem os três visitantes de Abraão são três anjos (Miguel, Gabriel e Rafael); ela recebeu a aprovação de alguns teólogos católicos (Tostat: 1400-1455). A terceira é a interpretação cristológica, que reconhece nos três visitantes o Cristo acompanhado por dois anjos; ela foi adotada por um número considerável de Padres. O Papa, que pessoalmente se inclina para esta última interpretação, manifesta as suas reservas em relação à de Agostinho; considera-a insuficientemente fundamentada e argumenta que a representação antropomórfica da Trindade é tão ilegítima quanto a interpretação trinitária de Gn XVIII.

Quando se observam as queixas que um representante autorizado da arte cristã ortodoxa, Leonid Ouspensky, acumula no posfácio do livro, não podemos deixar de aprovar as reservas de Bento XIV, mesmo que possamos criticá-lo por não ter tirado conclusões mais drásticas que talvez tivessem impedido a arte religiosa ocidental de cair na incoerência e na decomposição. É verdade que, na época de Bento XIV, o processo de dessacralização já estava irreversivelmente em andamento e era tarde demais para reagir: as origens do fiasco da arte cristã ocidental, independentemente do que digam o padre Régamey e outros, são muito anteriores ao século XVIII, situando-se cerca de três séculos antes.

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