chenique:cantico-criaturas-simbolos
SÍMBOLOS DO CÂNTICO DAS CRIATURAS
CHENIQUE, François. Le yoga spirituel de St. François d’Assise: symbolisme du Cantique des créatures. Paris: Dervy-Livres, 1978.
* Para comentar o Cântico das criaturas, o ponto de partida é a perspectiva metafísica e o mundo dos símbolos: a inteligência contemplativa vê as coisas como Deus as vê, e o coração purificado apreende as misteriosas mensagens que as criaturas transmitem da parte do Criador.
-
O simbolismo é uma ciência sagrada que pertence à perspectiva metafísica e é totalmente diferente do que a literatura moderna designa com esse nome: ele estuda as relações das coisas com o Criador e esforça-se por extrair o reflexo que cada coisa pode trazer do Criador.
-
Deus tendo criado tudo pelo e no seu Verbo, cada criatura é como um eco desse Verbo divino e pode tornar-se para nós o degrau de uma escada que permite remontar do efeito à Causa e da criatura ao Criador.
-
Ver as coisas criadas sob esse ângulo é dar-lhes sua verdadeira razão de ser e preservar-se da idolatria, que consiste em tomar as coisas por reais em si mesmas quando elas só são reais em sua relação ao Criador.
-
Francisco não era um erudito — ele próprio se descreve e a seus companheiros como pessoas simples: eramus idiotae —, mas a inteligência iluminada pela graça e pelos dons do Espírito Santo, especialmente os de Sabedoria, Ciência e Inteligência, adquire sobre Deus e o mundo criado luzes que nenhuma ciência humana pode ensinar ou transmitir.
-
Os três dons citados fazem parte dos dons intelectuais que produzem a contemplação definida por Tomás de Aquino como uma visão simples e intuitiva de Deus e das coisas divinas procedente do amor e tendendo ao amor, e por Francisco de Sales como uma amorosa, simples e permanente atenção do espírito às coisas divinas.
-
O Cântico das criaturas é como o perfume sutil da altíssima contemplação recebida por Francisco; a fé como virtude teologal e a Inteligência como dom do Espírito Santo correspondem precisamente à sexta bem-aventurança: bem-aventurados os puros de coração, pois verão a Deus (Mt 5,8).
-
O Cântico das criaturas pode ter sido trazido a Francisco pelos anjos durante seu sono, pois os anjos desempenham papel em toda revelação — três anjos visitam Abraão, a Lei no Sinai foi dada pelo ministério dos anjos (At 7,38; Gl 3,19), Gabriel anuncia a Encarnação (Lc 1) e anjos cantam ao redor do presépio (Lc 2,13).
-
Francisco teria recebido o Cântico num estado de sonho análogo aos sonhos proféticos da Bíblia; segundo a Tradição hindu, o estado de sonho (condição de taijasa) simboliza o homem em via de realização cujas faculdades transcendentes começam a despertar e entram em comunicação com o mundo intermediário — o mundo dos anjos.
-
Segundo a Tradição hindu, Francisco poderia ser considerado um avatara menor, isto é, uma descida secundária da divindade; embora essa noção seja estranha à perspectiva cristã, algo análogo se encontra no Liber Conformitatum de Bartolomeu de Pisa (séc. XIV), que descobre as semelhanças entre Francisco e Jesus Cristo, culminando nos estigmas da paixão recebidos no Alverne.
-
O cronista dos Fioretti escreve que a chama da devoção de Francisco cresceu tanto que, pelo excesso de seu amor e compaixão, ele se sentiu inteiramente transformado em Jesus — realização das palavras de Paulo (Gl 2,19-20; Rm 8,29).
-
Esses paralelos com tradições não cristãs não visam minimizar a originalidade do santo nem depreciar a via espiritual em que sua experiência foi vivida, mas permitem compreender melhor o que está em jogo pelo uso de um vocabulário mais preciso e mostrar que a Ciência sagrada ou Ciência tradicional é verdadeiramente católica no sentido etimológico do termo.
Altíssimo, onipotente e bom Senhor, A Ti pertencem os louvores, a glória, a honra e todas as bênçãos! Somente a Ti, Altíssimo, eles convêm, E nenhum homem é digno de nomear o Teu Nome.
-
No primeiro versículo, Francisco dirige-se a Deus em termos bíblicos — Senhor, Todo-Poderoso e Altíssimo —, atribuindo-lhe louvor, glória, honra e bênção como atitudes laudativas da criatura perante o Criador.
-
A louvor consiste em reconhecer e celebrar a grandeza de Deus e seus benefícios; a honra é o sentimento vivo da dignidade de Deus e da humilde condição da criatura; a glória é o irradiar das infinitas perfeições de Deus e seu reflexo nas criaturas; a bênção é a linguagem espontânea de um coração reconhecido perante os benefícios recebidos.
-
O canto de louvor é o mais elevado que a criatura pode dirigir ao Criador; louvar a Deus será a ocupação da eternidade e os anjos entoam o eterno Sanctus (Is 6,3; Ap 4,8); o ideal dos anacoretas cristãos era manter desde aqui uma vida semelhante à dos anjos na louvor perpétua, daí o uso que fizeram dos salmos.
-
Altíssimo refere-se à Essência divina enquanto tal; Todo-Poderoso refere-se a ela enquanto Possibilidade Universal que contém tudo em sua Infinidade; Bom refere-se a Deus em sua atitude para com as criaturas — Cristo disse que somente Deus é bom (Mc 10,18).
-
No homem, a beleza é exterior e a bondade é interior; em Deus é o inverso: a Beleza é o aspecto primeiro ou essencial da divindade, mas não podemos percebê-la diretamente; a Bondade reveste um aspecto substancial que conhecemos precisamente pela criação; a ação de graças, a louvor e a Eucaristia são a um só tempo tomada de consciência dessa Bondade manifestada e atitude de reconhecimento da criatura.
-
Paulo (Rm 1,20-23) repreende os pagãos por não terem sabido compreender a mensagem divina das criaturas: desde a criação do mundo, os atributos invisíveis de Deus se deixam compreender e contemplar nas criaturas, especialmente seu eterno poder e sua divindade.
-
O Nome de Deus é inefável e incomunicável, pois Deus em sua Essência é inconhecível; os Nomes de Deus são múltiplos mas expressam aspectos de sua plenitude sem defini-lo; Elohim pode traduzir-se como conjunto de realidades; Wakan-Tanka contém a ideia de plenitude como o chinês K'ien (Céu); o Hypertheos de Dionísio Areopagita e o Parabrahman hindu indicam elevação como Eliôn, mas o Nome próprio de Deus está acima de todo nome.
Louvado sejas, meu Senhor, com todas as tuas criaturas, E especialmente nosso irmão, o Sol, Que nos dá o dia e por quem nos iluminas; Ele é belo e radiante, com grande esplendor, De Ti, Altíssimo, ele traz significado!
-
No segundo versículo, Francisco recorda o simbolismo do sol, fundamental em todas as tradições: nos cultos solares da Antiguidade, exceto nas épocas tardias de degenerescência espiritual que deram o paganismo, nunca se adorou o sol enquanto tal, mas como representação de Deus.
-
No simbolismo, é o inferior que simboliza o superior: Apolo não é o símbolo do sol, mas o sol simboliza a função apolínea da divindade; os fenômenos da natureza significam e representam, tornando presente, a divindade ou ao menos certos aspectos dela.
-
O sol ilumina e aquece a terra, e toda vida nela só subsiste por ele; sua luz é símbolo de conhecimento e seu calor é símbolo de amor; assim como o sol vivifica tudo sem ser em nada diminuído, o Princípio dá ser e vida a todas as criaturas sem se dividir nem ser afetado em sua transcendência.
-
O raio solar simboliza o raio de graça que nos une a Deus, marcando também nossa separação dele; é a descida (avatara) de Deus em direção a nós e ao mesmo tempo o caminho (Jo 14,6) que nos reconduz a ele; Deus é o sol espiritual da alma que ilumina o homem em seu coração, pois ilumina todo homem que vem ao mundo (Jo 1,9).
E louvado sejas, meu Senhor, por nossa irmã, a Lua, e pelas Estrelas, que criaste no céu, claras, preciosas e belas!
-
No terceiro versículo, Francisco louva a irmã Lua e as Estrelas: símbolo de Deus, o sol é também símbolo do Verbo — o Cristo é chamado na liturgia de Sol da Justiça —, e a Lua simboliza o princípio feminino correlativo ao princípio masculino do Verbo.
-
A Lua é passiva em relação ao sol, cuja luz ela reflete, como a Sabedoria eterna é passiva em relação ao Deus Criador, conforme Pv 8,22-31, que descreve a Sabedoria coexistente com Deus antes de qualquer criação, artífice ao seu lado e deleitando-se entre os filhos dos homens.
-
A Virgem passiva é fecundada pelo Espírito Santo e torna-se produtiva como as águas tenebrosas do Gênesis sobre as quais pairava o Espírito de Deus; Mãe de Deus e do Verbo encarnado, a Virgem é proclamada Mãe do gênero humano pela palavra de Cristo a João (Jo 19,27) e o Apocalipse a mostra como a mulher revestida do sol com a lua sob os pés e coroa de doze estrelas (Ap 12,1).
-
Cristo e a Virgem são os dois polos da vida cristã, transmitindo a vida de graça como os pais transmitem a vida natural; o Novo Adão é fonte de todas as graças e a Nova Eva é mediadora de todas as graças; Maria engendra Cristo na alma do fiel e comunica a graça de Cristo como a lua comunica a luz do sol.
-
As estrelas constituem os sinais estelares do Evangelho eterno, de que a astrologia sempre se ocupou; os doze signos do zodíaco pontuam a marcha sazonal do sol e seus planetas, ritmam os grandes ciclos cósmicos e compõem a herança cósmica que cada homem recebe ao nascer, tal como recebe de seus pais uma herança física e psíquica; os sinais estelares são oferecidos à meditação não para neles buscar motivo interessado de ação, mas para encontrar o que Deus colocou à nossa disposição para ir a ele.
Louvado sejas, meu Senhor, por nosso irmão, o Vento, E pelo ar e pelas nuvens, e pelo céu sereno e por todos os climas, Pelos quais dás sustento às tuas criaturas! Louvado sejas, meu Senhor, por nossa irmã, a Água, Que é muito útil, humilde, preciosa e casta! Louvado sejas, meu Senhor, por nosso irmão, o Fogo, Pelo qual iluminas a noite, E que é belo e alegre, robusto e forte! E louvado sejas, meu Senhor, por nossa irmã, a mãe Terra, Que nos sustenta e nos governa, E produz os diversos frutos, as flores coloridas e a erva!
-
No quarto versículo, Francisco enumera os quatro elementos da alquimia — Ar, Água, Fogo e Terra —, que são em sua raiz sutil as combinações que dão todos os elementos do mundo sensível e que a alquimia, ciência tradicional de ordem cosmológica, descreve como símbolos das operações espirituais que ocorrem na alma encarada como substância.
-
A Água é fria e úmida: a umidade é princípio de alargamento, receptividade e difusão; o frio é princípio de contração e imobilidade; a Água representa o estado líquido de plasticidade, receptividade e passividade; constitui o meio original em que a vida nasceu e é símbolo da Substância universal de cor negra sobre a qual pairava o Espírito de Deus (Ruah Elohim), princípio masculino e criador que fecunda as águas primordiais como fecunda a Virgem.
-
As águas que produzem os seres vivos no Gênesis são comparáveis às águas do batismo, águas do renascimento espiritual nas quais ocorre, por transmutação alquímica dos elementos psíquicos do indivíduo, a regeneração espiritual: o cristão é sepultado com Cristo nas águas batismais e renasce à vida de graça recebendo como uma nova substância (Rm 6,3-5); as águas são ainda as águas da graça que descem do céu sob a forma de chuva benéfica e fecundam a alma como a chuva fecunda a terra, conforme o Rorate coeli.
-
A Terra é seca e fria: o seco é princípio de retração, tensão e endurecimento; a Terra representa o estado sólido da matéria após a obra de combustão do fogo, num estado de dessecamento e petrificação; é também símbolo da Substância cósmica — da terra o homem foi tirado e a ela retornará —, e é passiva em relação ao Céu cujo influxo criador recebe, tornando-se fecunda sob a influência do Céu e da chuva de graças e sendo a mãe de tudo o que vive, embora sua produção seja devida em definitivo à atividade não agente do Céu.
-
A Grande Tríade da Tradição chinesa — T'ien-Ti-Jen (Céu-Terra-Homem) — expressa que o homem, filho do Céu e da Terra, recebeu do barro da terra seu corpo e do Céu o sopro vital (Gn 2,7) e os dons da graça; o dois é produtivo e o três é estável: Espírito-Águas-Mundo e Espírito-Virgem-Jesus são igualmente tríades.
-
O Ar é úmido e quente: o quente é princípio de movimento, energia e transformação; o Ar representa o estado gasoso, fluido e expansivo da matéria e é símbolo do Espírito que sopra onde quer (Jo 3,8); na liturgia do Sábado Santo, o celebrante soprava três vezes sobre a água batismal em forma de cruz e mergulhava o círio pascal nela, invocando a descida da virtude do Espírito Santo para fecundar toda a água das fontes batismais.
-
O Fogo é seco e quente: representa o estado ígneo da matéria que se consome, destrói e se transforma; é o símbolo por excelência do estado sutil e as grandes teofanias da História Sagrada se manifestaram sob formas ígneas e luminosas, como a sarça ardente de Moisés; age pela luz e pelo calor, daí o coração radiante como símbolo de universalidade e conhecimento, e o coração flamejante como símbolo de caridade; é também símbolo do Espírito Santo que na Pentecostes desceu sobre os apóstolos sob a forma de línguas de fogo; como elemento transformante, as operações do amor divino na alma são frequentemente descritas com imagens de fogo — Deus é fogo devorador que purifica a alma como o fogo purifica o ouro no cadinho alquímico.
-
Guilherme de Saint-Thierry, na Carta aos irmãos do Monte-Deus, descreve a transformação da alma em Deus: acima da semelhança com Deus há uma outra tão perfeita que não se chama mais semelhança, mas unidade de espírito, que ocorre quando o homem se torna um mesmo espírito com Deus; essa unidade de espírito é o próprio Espírito Santo, o Deus Caridade — aquele que é o Amor do Pai e do Filho —, de modo que o homem merece ser não Deus, mas divino: o que Deus é por natureza, o homem o torna-se por graça.
-
As considerações precedentes permitem entrever a riqueza do Cântico das criaturas e rejeitar a interpretação sentimental demasiado frequente: embora especificamente votiva, a atitude franciscana não tem nada de sentimental, pois resulta de um verdadeiro conhecimento das coisas e de Deus, e não de uma exposição do eu individual — ela é em definitivo intelectual, pois repousa sobre uma certeza de ordem espiritual e não sobre uma hipótese afetiva.
-
A atitude de Francisco perante os animais ilustra essa perspectiva cósmica: ao chamar os animais de irmãos, como alguns santos da Igreja do Oriente, ele indica que os limites do ponto de vista individual foram ultrapassados e que compreende a razão de ser dos animais e os situa em seu lugar exato na criação.
-
Em relação ao homem, os animais estão situados em estados periféricos; os anjos estão em estados semelhantes — passivos em relação ao Princípio —, enquanto o homem é ativo; um anjo ou um animal não pode progredir em direção a Deus, está fixado em seu estado; o homem, ao contrário, pode fazer sua salvação e subir a Deus até superar os próprios anjos.
-
O homem é dito criado à imagem de Deus (Gn 1,26) porque resume em si o conjunto das qualidades e perfeições divinas, ao passo que um anjo ou animal reflete apenas uma qualidade ou perfeição; no anjo, a qualidade divina refletida manifesta-se por sua função; no animal, manifesta-se por sua forma — daí a indefinidade das formas animais correspondente às inumeráveis qualidades divinas; o homem, ao contrário, anjo por seu espírito e animal por seu corpo, é a obra-prima da Criação.
-
A sabedoria dos índios da América do Norte ilustra analogicamente essa perspectiva: para esses homens, todo objeto criado é importante porque conhecem a correspondência metafísica entre este mundo e o Mundo real; nenhum objeto é o que parece segundo as aparências — não passa de fraco reflexo de uma Realidade principial; tudo é wakan, sagrado, e possui um poder segundo o grau de Realidade espiritual que reflete; o homem, embora criado por último, é o primeiro dos seres, pois só ele pode conhecer o Grande Espírito (Wakan-Tanka).
-
Os símbolos cosmológicos do Cântico das criaturas forneceram as chaves de uma interpretação metafísica e espiritual do texto de Francisco, e nos capítulos seguintes essa interpretação será desenvolvida de maneira relativamente independente do texto, mas ligada à ordem dos princípios que justifica as aplicações práticas extraídas dos símbolos.
-
chenique/cantico-criaturas-simbolos.txt · Last modified: by 127.0.0.1
-
-
-
-
-
-
-
