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PERSPECTIVA METAFÍSICA

SARÇA ARDENTE — ENSAIO SOBRE A METAFÍSICA DA VIRGEM

  • A expressão ta meta ta physika, que designa a obra de Aristóteles conhecida como Metafísica, surgiu porque o texto vinha após a Física na coleção reunida por Andrônico de Rodes no séc. I a.C.; a forma Metaphysica em uma única palavra data apenas da Idade Média.
    • Etimologicamente, a metafísica é o estudo e o conhecimento do que está além do tempo, da produção e da mudança; seu domínio é o dos princípios primeiros de ordem universal.
    • Não se trata de princípios puramente lógicos, mas de princípios a um só tempo lógicos e ontológicos — designáveis como arquétipos ou Ideias de Platão —, realidades que se situam num nível que ultrapassa a natureza e a razão.
    • Todo sistema de lógica apoia-se inevitavelmente numa metalógica que lhe serve de fundamento; no limite, a metalógica é uma expressão da metafísica.
  • Tomás de Aquino comentou a Metafísica de Aristóteles, e graças a ele a filosofia aristotélica foi admitida como sistema de base no Ocidente cristão, ao ponto de identificar-se aristotelismo e filosofia escolástica; a leitura da obra revela três concepções de metafísica que Tomás destaca em sua introdução ao comentário.
    • A metafísica aparece como ciência das causas primeiras e dos princípios primeiros — o que a distingue das outras ciências, que tratam apenas das causas segundas.
    • A metafísica é a ciência do ser enquanto ser, com o objeto mais universal possível, distinção que se impõe a partir do livro Γ da Metafísica.
    • A metafísica pode ser definida como ciência do que é imóvel e separado; sendo Deus a mais eminente das substâncias separadas, a metafísica pode ser chamada de teologia.
    • As prerrogativas da metafísica segundo Tomás são: ser ciência especulativa e, portanto, uma sabedoria cujo saber é buscado por si mesmo; ser ciência livre, não subordinada a nenhuma outra; não ser uma ciência humana, pois a natureza humana é, em muitos aspectos, serva; ser a mais nobre de todas as ciências, divina por ter Deus como objeto e por ser a ciência que Deus possui em grau máximo, da qual os homens participam como algo emprestado de Deus.
  • O Padre Gardeil distingue três sabedorias hierarquicamente ordenadas no espírito humano: a sabedoria infusa, dom do Espírito Santo, que permite atingir Deus em si mesmo de modo não humano; a sabedoria teológica, fundada na Revelação mas cujo modo de exercício é essencialmente racional; e a metafísica, sabedoria puramente humana, que só dispõe da luz da razão natural.
    • Gardeil nota, contudo, que para um homem ser sábio é, no fundo, participar segundo os diversos modos progressivos da própria visão de Deus sobre o mundo, e que as três sabedorias do cristão se harmonizam e se aperfeiçoam mutuamente.
    • A metafísica integral não admite separação total entre estudo teórico e realização espiritual; se um estágio preliminar de especulação é necessário, limitá-la a esse estágio seria condená-la à esterilidade.
    • O rebaixamento da metafísica a uma ciência puramente humana e racional, e a limitação de seu objeto à causa primeira, são os fatores que provocaram a decadência da metafísica na filosofia ocidental.
  • A indefinidade dos sistemas filosóficos modernos, opostos e frequentemente contraditórios, revela que não têm nada em comum com a metafísica, apesar do uso e abuso do termo; o modo de pensamento propriamente filosófico não remonta além do séc. VI a.C. e não se desenvolveu senão no Ocidente, o que mostra que não tem nada de necessário ou universal.
    • A filosofia é um modo de pensamento estritamente racional: usando apenas a razão, órgão individual do pensamento, limita-se forçosamente ao indivíduo e não pode atingir o verdadeiro conhecimento, de ordem supra-individual e universal; a razão entregue a si mesma gira indefinidamente em petições de princípio e esgota-se construindo sistemas cada vez mais limitados e incoerentes até negar-se a si mesma.
    • O germe da decadência já existia no sistema derivado de Aristóteles, conforme G. Vallin em La perspective métaphysique, o que justificava a rejeição total do ponto de vista filosófico por Paulo (1Cor 2).
    • A partir de Descartes, rejeitada a luz da Revelação, a filosofia aparece sob sua verdadeira face: o racionalismo só conhece a razão e estima que um bom método é condição suficiente para atingir a verdade; o empirismo sucede ao racionalismo e conduz ao relativismo e ao agnosticismo.
    • Para Kant, a metafísica é o conjunto dos conhecimentos tirados da Razão pura; a Razão prática garante a realidade do nômeno sem oferecer sua intuição; esse é o aviso mais sincero da impossibilidade de a razão humana entregue a suas próprias forças elaborar uma metafísica.
    • A filosofia moderna substituiu as teorias do conhecimento pelo próprio conhecimento — como cegos de nascença que dissertam sobre a luz; para a metafísica não há teoria do conhecimento, mas o conhecimento absoluto, imutável e principial que se trata de atingir, evidentemente não pela razão somente.
  • A metafísica, ciência dos princípios primeiros, é um conhecimento real e não apenas racional ou teórico; o Padre Gardeil distingue três graus de sabedoria e uma sabedoria que se limitasse ao primeiro grau seria um simulacro, pois não permitiria ao homem sair dos limites de sua individualidade.
    • Embora no ponto de partida de toda pesquisa metafísica haja uma ação do mental e um esforço da razão como instrumento analítico, o verdadeiro conhecimento exige superar os modos da razão; a fé, conhecimento intuitivo embora obscuro, é uma preparação para a Sabedoria infinitamente superior a todos os sistemas racionais de conhecimento.
    • Para que o indivíduo possa sair dos limites de sua individualidade empírica, é preciso que haja nele algo de não humano ou de suprahumano; para os escolásticos, o órgão do conhecimento metafísico é o intelecto (intellectus), que traduz o nous grego em toda sua força.
    • Agostinho distinguia a razão superior, voltada para as realidades eternas, e a razão inferior, voltada para as coisas temporais, mas reconhecia que ambas se distinguem apenas por suas funções, pois é a mesma faculdade que se ocupa com os meios e com os fins (S. Th. I, q.79, a.9).
    • Para os escolásticos, a razão é a faculdade de raciocinar e deduzir conclusões a partir dos princípios; o intelecto é a faculdade de perceber os princípios primeiros e contemplar a verdade; trata-se antes de duas funções de uma mesma faculdade: o intelecto em movimento chama-se razão, o intelecto em repouso conhece e contempla a verdade inteligível.
  • O vocabulário escolástico apresenta termos técnicos precisos relevantes para a teoria do conhecimento: phantasmata são as imagens das coisas sensíveis recebidas pelos sentidos sem elaboração prévia; species impressae são as imagens desligadas de suas condições materiais e impressas pelos objetos nos sentidos; species expressae são as imagens tornadas inteligíveis pelo intelecto agente e recebidas no intelecto passivo; illuminatio ou abstractio é a abstração operada a partir das espécies impressas; intellectus agens é o intelecto agente que opera a iluminação; intellectus patiens é o intelecto paciente que provoca o ato de intelecção; intellectus superior é o Intelecto superior ou divino, do qual o intelecto agente é uma participação.
    • Segundo o ensinamento corrente da escolástica: o intelecto não vê os inteligíveis na essência divina; não tem ideias inatas — nihil est in intellectu quod prius non fuerit in sensu; compreende por meio de imagens recebidas pelos sentidos; é ativo como intelecto agente, pois os dados sensíveis precisam ser elaborados para extrair o conteúdo inteligível; e pertence em próprio a cada alma humana, afastando-se assim de Avicena e Averrois.
    • Tomás distingue intelecto agente e intelecto paciente porque um mesmo princípio não pode ser a um só tempo em ato e em potência relativamente à mesma coisa; há no homem dois intelectos que concorrem para a intelecção de uma mesma espécie: um causal (intelecto agente) e outro formal (intelecto paciente).
    • Boaventura sustenta a teoria da dupla iluminação: uma vinda do intelecto agente criado, que forma as espécies e os princípios; outra vinda do Intelecto incriado ou das razões eternas, que imprimem diretamente no intelecto passivo tudo o que é absoluto, eterno e imutável na certeza do verdadeiro; Tomás prefere uma única iluminação, pois o intelecto agente é uma participação da luz divina, de modo que conhecer pela sua luz é conhecer pelas razões eternas de forma adaptada à condição terrestre.
    • O intelecto humano é chamado pelos escolásticos de luz emanada de Deus (lumen derivatum a Deo) sem ser, contudo, considerado um princípio distinto da alma; a diferença filosófica entre as duas teses perde muito de sua importância quando vista da altura da sabedoria teológica, como observa Gilson.
  • Sixto V (1588) e Leão XIII (1879) proclamaram que Tomás de Aquino e Boaventura construíram juntos a síntese do pensamento escolástico medieval — duas oliveiras e dois candelabros brilhantes na casa de Deus —, mas Étienne Gilson demonstrou que são duas filosofias distintas que se complementam sem poder nem se excluir nem coincidir.
    • Formado por mestres ligados à tradição agostiniana como Alexandre de Hales, Boaventura recusa partir da filosofia de Aristóteles e permanece fiel a Agostinho, Anselmo e os Vitorinos; para ele, os filósofos não receberam a fé e erraram tanto em suas conclusões metafísicas quanto na orientação de sua pesquisa.
    • O ponto de partida de Boaventura é o exemplarismo: antes de criar os seres, Deus os exprime em sua essência sob a forma de ideias eternas; Deus é, pelas ideias, o protótipo de tudo o que existe; Tomás postula a analogia como princípio de conhecimento da criatura ao Criador, enquanto Boaventura julga a criatura a partir de seu modelo.
    • Para Boaventura, a verdade lógica e a verdade ontológica são sempre unidas, pois o princípio do ser é também o princípio de conhecer; o espírito humano vê o verdadeiro total somente na e pela verdade divina, mediante uma luz especial irradiada de Deus sobre a alma — Cristo é o doutor interior e nenhuma verdade é conhecida senão por ele, que ensina não com palavras mas com iluminações interiores.
    • A influência da luz divina deve ser distinguida do conhecimento dos primeiros princípios adquiridos a partir dos dados sensíveis; apenas as razões eternas fornecem a certeza perfeita, pois os princípios primeiros provêm ainda de um conhecimento criado e sujeito à mudança; segundo Boaventura, o grau de acesso às razões eternas varia conforme o grau de deiformidade — plena no estado de inocência sem o pecado, parcial e enigmática no estado de natureza decaída, plena e clara no estado de glória.
    • Para Boaventura, o mundo sensível, reflexo das perfeições do Criador, oferece os vestígios das criaturas para elevar a alma à contuição de Deus — apreensão indireta de Deus através das criaturas consideradas como efeitos da Causa primeira, distinta da intuição no sentido ontologista; todas as criaturas do mundo sensível são sombra, eco e imagem do Primeiro Princípio, vestígios, símbolos e representações que nos são oferecidos para nos elevar à contuição de Deus, como se passa do signo ao significado.
  • Etimologicamente, metafísica significa sobrenatural — o que está além da natureza —, mas o termo sobrenatural tem na teologia católica um sentido muito preciso que não convém desvirtuar: é o que é dado ao homem gratuitamente, pela graça, o que não é exigível em razão de sua própria natureza.
    • Os manuais de filosofia escolástica afirmam que o conhecimento metafísico é de ordem natural e procede da razão; Boaventura, porém, não concebe um conhecimento verdadeiro de ordem puramente natural — e é essa a opinião adotada no texto.
    • O conhecimento metafísico é uma intuição intelectual pela qual o intelecto contempla os princípios primeiros; é propriamente um conhecimento não humano, pois permite ao homem terrestre sair dos limites de sua individualidade empírica; por isso é verdadeiramente de ordem sobrenatural — o homem não pode adquiri-lo por suas únicas forças humanas, conforme René Guénon em Introduction générale à l'étude des doctrines hindoues.
    • A distinção entre mística natural e mística sobrenatural é problemática: segundo a doutrina católica do pecado original, nenhum homem se encontra atualmente no estado de natureza, de modo que a expressão mística natural não pode ter o sentido definido pelos teólogos; as categorias natural-sobrenatural são inadequadas para tratar dos problemas de espiritualidade comparada.
    • A tradição oriental cristã ignora a distinção entre o natural e o sobrenatural entre Deus e o mundo criado; ela não conhece outra distinção senão a do criado e do incriado; o que a teologia ocidental designa por sobrenatural significa para o Oriente o incriado — as energias divinas inefavelmente distintas da essência de Deus; a concepção ocidental da graça implica a ideia de causalidade, enquanto para a teologia oriental trata-se de uma procissão natural, as energias, o irradiar da essência divina.
    • Maurice Blondel define o sobrenatural como o que, procedendo de uma condescendência gratuita de Deus, eleva a criatura inteligente a um estado que não poderia ser o estado de natureza de nenhum ser criado — a comunicação da íntima vida divina; em sentido derivado, estritamente falando, nada do que é físico, metafísico ou mesmo miraculoso, nada do que não vai à caridade e à união deífica, é absolutamente sobrenatural.
    • Máximo Confessor afirma que é a mesma graça — as mesmas energias incriadas — que cria o mundo, o salva e o deifica; o Verbo pelo qual tudo foi feito (Jo 1,3) é também a verdadeira luz que ilumina todo homem que vem ao mundo (Jo 1,9); a aliança perpétua concluída com Noé e sua descendência é já sobrenatural e suficiente para o cristão ver a graça incriada e deificante de Deus a obra nas águas do Ganges e na meditação dos Upanishads.
  • A metafísica assim definida não se confunde com a filosofia nem é uma parte dela, mas algo de outra ordem; Pitágoras considerava a filosofia como uma preparação para a sabedoria, de modo que ela estava longe de ser autossuficiente.
    • O conhecimento metafísico, considerado com Boaventura de ordem sobrenatural, efetua-se por uma potência de ordem suprahumana — o intelecto — numa iluminação (photismos, nome do batismo ou iniciação cristã, cf. 2Cor 4,4 e 6) que culmina numa intuição intelectual; quem diz intuição diz conhecimento imediato, portanto sem intermediário e necessariamente infalível.
    • Aristóteles afirma no livro III do De Anima que a alma é em certo sentido todas as coisas, pois o ato do sensível e o do sentiente são um único e mesmo ato; Tomás retomou essa doutrina e a precisou pelos diversos graus de identificação; na conhecimento perfeito, Conhecimento, Conhecedor e Conhecido não são mais que um.
    • Se o conhecimento metafísico comporta uma identificação com o próprio objeto de seu conhecimento, ele é verdadeiramente operativo e não apenas especulativo; a verdadeira Conhecimento é a realização metafísica, que não é outra coisa que a identificação descrita.
    • Após o estágio especulativo deve vir o estágio operativo, que realiza o que foi entrevisto no estágio precedente por meios designáveis sob o nome geral de ritos; esses ritos são objeto de Revelação, pois devem ser de origem não humana ou suprahumana; permitem uma conformidade em vários graus, desde a ordem moral e exterior até a identificação com o Princípio supremo, onde não há mais união mas unidade — ou mais exatamente, não-dualidade.
    • A intuição intelectual difere da intuição bergsoniana: Bergson criticou em termos frequentemente exatos a razão e quebrou o espartilho do racionalismo, mas o que propõe é uma intuição de ordem infra-racional — o élan vital está mais próximo do instinto que da verdadeira inteligência; seu sistema é subversivo porque coloca no cume da hierarquia das faculdades aquela que deveria ocupar o último lugar; se para Bergson a realidade suprema está no devir, toda metafísica é radicalmente impossível, pois seu objeto é precisamente o que está além do devir e escapa totalmente à duração pura; René Guénon em Orient et Occident e Frithjof Schuon em L'oeil du coeur desenvolvem críticas análogas às filosofias evolucionistas, incluindo as derivadas de Teilhard de Chardin.
    • O ilimitado não pode encerrar-se nos limites da linguagem humana; se é preciso usar palavras para se fazer compreender, elas existem antes para fazer assentir à realidade do que para defini-la; as palavras servem de suporte de intelecção, são símbolos; a metafísica é tão rigorosa em sua ordem quanto a matemática, baseada também na evidência; a inteligência reside no coração — por isso é chamada olho do coração (Ef 1,18), conforme Frithjof Schuon em L'oeil du coeur —, e a razão é seu reflexo passivo que reside no cérebro; após a apreensão racional dos dados, deve ocorrer a assimilação pela inteligência para que irrompa o fulgur veritatis.
    • Em terminologia da lógica moderna, a metafísica pode ser considerada uma metalinguagem comum às diversas tradições espirituais da humanidade; é sempre um comentário de textos sagrados ou revelados por meio de conceitos aptos a fazer perceber sua riqueza espiritual — razão pela qual Clemente de Alexandria diz que a filosofia é o pedagogo em direção a Cristo.
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