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SABEDORIA

SARÇA ARDENTE — ENSAIO SOBRE A METAFÍSICA DA VIRGEM

  • Os primeiros versículos do Gênesis são interpretados metafisicamente: por Céu e Terra entendem-se os Princípios masculino e feminino não manifestados da manifestação universal — terminologia análoga à da Tradição chinesa (T'ien e Ti) —, a vários níveis ou graus de existência.
    • A terra era informe e vazia (Tohu vabohu): como Substância universal ou Materia prima, a Terra é o polo tenebroso da manifestação universal — conjunto caótico das possibilidades não ainda atualizadas pela atividade não agente do Céu.
    • As trevas cobriam o abismo e o Espírito de Deus pairava sobre as águas: a água é o símbolo mais direto da passividade universal, portanto da Substância; o Espírito de Deus torna fecundas as águas tenebrosas no seio das quais o Universo é formado; a vigília pascal retoma esse símbolo quando o celebrante mergulha o círio pascal nas águas batismais e sopra sobre elas em forma de psi, significando que o Espírito divino opera a transmutação dos elementos psíquicos no batismo.
    • O Fiat Lux abala o caos das trevas — análogo ao das águas tenebrosas —, e é a mesma vibração, a um só tempo sonora e luminosa, que é percebida na iluminação (photismos) do batismo quando o sujeito está no estado requerido.
    • O Verbo divino contido na ordem divina atualiza as possibilidades da Substância, fazendo-as passar da potência ao ato; opera assim polarizações sucessivas que são reflexos da polarização primordial — da Perfeição ativa e passiva ou da Essência e da Substância, conforme o grau.
    • Deus fez o firmamento e separou as águas inferiores — que simbolizam a manifestação formal, onde a forma é característica do indivíduo — das águas superiores — que simbolizam a manifestação informal ou supra-individual, o mundo angélico; caminhar sobre as águas significa que o que o realiza superou os estados individuais.
    • Essa interpretação dos primeiros versículos do Gênesis não contradiz as interpretações mais literais ou mais morais; é muito distante das teorias concordistas, mas recusa ver no Gênesis apenas um relato poético sem significação metafísica; o relato é um mito no sentido forte e preciso do termo — um símbolo verbal capaz de transmitir ao iniciado que o escuta altíssimas verdades metafísicas; contém os símbolos fundamentais do homem criado à imagem de Deus no ritmo dos seis dias, e é retomado na vigília pascal quando o neófito renasce a uma vida nova.
  • A Qabbalá hebraica, embora posta por escrito após o início da era cristã, é a expressão do esoterismo judaico — a essência mesma da Tradição judaica —, transmitido até nossos dias mesmo no seio da Diáspora; não é propriamente mística no sentido especial que esse termo adquiriu no Ocidente cristão, mas uma doutrina acompanhada de meios de realização espiritual.
  • Para a liturgia da Imaculada Conceição, a Igreja propõe como epístola o trecho de Pv 8,22-31 sobre a Sabedoria — presente ao lado de Deus como artífice antes da criação do mundo —, aplicando-o a Maria, Mãe do Verbo, Sabedoria incriada.
    • A missa Salve sancta Parens contém também um trecho do Eclesiástico (Eclo 24,14-16) aplicado à Virgem: criada antes dos séculos, ela serviu na Tenda santa, foi firmada em Sião e exerceu seu poder em Jerusalém.
    • A Igreja aplica a Maria o que Salomão diz da Sabedoria porque a Virgem é Mãe do Verbo, Sabedoria incriada: assim como o Verbo residia no tabernáculo de Jerusalém, reside em Maria, Mãe do Verbo encarnado.
    • Não há contradição em aplicar um mesmo texto — ou um mesmo símbolo, a Sabedoria criadora — a dois sujeitos diferentes (o Verbo e a Virgem), pois o ponto de vista é diferente; assim como um símbolo é suscetível de aplicações a vários graus, também é suscetível, num mesmo grau, de aplicações diversas segundo pontos de vista diferentes.
    • A Sabedoria — ou a Virgem — é apresentada como criada antes de todos os séculos e como acompanhando Deus no ato criador; a Sabedoria manifestou-se um dia em Israel: por isso a Virgem escolhida em Israel para dar à luz o Criador é chamada Sede da Sabedoria (Sedes sapientiae) nas litanias.
    • A questão de como a Virgem — que é uma criatura — pode ser dita criada de toda a eternidade se responde pela hino das Primeiras Vésperas da Assunção (liturgia romana de 1950): a Virgem é a primeira saída do espírito do Criador, predestinada a trazer em seu seio o Filho do Altíssimo.
    • O que se manifesta no tempo nunca esteve no nada — pois o nada não existe —; está contido de toda a eternidade no Intelecto divino como possibilidade de manifestação; o que não se manifesta faz parte das possibilidades de não manifestação, mas tampouco é o nada; toda a realidade de uma criatura decorre de sua permanência eterna no Intelecto divino.
  • No Antigo Testamento, a Sabedoria não é um simples conceito, mas uma realidade espiritual à qual é preciso conformar-se; a oração de Salomão para obter a Sabedoria (Sb 9,9-12) a descreve como presente quando Deus fazia o cosmos, conhecedora do que lhe é agradável e guia justa nas empresas humanas.
    • O hino à Sabedoria de Sb 7,22-30 descreve um espírito inteligente, santo, único, múltiplo, sutil, móvel, puro, impassível, que tudo pode e tudo penetra; a Sabedoria é sopro do poder de Deus, emanação límpida da glória do Todo-Poderoso, reflexo da luz eterna, espelho sem mácula da atividade de Deus e imagem de sua bondade; única, pode tudo; imutável em si mesma, renova todas as coisas; difunde-se no curso dos séculos nas almas santas e prepara os amigos e profetas de Deus; é mais bela do que o sol e superior ao conjunto dos astros.
  • Os símbolos da Virgem no Antigo Testamento são numerosos e foram recenseados e interpretados pelos Padres e autores espirituais.
    • Maria é a Árvore da Vida portando o único fruto capaz de tornar os homens imortais e divinos; é o verdadeiro Jardim do Éden, símbolo do Mundo novo do Apocalipse, e a Nova Eva.
    • Maria é a Escada de Jacó, que dá acesso ao Paraíso; sua virgindade permanente é simbolizada pela Sarça ardente cujos galhos não são consumidos pelo fogo da maternidade.
    • Maria é a Montanha Santa que permite ao homem encontrar Deus em seu cume; é o Tabernáculo do Verbo, o Templo Novo na Jerusalém de cima, e a Casa de sete colunas que a Sabedoria se construiu (Pv 9,1).
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