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CAMINHOS QUE CONDUZEM AO MESMO TOPO

THE BUGBEAR OF LITERACY

  • A urgência crescente dos contatos entre cristãos e não cristãos torna indispensável que os primeiros compreendam as fés dos outros povos, não como exercício de superioridade, mas como condição para a solução de conflitos econômicos e políticos, e como convite a participar de um banquete espiritual em que há um Outro invisível que preside.
    • O cristão moderno é chamado a tornar-se cidadão do mundo, não a presidir, mas a sentar-se entre os demais convidados.
    • O estudo comparado das religiões deixou de ser obrigação exclusiva dos missionários professos, passando a ser recomendado para mestres de escola e instituições universitárias do pós-guerra como instrumento de compreensão internacional.
    • Nota 46: o artigo foi publicado pela primeira vez em Some Observations on Comparative Religion, Nashville, Tenn., IV, no 8, 1944.
  • O ensino sobre outras religiões somente pode ser ministrado com honestidade por quem as respeita intrinsecamente, excluindo-se o racionalista, o humanista científico e o que reduz religião à ética, sendo o ideal que cada fé seja ensinada por seus próprios professores.
    • A proposta de uma escola desse tipo foi feita em Oxford.
    • O ensino realizado em seminários teológicos e colégios missionários, por homens que creem ser o cristianismo a única fé verdadeira, inevitavelmente desvirtua a religião comparada, suprimindo ao menos parte da verdade.
  • O ensino honesto da religião comparada exige que o mestre reconheça que a sua própria religião é apenas uma entre as que se comparam, apresentando a verdade sem teorias favoritas e reconhecendo que instituições fundadas sobre as mesmas premissas devem ser consideradas conjuntamente.
    • A preocupação com a exclusividade das próprias instituições e da própria civilização, em detrimento da comparação imparcial com o paganismo, é identificada como o obstáculo central.
    • Coloca-se a questão de saber se o cristão convicto da exclusividade de sua fé pode, em consciência, expor com honestidade outra religião.
    • Nota 47: Ruth Benedict, obra de 1934, p. 5.
  • A tolerância, palavra que significa suportar ou sofrer a existência do que parece ser diferente, é uma virtude meramente negativa quando fundada na incerteza sobre qualquer verdade, não exigindo nenhum sacrifício do orgulho espiritual nem abdicação do sentimento de superioridade.
    • A tolerância moderna no ocidente deve-se, em larga medida, à crença democrática de que a opinião de um homem vale tanto quanto a de qualquer outro, inclusive em religião.
    • Essa tolerância permite compadecer-se dos que diferem, sem implicar nenhum reconhecimento real do outro.
  • A tolerância levada ao extremo converte-se em indiferença e torna-se intolerável; a proposta adequada é substituí-la pelo esforço de chegar a um acordo sobre a verdade, capacitando o aluno a discutir com outros crentes sobre a validade de doutrinas particulares, deixando em suspenso o juízo sobre a superioridade ou inferioridade dos corpos doutrinais enquanto não se verificar em que aspectos diferem essencialmente.
    • Reconhece-se como inevitável a diferença nos elementos acidentais, pois nada pode ser conhecido senão no modo do conhecedor.
    • Devem ser reconhecidos símbolos equivalentes entre as tradições: a rosa e o loto, Soma como pão e água de vida, o Fazedor como carpinteiro onde o material do mundo é madeira.
    • Santo Tomás de Aquino aceitava encontrar nos filósofos pagãos provas extrínsecas e prováveis das verdades do cristianismo.
    • Nota 48: remissão ao artigo On Being in One's Right Mind, Review of Religion, vol. VII, Nova York, 1942, pp. 32-40, como ilustração do tipo de discussão proposto, envolvendo colaboração de cristãos, platonistas e hindus.
  • O oriental, para quem os milagres atribuídos a Cristo não apresentam nenhum problema, é ainda um realista nascido em ambiente realista e pode aproximar-se de Platão, São João, Dante ou Meister Eckhart de modo mais simples e direto do que o erudito ocidental afetado pelo nominalismo e pelo ambiente profano de sua formação.
    • O cristão que estuda religiões orientais pode obter grande vantagem para sua própria exegese e compreensão da doutrina cristã.
  • O procedimento sugerido oferece uma base para compreensão comum e cooperação, visando uma reunião das igrejas em sentido muito mais amplo do que o usual, com alianças ativas entre o cristianismo, o hinduísmo e o islã, fundadas em primeiros princípios reconhecidos em comum, para cooperação nos campos da arte e da prudência.
    • O que existe atualmente não é melhor do que uma guerra civil entre membros de uma única família humana, todos filhos de um mesmo Deus.
    • Nota 49: Fílon de Alexandria, obra II, 65; E. R. Goodenough, obra de 1940, pp. 105, 108; Goodenough observa que Fílon dizia a simples verdade sobre o paganismo, não propaganda cristã.
  • As alianzas propostas implicam necessariamente o abandono das empresas missionárias tal como existem, substituídas por conferências interdenominacionais, porque o único resultado permanente do proselitismo é a secularização, a destruição de culturas existentes e o desarraigamento dos indivíduos.
    • Os povos que se pretende converter não separaram ainda cultura e religião, utilidade e significado, ao contrário dos ocidentais.
    • Convencer hindus de que suas escrituras reveladas valem apenas como literatura os reduziria ao nível dos homens escolarizados que leem a Bíblia apenas como literatura.
    • Sister Nivedita, discípula de Patrick Geddes, observou que o cristianismo na Índia leva a embriaguez por onde passa.
    • Nota 50: Sister Nivedita, obra de 1903; remissão também a Christian Missions in India.
  • Todos precisam de arrependimento e conversão entendidos como mudança de mente e retorno a si mesmo, não como troca de uma forma de religião por outra, mas como passagem da incredulidade à crença, sendo a pior forma de tolerância dizer ao outro que servimos ao mesmo Deus, cada um à sua maneira.
    • O proselitismo só pode prosseguir enquanto persistir a ignorância das fes alheias.
    • Subsidiar serviços educativos ou médicos com o propósito principal de conversão é uma forma de simonia e infração do mandato evangélico.
    • A missão deve ser purificada de qualquer noção de missão civilizadora, pois o que o ocidente chama de responsabilidade do homem branco é considerado pelo oriente como a ameaça branca nos Mares do Sul.
    • Nota 51: J. M. Plumer, China's High Standard of Living, fevereiro de 1944, citado sobre o risco de trair os aliados chineses vendendo-lhes o modo de vida americano.
  • A palavra heresia significa escolha e opinião própria, e seu equivalente moderno é traição; a heresia mais destacada do cristianismo moderno, aos olhos de outros crentes, é a pretensão à verdade exclusiva, que equivale a trair Aquele que nunca se deixou sem testemunho.
    • Ofender amigos pagãos dizendo que a luz que há neles é obscuridade é ofender o Pai das luzes.
    • São Ambrósio, comentando I Coríntios 12:3, disse que tudo que é verdadeiro, quem quer que o diga, é do Espírito Santo, dito ratificado por Santo Tomás de Aquino.
  • A pretensão à validade exclusiva não promove a sobrevivência do cristianismo em um mundo preparado para pôr à prova todas as coisas, podendo enfraquecer enormemente seu prestígio em relação a outras tradições que não participam dessas polêmicas.
    • Um grande teólogo germano disse que a cultura humana é um conjunto unitário e que suas culturas separadas são os dialetos de uma mesma língua do espírito.
    • O oriental diria ao cristão: ainda que você não esteja do nosso lado, nós estamos do seu; raramente se expressa a atitude recíproca.
    • A Verdade ou a Justiça, em que todos estão igual e incondicionalmente interessados, é como a Távola Redonda em que todo o mundo cristão e pagão se sentava para comer do mesmo pão e beber do mesmo vinho.
    • Nota 52: Alfred Jeremias, Vorwort; Johannes Sauter, em obra de Berlim, outubro de 1934, afirmou que uma longa cadeia metafísica envolve o mundo e conecta todas as raças.
  • Os antigos e os não cristãos, quando falavam de religiões que não eram a sua, expressavam reconhecimento da unidade subjacente; Plutarco desautorizava os evemeristas e afirmava que os deuses não são de diferentes povos, mas comuns a todos, com nomes diferentes segundo os costumes.
    • Apuleio reconhecia que a Ísis egípcia era adorada em todo o mundo de diversas maneiras, com costumes variáveis e com muitos nomes.
    • Nota 53: Plutarco, obra 67; William Law afirmou que não há salvação diferente para o judeu, para o cristão e para o pagão, pois Deus é um, a natureza humana é uma e a via para ela é uma.
    • Nota 54: Apuleius, obra XI, 5; referência a Alfred Jeremias, obra de Leipzig, 1932.
  • O imperador mughal Akbar, ao escrever ao eremita hindu Jadrup, afirmou que o sufismo deste é o mesmo que o tasawwuf islâmico, e o poeta sufi Ibn Arabi declarou seguir a religião do Amor, qualquer que seja a via que tomem seus camelos, sendo sua religião e sua fé sua verdadera religião.
    • Na Índia do norte, a literatura religiosa muitas vezes torna impossível distinguir os elementos muçulmanos dos hindus.
    • O professor Nicholson observou que a indiferença pelas formas religiosas é uma doutrina cardinal sufi.
    • Nota 55: Memorias de Akbar, versão de Rogers e Beveridge, 1905, p. 356.
    • Nota 56: R. A. Nicholson, obra de 1914, p. 105; Junayd disse que a cor da água é a cor do jarro que a contém, como forma de descrever a adaptação de Deus às formas de cada tradição.
  • O poeta sufi Jami afirmou que se a pegada do Amado se encontra num templo idólatra, seria pecado mortal circum-ambular a Caaba, e o poeta tâmil Appar disse, em hino a Siva, que Deus inspirou como Mestre milhões de religiões e fez de cada uma delas a proposição verdadeira e a meta final.
    • Nota 57: R. A. Nicholson, obra de 1898, p. 238; o Masnavi de Rumi descreve que não há dois pássaros que voem igual nesta senda do conhecimento místico.
    • Nota 58: Sir P. Arunachalam, obra de Colombo, 1937, p. 201.
  • O Bhagavad Gita proclama que Krishna é o fundador da fé de qualquer amante que busca adorar uma forma de Deus com fé, e que a via a ele empreendida pelos homens é a via do próprio Krishna, enquanto o Bhagavata Purana sustenta que um homem deve fomentar a leitura das Escrituras, sejam de sua própria igreja ou de outra.
    • Nota 59: tradução por Sir George Grierson, obra de 1908, p. 347.
    • Nota 60: Schleiermacher sustentou acertadamente que a multiplicidade das religiões tem seu fundamento na natureza da religião mesma, sendo necessária para sua manifestação completa.
  • Cristo afirmou não ter vindo chamar os justos mas os pecadores, e São Justino disse que Deus é o Logos de quem toda a raça humana participa, sendo cristãos aqueles que viveram de acordo com a Razão, incluindo Sócrates, Heráclito, os bárbaros, Abraão e muitos outros.
    • Meister Eckhart, o maior dos místicos cristãos, chamou Platão de sumo sacerdote e afirmou que ele encontrou a via antes que Cristo nascesse.
    • Santo Agostinho afirmou que a mesma coisa que se chama religião cristã não faltava entre os antigos desde o começo da raça humana, até que Cristo veio em carne.
    • O sufi Ibn Arabi viu Platão em visão, lhe enchendo de luz o mundo.
  • A religião foi reduzida a um conjunto de regras de conduta em vez de ser entendida como doutrina sobre o que Deus é e sobre o que o homem deve ser, e essa confusão dos meios necessários com o fim transcendente produziu resultados infelizes para o cristianismo, tanto no interior quanto no exterior.
    • Quanto mais a Igreja se entregou ao serviço social, tanto mais declinou sua influência.
    • A religião oferecida em termos sentimentais e não como desafio intelectual levou muitos à rebeldia.
    • O olvido de que a doutrina cristã tem tanto a ver com a arte e a manufatura quanto com o comportamento favorece os céticos.
    • A excessiva insistência sobre a moral e o abandono das virtudes intelectuais convida às réplicas dos racionalistas que mantêm que a religião nunca foi mais do que um meio de narcotizar as classes inferiores.
    • Nota 61: Christopher Dawson respondeu que, uma vez que a moralidade é privada de seus fundamentos religiosos e metafísicos, torna-se subordinada inevitavelmente aos fins mais baixos.
  • A severa disciplina intelectual exigida por qualquer estudo sério da religião oriental ou primitiva pode servir como corretivo útil, exigindo as mais altas qualificações possíveis, e aproxima-se o tempo em que conhecer árabe, sânscrito ou chinês será tão necessário quanto o latim, o grego ou o hebraico para quem queira ser chamado educado.
    • As traduções existentes são frequentemente inadequadas.
    • Para saber se todos os crentes adoraram a um mesmo Deus, seja pelo nome inglês, latino, árabe, chinês ou navajo, é preciso ter investigado as Escrituras do mundo.
  • O ensino religioso comparado não pode ser empreendido com motivos ulteriores; o esforço do mestre deve dirigir-se ao interesse e à vantagem do próprio aluno, não para que possa fazer o bem, mas para que seja bom, pois a caridade começa em casa, e fazer o bem só é possível quando se é bom.
    • É doutrina cristã sã que um homem deve primeiro conhecer-se e amar-se a si mesmo, ao seu homem interior, antes de poder amar ao seu próximo.
  • O aluno se assombrará com o efeito que tem sobre a compreensão da doutrina cristã o reconhecimento de doutrinas similares expressadas em outras línguas, descobrindo no rastro dos caçadores da Idade da Pedra um idioma do espírito, uma filosofia canibal na Eucaristia, e a doutrina dos sete raios do Sol inteligível nos Sete Dons do Espírito e nos sete olhos do Cordeiro apocalíptico e de Cuchulainn.
    • O aluno pode tornar-se menos inclinado a recuar diante dos ditos mais duros de Cristo ou de São Paulo sobre a separação entre a alma e o espírito.
    • A distinção entre alma e espírito, presente nos teólogos hebraicos e árabes, equivale ao que os místicos cristãos chamam de entrega da alma à morte, e à exortação islâmica e indiana de morrer antes de morrer.
    • A soul criada com o corpo não é o objeto da promessa de vida eterna, e as provas dos espiritistas sobre a sobrevivência da personalidade humana não têm nenhuma incidência religiosa.
  • A mente do estudante democrático, a quem o nome do direito divino pode resultar ininteligível, acordará com sobressalto ao compreender, como o professor Buckler frequentemente lembra, que a noção de um vice-rei de Deus na terra depende do significado interior da realeza oriental, pois na justa detestação das ditaduras pode ter esquecido que a definição clássica de tirania é a de um rei que governa em seu próprio interesse.
  • O intercâmbio não precisa ser em uma única direção, pois a estimação do hindu ou do budista em relação ao cristianismo pode alterar-se quando lhes for dada a oportunidade de entrar em contato mais estreito com a qualidade do pensamento que levou Vincent de Beauvais a falar da ferocidade de Cristo e Dante a maravilhar-se com a multidão de dentes com que morde este Amor.
  • Quem conhece o texto do Maitri Upanishad sobre os Nomes como chaves para o Brahman transcendente, mas nada sabe da técnica ocidental, certamente será movido por uma compreensão simpática ao saber que o cristão também segue uma via negativa e uma via afirmativa, e Nicolás de Cusa descreveu a muralha do Paraíso onde mora Deus como uma muralha construída de contraditórios.
    • Dante afirmou que além dessa muralha não há espaço nem polos, mas que ali todo onde e todo quando têm seu foco.
    • Jenofonte disse que quando Deus é nosso mestre, todos vimos a pensar igualmente.
  • Há tantos hindus e budistas cujo conhecimento do cristianismo é virtualmente nulo quanto cristãos igualmente instruídos cujo conhecimento real de qualquer outra religião é também virtualmente nulo, e assim como não pode haver conhecimento real de uma língua sem participação imaginativa nas atividades a que ela se refere, tampouco pode haver conhecimento real de uma vida que não se viveu em alguma medida.
    • O maior dos santos modernos da Índia praticou efetivamente as disciplinas cristã e islâmica, adorou a Cristo e a Allah, e encontrou que todas conduziam à mesma meta.
    • Ramakrishna pôde falar da validade igual de todas as vias desde a experiência, sentindo o mesmo respeito por cada uma delas, embora preferindo para si a via à qual todo seu ser se adaptava naturalmente por nascimento, temperamento e instrução.
    • Teria sido grande perda para seus compatriotas, para o mundo e para o próprio cristianismo se Ramakrishna se tivesse feito cristão.
    • Há muitos caminhos que conduzem ao mesmo cume de uma e a mesma montanha; as diferenças são tanto mais notórias quanto mais abaixo se está, e se desvanecem no cume; quem dá voltas em torno da montanha observando os demais não a está escalando.
    • Nota 62: lista de obras recomendadas ao leitor, incluindo Sister Nivedita, Demetra Vaka, Paul Radin, Father W. Schmidt, Lord Raglan, Aldous Huxley, René Guénon, Marco Pallis, R. St. Barbe Baker, Swami Nikhilananda, N. K. Chadwick, A. K. Coomaraswamy, Sir P. Arunachalam, Sir George Birdwood e J. C. Archer.
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