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A FILOSOFIA DA ARTE CRISTÃ E ORIENTAL, OU A VERDADEIRA FILOSOFIA DA ARTE

  • A filosofia da arte cristã e oriental fundamenta-se em uma doutrina católica ou universal, cujas premissas divergem radicalmente das filosofias humanistas.
    • A validade desta exposição repousa na autoridade e consistência de uma tradição que exige a interdependência entre a fé e a compreensão.
  • A doutrina exposta transcende opiniões pessoais, pertencendo à Philosophia Perennis, onde a cultura é compreendida como originada no trabalho e não no lazer.
    • O uso da linguagem escolástica visa à clareza conceitual necessária para expressar ideias tradicionalmente vinculadas a termos sânscritos.
  • A atividade humana divide-se entre o fazer e o obrar, sendo o primeiro governado pela arte e o segundo pela prudência.
    • Embora logicamente distintos, ambos dependem da vida contemplativa para sua correção fundamental.
  • O artista opera simultaneamente por arte e voluntariamente, o que implica uma responsabilidade moral inalienável sobre a retidão de sua vontade.
    • A responsabilidade não pode ser transferida ao patrono, visto que o artista consente livremente ao aceitar o encargo pelo bem da obra.
  • A manufatura justifica-se pelo uso e não pelo proveito financeiro, integrando o indivíduo em uma ordem social orgânica.
    • Todo homem sem uma vocação específica é considerado um haragão, pois a arte não é atributo de um tipo especial de homem, mas de toda função necessária.
  • O tipo de arte exercido por cada indivíduo — seja carpinteiro, pintor ou sacerdote — é determinado por sua própria natureza e nascimento.
    • Somente o monge, ao renunciar ao mundo e às atividades construtivas, possui o direito de abstenção da vida ativa.
  • O propósito da arte em uma sociedade tradicional revela a concepção de vida regente, sendo o bem do homem e da sociedade o critério de validade.
    • A correção da feitura é a condição indispensável para que haja qualquer bom uso do objeto produzido.
  • O mero prazer sensorial não constitui uso legítimo, mas sim uma apreciação estética sentimental dissociada da razão de ser do objeto.
    • O gosto por objetos exóticos ou Shakers como meras curiosidades denota uma superalimentação de estímulos e falta de necessidade vital.
  • O uso compreensivo e a verificação na própria vida são as únicas bases que conferem o direito ao prazer derivado das obras de arte.
    • A conversão de artefatos rituais em adornos de prateleira é um abuso que ignora a cultura alheia e multiplica apenas satisfações sensoriais.
  • A vida dedicada exclusivamente ao prazer é considerada sub-humana, pois o prazer deve ser o resultado natural da operação correta e não um fim em si mesmo.
    • A felicidade real não reside na evasão pelo lazer, mas na perfeição encontrada no exercício da vocação.
  • A manufatura tradicional atua como um processo educativo onde o trabalho é, simultaneamente, oração e alavanca a Deus.
    • A civilização industrial é vista como inferior por negar à imensa maioria dos homens este meio de vida integral.
  • A arte tradicional, seja cristão, oriental ou folclórico, rejeita a distinção entre belas artes inúteis e artesanias utilitárias.
    • A beleza e a fealdade são medidas pelos termos de formalidade e informalidade, não havendo diferença de princípio entre o orador e o carpinteiro.
  • O julgamento moral de uma obra é essencial para a vida humana, mas distingue-se do julgamento técnico da obra como arte.
    • Uma bomba é considerada má obra de arte apenas se falhar em sua função de destruir, evidenciando que a arte é um conhecimento e não um ato de vontade moral.
  • A beleza é definida como o poder atrativo da perfeição, presente em contextos diferentes sem que se possa estabelecer uma hierarquia de belezas.
    • Um celeiro perfeito é tão belo quanto uma catedral perfeita, pois cada um é bom na medida em que realiza o que se propõe ser.
  • A ideia de progresso na arte é absurda, pois pressupõe que os artistas primitivos falharam em atingir objetivos modernos que eles nunca pretenderam.
    • A excelência de uma obra reside unicamente na medida em que o artista realizou sua intenção original.
  • A beleza é objetiva e reside no artefato, sendo independente das reações superficiais ou morais do espectador.
    • Para julgar como o artista, deve-se primeiro consentir a existência do objeto e compreender seu protótipo mental.
  • A arte primitivo e medieval é mais abstrato e intelectual por possuir algo definido a dizer, em oposição ao foco moderno em anatomia ou perspectiva.
    • A obscuridade da Idade Média para o observador atual decorre da ignorância moderna sobre os princípios unificadores daquela época.
  • A perfeição do objeto exige que o crítico se identifique com a visão de formas ideais do artista, tornando a crítica uma forma de reprodução.
    • A apreciação da arte requer o sacrifício do provincialismo pessoal em favor de uma compreensão universal das culturas.
  • O homem é um ser simultaneamente espiritual e psicofísico, o que torna impossível a classificação de obras puramente funcionais ou espirituais.
    • Viver apenas de pão é viver de uma arte meramente funcional, negligenciando a totalidade das ideias divinas que sustentam o homem.
  • A separação entre artes aplicadas e belas artes condena a maioria a uma vida de subprodutos, enquanto as artes finas tornam-se ornamentos sem significação.
    • O homem primordial, sendo naturalmente metafísico, via as ideias eternas refletidas em tudo o que era feito por suas mãos.
  • Na ausência de distinção entre o sagrado e o secular, objetos cotidianos como casas e carros eram imitações de protótipos divinos.
    • O arquétipo da casa incorporava uma cosmologia onde a coluna de fumaça representava o Eixo do Universo e o centro da terra.
  • A morte do homem metafísico ocorre quando se vê apenas o objeto em si mesmo, encerrando a humanidade na caverna do determinismo funcional e econômico.
    • As obras da Philosophia Perennis pertencem simultaneamente ao mundo físico e ao metafísico.
  • A operação do artista é dupla: teorética (livre) e operativa (servil), resultando na impressão da forma viva sobre o material.
    • A imitação na arte refere-se à maneira de operação da natureza divina e não à aparência naturalista das coisas.
  • A imagem da obra nasce no intelecto como uma concepção intelectual fruto da sabedoria do artista.
    • O artista imita este modelo vivo em sua mente, que é mais real do que qualquer modelo vivo que pose em escolas de arte.
  • As figuras naturais são apenas o vestuário no qual se veste a forma, agindo como meios para a expressão de ideias puras.
    • A invenção artística consiste na intuição de realidades em níveis superiores ao empírico.
  • O ato imaginativo é livre porque o artista expressa a si mesmo sub specie aeternitatis, e não sua personalidade individual ou idiossincrasias.
    • A vitalidade da obra decorre da vida supraindividual que o artista infunde nela ao conformar-se ao modelo.
  • O artista ativo e consciente utiliza a si mesmo como instrumento do espírito, sendo um contemplativo e um bom trabalhador simultaneamente.
    • A contemplação eleva a referência do empírico para o ideal, permitindo a audição e visão das formas arquetípicas.
  • O gênio não é uma propriedade pessoal, mas o Espírito inmanente (Sinderesis) que o artífice deve servir como consciência artística e moral.
    • Ninguém é um gênio, mas todos possuem um gênio ao qual podem obedecer para alcançar a originalidade.
  • O estilo é a marca inevitável da individualidade humana, sendo o acidente e não a essência da obra de arte.
    • O foco moderno na personalidade do artista é uma perversão individualista que impede a compreensão do anonimato tradicional.
  • Nas artes tradicionais, a questão fundamental não é quem disse, mas o que foi dito, pois toda verdade tem origem no Espírito.
    • O significado espiritual e a forma intrínseca são inseparáveis da função utilitária do objeto.
  • Jogos, atletismo e contos de fadas tradicionais são incorporações de doutrinas metafísicas e não meros entretenimentos modernos.
    • A iconografia é a arte pela qual se determinam as formas, reduzindo a arte final à teologia.
  • O objetivo supremo da consciência é perder a egoidade para encontrar-se no princípio e fim de todas as coisas.
    • O artista tradicional não se considera o fazedor, mas o instrumento de uma vontade superior.
  • A efígie tradicional representa um tipo ou função social (rei, ferreiro) e não a aparência individual do sujeito.
    • A personalidade é vista como uma função temporal em arrendamento, enquanto a verdadeira pessoa é impassível aos acidentes do tempo.
  • O retrato ideal mostra o homem como ele seria na Ressurreição, em um corpo de glória sem as imperfeições da idade ou individualidade.
    • O herói ou santo é um modelo imitável justamente por apresentar qualidades universais e divinas.
  • A humanização e a sentimentalização da arte (como o Cristo sofrendo) marcam a decadência dos interesses intelectuais para os sentimentais.
    • A secularização da arte e a racionalização da religião estão indissociavelmente unidas na história humana.
  • O progresso da arte é uma ilusão que ignora as intenções dos artistas antigos, como a frontalidade ou a falta de perspectiva científica.
    • A perspectiva tradicional é uma sintaxe visual adaptada a propósitos de comunicação e não de representação ilusionista.
  • Estudar arte cristã ou budista sem as respectivas filosofias é tão inútil quanto estudar matemática sem conhecer os números.
  • A pobreza voluntária é um ideal que rejeita a multiplicação de utilidades que escravizam o homem à sua própria maquinaria.
    • Possesões só são dignas se forem simultaneamente belas e úteis, servindo às necessidades do contemplativo e do trabalhador.
  • O iconoclasmo e a iconolatria são métodos complementares: a imagem é um suporte necessário para a maioria, mas deve ser transcendida na visão direta de Deus.
    • A idolatria consiste no abuso do símbolo, tratando o meio como se fosse o fim absoluto.
  • A linguagem simbólica é a única forma de falar da realidade última, revelando a metade e ocultando a metade através de mistérios.
    • Toda escritura e imagem conceitual é vã quando comparada à natureza inefável de Deus.
  • A arte religioso é uma teologia visual que utiliza as vias afirmativa e negativa para conduzir a alma à unidade da Pessoa divina.
    • A utilidade da iconografia termina quando o homem alcança a visão face a face.
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