coomaraswamy:folclore
NATUREZA DO FOLCLORE E DA ARTE POPULAR
-
A dicotomia comumente estabelecida sob as condições vigentes entre o saber oficial e o folclore, ou entre a arte elevada e a arte popular, delineia uma separação válida e profunda entre a ciência e a criação acadêmica de um lado, e a superstição e a produção rústica de outro, alocando-as em ordens e níveis de referência inteiramente distintos.
-
A ciência atual e a elaboração acadêmica contrapõem-se frontalmente à superstição e à arte rústica como categorias independentes e divergentes.
A tradição indiana registra uma distinção análoga entre as línguas e literaturas constituídas e as provinciais, bem como entre a arte principal e a local, configurando um aparente paralelo com a valoração moderna da erudição em detrimento da produção folclórica.-
No tratado Sangitadarpana, a música é categorizada em principal, praticada por Bharata e seguidora de Siva para a outorga da libertação, e em local, destinada à distração mundana conforme o costume da região.
-
Na obra Dasarupa, a dança principal, focada na expressão de significados por meio de gestos, diferencia-se da dança secundária.
-
A atitude de desprezo do ustad moderno em relação aos cantos folclóricos assemelha-se à postura do músico acadêmico europeu perante a música do povo.
A literatura védica atesta a oposição entre a arte sagrada voltada à iluminação e a arte secular dedicada ao mero entretenimento, ilustrando a superioridade da operação ritualística sobre a distração profana.-
O episódio narrado no Jaiminiya Brahmana descreve a disputa sacrificial entre Prajapati, amparado por laudes, recitativos e atos rituais sacerdotais, e a Muerte, apoiada por cantos, atuações e ações de mera diversão, as quais, após a derrota, são relegadas à morada das mulheres como passatempos vãos.
-
A confecção de semelhanças humanas, segundo o Sukranitisara, é condenada como um ato não conducente ao mundo da luz celestial, em contraste com a fabricação de imagens divinas que leva ao céu, evidenciando o caráter herético das atividades focadas no âmbito terreno.
O antagonismo entre a arte musical sagrada e a profana manifesta-se no episódio mitológico da sedução da deusa Vac, que abandona a recitação litúrgica e a salmodia para render-se aos prazeres frívolos da dança e do canto seculares, consolidando a reprovação moral e espiritual da arte estritamente voltada ao entretenimento humano.-
No Satapatha Brahmana, o episódio consolida como os Devas mundanos atraem Vac para longe dos Gandharvas, que detêm o conhecimento, oferecendo-lhe a atração vã do prazer sonoro e coreográfico.
-
A inclinação feminina histórica à vaidade e a atração imediata pelo canto e pela dança justificam-se etiologicamente pela escolha ilusória de Vac.
-
A desaprovação indiana, notadamente a budista, recai exclusivamente sobre as artes seculares de mera diversão, preservando a validade das artes intelectuais como verdadeiros instrumentos de iluminação.
A arte musical principal e erudita carrega um valor estritamente religioso e transcendental que, por ter sido concebida pela divindade suprema e transmitida por sucessões de mestres, opera como o veículo indispensável para o rompimento do ciclo de nascimentos e para a reconstituição espiritual da personalidade limitada.-
A observação do pesquisador Bake confirma o papel salvífico da música artística concebida pelas instâncias divinas superiores.
-
A doutrina registrada no Aitareya Brahmana e no Rgveda estabelece que as obras de arte humanas constituem imitações das formas celestiais capazes de efetuar a reestruturação métrica do indivíduo.
-
A estruturação da língua sânscrita e da escrita devanagari transcende o mero idioma humano para configurar uma imitação exata dos meios de comunicação da cidade dos deuses.
O conceito de via ou rastreamento fundamenta a terminologia da arte sagrada, na qual a busca ininterrupta pela divindade ou pela luz oculta perfaz a própria jornada de libertação espiritual.-
O Rgveda lida exclusivamente com a dimensão incessante e eterna, exigindo a compreensão transfigurada e simbólica de todos os seus termos.
-
A palavra que designa a arte principal deriva do ato de perseguir e rastrear marcas, ilustrado no Rgveda pelas figuras de homens que caçam Indra com oferendas.
-
A divindade Varuna é comparada a um animal feroz nas escrituras.
-
Os Bhrgus figuram como ardentes buscadores que perseguem o rastro de Agni tal qual um animal perdido.
-
A libertação consolida-se através da via ou senda, que consiste na perseguição diligente e descoberta final da luz oculta.
O termo associado à arte secundária remete ao conceito de localização regional e limitação mundana, contrastando com a dimensão celestial e englobando tudo o que é profano, indireto e submetido ao ciclo mortal.-
A etimologia da palavra atrela-se a noções de indicar e estabelecer-se em uma localidade, definindo o caráter nativo e os costumes habituais do mundo.
-
O mundo constitui o lugar demarcado pelas condições mortais debaixo do sol, onde os parentescos se estabelecem de maneira estritamente humana e temporária.
-
As acepções de agradável, apaixonante e caprichoso alinham-se perfeitamente ao valor mundano e profano dessa manifestação artística inferior.
A aplicação da analogia geográfica e espiritual qualifica como bárbaras, pagãs e secularizadas as manifestações distanciadas de um centro ortodoxo e da observância estrita do modelo celestial.-
A perspectiva dos Brahmanes, tomados como deuses na terra, define como provinciano tudo o que se encontra geograficamente e qualitativamente afastado da terra santa.
-
O conceito de localidade ou regionalismo equipara-se à condição de pagão ou gentio, tanto no sentido material de habitar os ermos quanto na acepção moral de abraçar o materialismo sentimental.
A convivência simultânea das culturas principal e secundária em um mesmo meio decorre de diferenças qualitativas entre os tipos humanos e não de fronteiras puramente étnicas ou divisões estratificadas de classes sociais, demonstrando que o distanciamento da tradição se dá pela adoção de valores antitradicionais e profanos.-
A pintura mughal evidencia uma arte secundária e datada por seu caráter essencialmente retratista e profano, opondo-se frontalmente à elevação hierática da pintura hindu.
-
A verdadeira cultura secundária e indireta não corresponde às manifestações primitivas dos índios americanos ou dos camponeses, mas à civilização burguesa acadêmica europeia moderna e à cultura proletária da Rússia soviética.
-
A arte tradicional, detentora de fins fixados, meios de operação verificados e sucessão pupilar desde o passado imemorial, preserva sua essência sagrada e difere fundamentalmente do academismo personalista regido pelas efemeridades da moda.
A segmentação entre a arte principal e a local consolida-se efetivamente como a separação rigorosa entre uma emanação sagrada e tradicional e uma produção profana e sentimental, invalidando qualquer equivalência ingênua com as distinções vigentes entre a aristocracia letrada e o folclore primitivo.-
A verdadeira dicotomia repousa na oposição entre o modelo sagrado transmitido ininterruptamente e a emotividade profana superficial.
A natureza da autêntica arte folclórica e camponesa partilha a mesma essência intelectual das criações elaboradas por poetas e mestres superiores, divergindo apenas no grau de refinamento material dentro de sociedades unânimes onde não existem rupturas ideológicas entre o homem rústico e o senhor.-
As distinções nas sociedades tradicionais aferem-se pelo valor material e pelo luxo da execução, sem afetar de forma alguma o conteúdo e a índole espiritual e psicológica da obra.
-
Toda arte tradicional figura inexoravelmente como arte popular por expressar o consenso de um povo coeso, inviabilizando a segregação entre motivos aristocráticos e motivos populares.
-
A formulação do professor Child constata que a poesia nacional autêntica surge em ambientes livres da fragmentação imposta por organizações políticas e por culturas livrescas discriminatórias, mantendo a comunidade de ideias como um organismo orgânico e singular.
-
As figuras dos mestres kavi e acarya representam tão somente a formulação mais refinada dessa mesma tradição compartilhada homogeneamente pelo ambiente camponês.
A incapacidade contemporânea de compreender as dinâmicas orgânicas do folclore autêntico deriva da projeção equivocada dos paradigmas fragmentados presentes nas sociedades democráticas, nas quais a igualdade teórica mascara uma cisão estrutural entre a mentalidade burguesa e a ignorância das massas.-
A civilização democrática oblitera a noção de um povo unânime para instituir o domínio nivelador de um proletariado análogo a párias.
-
As classes sacerdotal e cavalheiresca desaparecem sob o princípio da intercambialidade indiscriminada de funções, permitindo a ascensão puramente secular de indivíduos comuns a posições de comando nacional.
-
A burguesia amalgama-se às massas proletárias para formar um rebanho profano regido unicamente por inclinações imediatas de gosto, em total detrimento dos princípios norteadores superiores.
-
A distinção entre indivíduos educados e não educados decai para um critério puramente técnico de acúmulo de informações, destituído de qualquer relação orgânica com a profundidade da consciência espiritual.
-
A escolaridade convencional revela-se desnecessária e dispensável para a consecução de diversas tarefas em um sistema tradicional, onde a dignidade máxima repousa no exercício exímio e na intelecção da própria função específica, anulando a ambição moderna de superioridade competitiva.
A proliferação dos valores proletários na modernidade instaura uma oposição ilusória entre o conhecimento empírico escolarizado e a ignorância generalizada, encobrindo o fato de que são precisamente as antigas superstições camponesas que retêm a sabedoria humana primordial diante da decadência intelectual acadêmica.-
A valoração do saber contemporâneo mede-se pela simples competência técnica de decodificação da palavra impressa, ignorando a densidade ou a verdade metafísica do conteúdo assimilado.
-
A educação moderna de índole burguesa desmantela deliberada e metodicamente o fio da transmissão simbólica e iniciática que outrora vigorava de forma inconteste nas camadas sociais superiores.
-
As superstições e as doutrinas aparentemente irracionais retidas pelo povo assumem o papel emergencial de guardiãs dos valores espirituais constantemente ameaçados de extinção.
-
Os contos de fadas tradicionais preservam um cabedal de conhecimento profundamente superior à frivolidade analítica e psicológica elaborada na literatura romanceada e secular da atualidade.
A postulação habitual de que o folclore resulta da invenção espontânea e criativa das massas constitui uma premissa categoricamente falsa e atrelada a preconceitos democráticos, visto que o povo atua exclusivamente como preservador inconsciente de tradições insondáveis forjadas em um passado imemorial.-
A constatação de René Guénon denuncia a falácia da criação popular espontânea, atestando a conservação mecânica de vestígios doutrinários antiquíssimos pela memória coletiva das populações rústicas.
-
O material veiculado pelos contos de fadas e pela arte decorativa popular encerra símbolos e doutrinas esotéricas complexas que jamais poderiam emanar da inventividade das camadas comuns.
-
A memória do povo funciona como uma arca providencial que transporta intacta a sabedoria das épocas anteriores pelas fases inevitáveis de dissolução e de trevas intelectuais características do encerramento de um ciclo civilizatório.
A natureza intrínseca do material folclórico filia-se à ordem da arte sagrada principal e da pura inteligibilidade metafísica, independentemente do fato de os seus transmissores camponeses desconhecerem completamente o substrato doutrinário que repetem com rigorosa precisão.-
A incompreensão cabal dos símbolos ocorre com igual ou maior frequência nos círculos literários e acadêmicos contemporâneos, cujos autores recorrentemente sobrepõem características romanescas ao material puramente mítico das tradições originárias.
-
As narrativas monumentais do Mahabharata e do Ramayana, bem como os ciclos arturianos e célticos do Graal, sofrem frequentes adulterações nas mãos de redatores que ignoram a significação última de suas matrizes fabulares.
-
A exatidão formal preservada nas crenças populares remanescentes atesta inequivocamente que essas fórmulas rigorosas foram forjadas em uma era de plena e profunda compreensão intelectual.
-
O cientificismo empírico do indivíduo escolarizado comprova a sua severa limitação ao analisar dados folclóricos comparativamente sem demonstrar qualquer alcance hermenêutico da realidade metafísica ali cifrada.
Os princípios exarados acerca do folclore e da arte popular aplicam-se com máxima intensidade à literatura da revelação tradicional e às escrituras imemoriais, que demandam uma conjugação indissociável entre o assentimento da fé e a operação do intelecto para que seus códigos de extrema abstração sejam devidamente decifrados.-
O texto do Rgveda, em vez de refletir uma fase de barbárie intelectual incipiente, formula concepções de tamanha elevação e distanciamento empírico que permanecem virtualmente inacessíveis às mentes tolhidas pelas metodologias da instrução universitária moderna.
-
A apreensão das verdades da revelação subordina-se invariavelmente ao cumprimento recíproco dos axiomas de crer para compreender e de compreender para crer, unificando a decodificação da sabedoria folclórica autêntica e o estudo das compilações sagradas legadas pela tradição.
coomaraswamy/folclore.txt · Last modified: by 127.0.0.1
-
