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coomaraswamy:hinduismo-teologia

HINDUÍSMO – TEOLOGIA E AUTOLOGIA

HINDUÍSMO E BUDISMO

  • O Sacrifício (yajña) realizado no mundo humano é apresentado como mimesis ritual da ação primordial dos Deuses e como operação que participa simultaneamente do caráter de pecado e de expiação, estabelecendo uma relação circular entre compreensão do Mito e realização do Sacrifício.
    • O Sacrifício reproduz o que os Deuses fizeram no começo.
    • A operação sacrificial é simultaneamente culpa e expiação.
    • A compreensão do Mito depende da realização do Sacrifício.
    • A realização do Sacrifício depende da compreensão do Mito.
    • A investigação preliminar exige responder às questões acerca de Deus e acerca da natureza humana.
  • Deus é definido como essência sem dualidade (advaita), ou como realidade sem dualidade mas dotada de relações (viśiṣṭādvaita), cuja essência subsiste em natureza dupla enquanto ser e devir.
    • A essência divina é apreendida como ser (asti).
    • A natureza dupla manifesta-se como ser e como tornar-se.
    • A Intereidade (kṛtsnam, pūrṇam, bhūman) reúne pares complementares: explícito e não explícito, sonante e silente.
    • Outras polaridades incluem saguṇa e nirguṇa, temporal e eterno, manifestado e não-manifestado.
    • O conhecimento do aspecto imanente (apara) implica conhecimento do aspecto transcendente (para).
    • A Pessoa no coração, que come e bebe, é também a Pessoa no Sol.
    • O Sol é apresentado como Luz das luzes e como o Ātman universal de todas as coisas.
    • A presença divina é simultaneamente interior e exterior, indivisa nas coisas divididas.
    • Deus não provém de lugar algum nem se torna alguém, mas assume todas as modalidades possíveis de existência.
  • A multiplicidade dos nomes divinos como Agni, Indra, Prajāpati, Śiva ou Brahma exprime manifestações diversas daquele que é realmente uno.
    • A tradição afirma que muitos nomes designam o mesmo ser único.
    • Deus assume as formas concebidas pelos adoradores.
    • As tríades Agni–Vāyu–Āditya ou Brahmā–Rudra–Viṣṇu são consideradas encarnações supremas do Brahman incorpóreo.
    • Essas incorporações participam de um único Si comum definido por operações distintas.
    • Tais formas são meios de ascensão progressiva nos mundos.
    • No ponto final dessa ascensão alcança-se a simplicidade da Pessoa.
  • A sílaba AUM é apresentada como o símbolo mais perfeito de Deus, reunindo todos os sons e servindo como suporte de contemplação do princípio sem forma.
    • AUM representa a totalidade dos sons e a música das esferas cantada pelo Sol.
    • O símbolo audível possui valor equivalente ao ícone plástico.
    • Ambos funcionam como suportes contemplativos (dhiyālamba).
    • O invisível e o inaudito são apreendidos por analogia no visível e no audível.
    • Os símbolos são meios para abordar o sem-forma.
    • Tais formas devem ser abandonadas antes da identificação final com o princípio.
  • A realidade designada como “Isso” (tat) é descrita como sizígia de princípios conjuntos sem composição nem dualidade.
    • Os princípios não se distinguem interiormente.
    • Exteriormente distinguem-se como suficiente e insuficiente.
    • A oposição surge quando se considera a auto-manifestação (svaprakāśatvam).
    • A manifestação introduz as categorias de sujeito e objeto.
    • O universo percebido aparece como multiplicidade de existências individuais.
  • O Uno pode ser denominado simultaneamente Multiplicidade Integral e Luz Oniforme, porque a criação é exemplar e procede de princípios originalmente unidos.
    • Pares como Céu e Terra, Sol e Lua ou homem e mulher eram originalmente um.
    • A conjunção desses princípios produz um terceiro.
    • O terceiro reproduz a imagem do primeiro e a natureza do segundo.
    • A conjunção da mente (manas) e da voz (vāc) gera o conceito (saṅkalpa).
  • A união do Céu e da Terra gera o Filho, o Fogo (Agni), cujo nascimento separa os pais e ilumina o espaço intermediário.
    • O Fogo nasce no espaço intermediário (antarikṣa).
    • No microcosmo o mesmo fogo é aceso no espaço do coração.
    • O Filho permanece no seio da Mãe possuindo todos os seus poderes.
    • Ele atravessa os Sete Mundos e passa pela porta do Sol.
    • A ascensão é comparada ao fumo que sobe do altar.
  • Agni é descrito simultaneamente como mensageiro divino, hóspede nas casas humanas e sacerdote que conduz a oferenda ao mundo além do céu.
    • Agni reside tanto em casas construídas quanto no corpo humano.
    • Ele constitui o princípio pneumático e luminoso da vida.
    • O fogo transporta a oferenda queimada ao mundo celeste.
    • A via que conduz além da abóbada do céu é a “Via dos Deuses” (devayāna).
  • A Via divina é apresentada como caminho que conduz à outra margem do rio da vida e fundamenta simbolismos universais de viagem, ponte e porta.
    • A travessia conduz da margem terrestre à margem celeste.
    • O caminho segue os passos do Precursor.
    • Os símbolos de peregrinação e passagem derivam dessa concepção da Via.
  • As duas metades da unidade primordial podem ser distinguidas segundo perspectivas políticas ou psicológicas.
    • Politicamente aparecem como Sacerdotium e Regnum (brahma-kṣatrau).
    • Psicologicamente aparecem como Si mesmo e não-si mesmo.
    • Correspondem ao Homem Interior e à individualidade exterior.
    • Correspondem ainda aos princípios masculino e feminino.
  • Esses pares são dispares e hierárquicos, pois o princípio subordinado permanece contido de modo mais eminente no superior.
    • O Sacerdotium reúne em si Sacerdotium e Regnum.
    • Exemplos simbólicos incluem Mitrāvaruṇau ou Indrāgnī.
    • O Regnum, isolado, é apenas função subordinada.
    • O Sacerdotium dirige o Regnum como hegemon.
  • A relação hierárquica expressa-se também simbolicamente em termos de sexo e correspondências metafísicas.
    • Mitra corresponde ao para Brahman.
    • Varuṇa corresponde ao apara Brahman.
    • Varuṇa é feminino em relação a Mitra.
    • O sacerdote é masculino em relação ao rei.
    • O rei é masculino em relação ao reino.
  • A mesma hierarquia estende-se à ordem humana e social, na qual o princípio intelectual governa o princípio ativo.
    • O homem está sob o governo conjunto da Igreja e do Estado.
    • O homem exerce autoridade sobre a esposa.
    • A esposa administra o domínio doméstico.
    • O princípio noético determina o que o princípio estético executa.
  • O desordem surge quando o princípio estético se separa da orientação racional e identifica a paixão com liberdade.
    • O princípio estético torna-se escravo das próprias paixões.
    • Essa escravidão passa a ser confundida com liberdade.
  • A aplicação principal dessa doutrina recai sobre o indivíduo, cuja individualidade exterior é feminina em relação ao seu Sí mesmo interior contemplativo.
    • O controle de si mesmo corresponde à submissão do homem exterior ao homem interior.
    • Essa submissão constitui a verdadeira autonomia.
    • A autoafirmação corresponde ao contrário dessa ordem.
  • O retorno a Deus é interpretado por meio de simbolismo erótico que expressa a união do si mesmo com o Si mesmo solar.
    • A união elimina a distinção entre “eu” e “tu”.
    • Śaṅkara explica esse estado pela unidade.
    • Todas as coisas são amadas apenas por amor do Si mesmo.
  • O verdadeiro amor do Si mesmo dissolve a oposição entre egoísmo e altruísmo.
    • O Si mesmo é visto igualmente em todos os seres.
    • Todos os seres são vistos nesse mesmo Si.
    • Meister Eckhart afirma que amar o próprio Si mesmo é amar todos os homens.
    • O dito sufi declara que o amor consiste em tornar-se o próprio outro.
  • O casamento sagrado realizado no coração simboliza simultaneamente morte e ressurreição beatífica.
    • O termo “casar” (eko bhū) significa também morrer.
    • O termo grego teleo significa perfeição, casamento ou morte.
    • Quando cada um é ambos, toda relação desaparece.
  • A beatitude (ānanda) é apresentada como fundamento de toda vida e felicidade.
    • Sem essa beatitude não haveria vida em lugar algum.
  • O processo do mundo é descrito como jogo (krīḍā, līlā) do Espírito consigo mesmo.
    • O jogo é comparado à luz solar que ilumina sem ser afetada.
    • A vida humana é um jogo conduzido por apostas temporais.
    • O amor divino é comparado a jogo em que perder equivale a ganhar.
  • A separação do Céu e da Terra estabelece os três mundos e o espaço etérico intermediário (ākāśa).
    • O espaço intermediário permite a manifestação de possibilidades finitas.
    • Do éter derivam sucessivamente ar, fogo, água e terra.
    • Os cinco elementos formam os corpos das criaturas.
  • Deus entra nesses corpos e divide-se para preencher os mundos como os distintos deuses.
    • As inteligências formam a hoste dos seres (bhūtagaṇa).
    • Esses seres operam em nós como alma elemental (bhūtātman).
    • Esse conjunto constitui o si mesmo consciente mortal.
  • Os seres elementais ignoram o seu Si mesmo imortal.
    • Devem ser distinguidos das deidades imortais chamadas Arhats.
    • Os Arhats alcançaram sua condição por mérito.
  • A Pessoa no coração recebe alimento físico e mental por meio dessas deidades mundanas.
    • A Pessoa interior é também a Pessoa no Sol.
    • O alimento sustenta o processo do ser ao devir.
  • Os poderes que atuam na consciência refletem a providência e a onisciência atemporal do Espírito solar.
    • O mundo não é fonte do conhecimento divino.
    • O mundo é consequência da contemplação divina de si mesmo.
    • A diversidade do mundo é comparada a pintura feita pelo próprio Espírito.
  • O Espírito não se conhece por meio do mundo, mas o mundo surge de seu autoconhecimento.
    • Conhecer Deus por meio do mundo pertence ao conhecimento inferencial humano.
  • A teologia e a autologia são apresentadas como uma única ciência cuja resposta fundamental é a identidade entre o homem e o princípio divino.
    • A resposta à pergunta “o que sou eu?” é “Isso és tu”.
    • Há dois em quem é simultaneamente Amor e Morte.
    • Há também dois no ser humano.
  • Esses dois não constituem dois de Deus nem dois do homem, mas uma única realidade comum.
    • Entre começo e fim o homem aparece dividido entre essência e natureza.
    • Essa divisão faz Deus parecer separado do homem.
  • A relação entre o Pássaro-Sol e o Pássaro-Alma ilustra a dualidade aparente entre espectador e participante.
    • Ambos estão pousados na Árvore da Vida.
    • Um observa e o outro come os frutos.
    • Para o Compreensor os dois pássaros são um.
  • A iconografia representa essa unidade como pássaro de duas cabeças ou como dois pássaros entrelaçados.
    • A diferença entre espectador e participante corresponde à diferença entre liberdade e envolvimento.
    • O participante sofre até reconhecer seu Senhor.
  • Outra imagem compara a constituição do indivíduo a uma roda (cakra).
    • O centro é o coração.
    • Os raios são as faculdades.
    • A circunferência corresponde aos órgãos de percepção e ação.
  • Os dois polos dessa roda correspondem ao sí mesmo profundo e ao superficial.
    • O polo axial permanece imóvel.
    • O polo periférico reage ao contato com a terra.
    • A roda representa o ciclo do devir (bhava-cakra).
  • A confluência das rodas em movimento constitui o samsāra.
    • O fluxo universal envolve mundos e indivíduos.
    • O si mesmo elemental está implicado nesse fluxo.
    • As experiências humanas resultam da operação de causas mediatas (karma).
  • O ponto central da roda permanece independente dessas causas.
    • O ponto está na roda mas não pertence a ela.
  • A presença divina participa também da natureza passível e sofre aparentemente com as ações humanas.
    • O princípio divino entra em nascimentos diversos.
    • Ele experimenta bem e mal, verdade e falsidade.
    • O Senhor é descrito como o único transmigrador.
  • O ato de conceder consciência implica que o próprio Senhor se prende na rede do mundo.
    • A metáfora compara essa condição a pássaro capturado na rede.
    • Essa captura é apenas aparente.
  • A questão da libertação conduz à investigação sobre o que é realmente livre das limitações da individualidade.
    • A individualidade baseia-se na noção de “eu” e “meu”.
    • A libertação é libertação desse “eu”.
  • Somente aquele que jamais se tornou alguém é livre de virtudes e vícios.
    • Libertar-se de si mesmo implica deixar de ser alguém.
    • Permanecer o mesmo impede a libertação.
  • A verdadeira libertação corresponde à realização da identidade “Isso és tu”.
    • Na porta do Sol a resposta correta à pergunta “quem és?” é “tu mesmo”.
    • O sacrifício exprime essa identificação entre sacrificador e vítima.
  • A oração “o que tu és, isso seja eu” exprime a mesma identidade.
    • A questão decisiva da morte é partir no próprio si mesmo ou no Si mesmo imortal.
  • A realização do Si mesmo cumpre totalmente a finalidade da vida humana.
    • O estado alcançado é descrito como kṛtakṛtya.
    • Não resta nenhuma potencialidade por cumprir.
  • A libertação e a imortalidade são apresentadas como realidades realizáveis já nesta vida.
    • O jīvan-mukta não morre novamente.
    • O conhecedor do Si mesmo não teme a morte.
  • O liberado é descrito como homem morto que continua a andar.
    • Ele não ama mais a si ou aos outros como indivíduos.
    • Ele é o Si mesmo em todos.
  • A morte do próprio si mesmo implica também morte aos outros enquanto alteridade.
    • A aparente ausência de egoísmo não resulta de altruísmo intencional.
    • O estado é descrito como de-si-mesmado.
  • O liberado está além de estatutos, deveres e direitos.
    • Torna-se um movedor-à-vontade (kāmacārī).
    • Esse estado é comparado ao movimento livre do Espírito (Vāyu).
    • São Paulo descreve essa condição como estar além da lei.
  • A imparcialidade dos que encontraram o Si mesmo manifesta ausência de amor ou ódio particulares.
    • Essa condição corresponde à exigência evangélica de abandonar pai, mãe e a própria vida mundana.
  • O estado do liberado não pode ser descrito positivamente, apenas negativamente.
    • A expressão de Dante afirma que a transumanização não pode ser significada por palavras.
  • Aqueles que não se conheceram a si mesmos permanecem prisioneiros de suas próprias sensações.
    • A autologia brahmânica é apresentada como ciência autorizada.
    • Tudo o que é estranho ao Si mesmo constitui desastre.
    • Onde não há outro não existe temor.
  • A distinção entre o homem exterior e o Si mesmo interior é indicada pela experiência comum de desconfiar de si ou esquecer-se de si.
    • A consciência de ser permanece válida apesar da identidade individual ilusória.
    • A gnose da deidade imanente pode realizar-se agora.
  • A realidade do princípio divino não pode ser demonstrada em ambiente puramente quantitativo.
    • Contudo não é científico negar hipótese suscetível de verificação experimental.
    • Existe uma Via prescrita para quem deseja segui-la.
  • A exposição conduz da consideração dos princípios contemplativos à consideração da operação sacrificial que permite verificá-los.
    • A passagem corresponde ao movimento da vida contemplativa para a vida ativa ou sacrificial.
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