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NIBBANA
Buddha and the Gospel of Buddhism
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O Nibbana é a meta e o summum bonum para o qual convergem todos os intentos do pensamento budista, equivalente ao Moksha para o brahmânico, ao Tao para o sábio chinês, ao Fana para o sufi e à Vida Eterna para os seguidores de Jesus, sendo que compreendê-lo não significa interpretá-lo racionalmente, pois a especulação é uma das contaminações mortais, mas entender suas implicações para um budista ortodoxo e seu significado nos lábios de Gautama.
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O termo Nibbana tornou-se familiar aos estudiosos europeus antes que as escrituras budistas fossem acessíveis, levando os primeiros escritores ocidentais a interpretá-lo como um estado a ser alcançado após a morte, discutindo sem fim se significava o eterno samadhi ou o aniquilamento absoluto de uma alma, discussão irrelevante porque o Nibbana é um estado a ser realizado aqui e agora, alcançado pelo Buda no início de seu ministério e por inúmeros Arahat.
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O Milinda Panha compara o Nibbana a uma cidade gloriosa, imaculada, pura, eterna, imortal, segura, calma e feliz, mas não é um céu ao qual os homens cheguem após a morte.
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Quem ordena retamente sua vida baseando-a na virtude e na atenção intensa pode realizar o Nibbana onde quer que esteja, seja na Grécia, na China, em Alexandria ou no Kosala.
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O significado literal de Nibbana é extinção ou apagamento, como o de um fogo.
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O exemplo da chama, repetidamente usado no pensamento budista, esclarece o significado técnico do Nibbana: Gautama afirma que o mundo inteiro está em chamas acesas pela paixão, pelo ressentimento e pela ilusão, e a salvação do Arahat consiste na extinção dessas chamas e do desejo de vida separativa, sendo o Nibbana exatamente isso, nem mais nem menos.
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O Nibbana é apenas um dos muitos termos das escrituras ortodoxas para designar a salvação, sendo Vimokha ou Vimutti talvez o mais amplo, enquanto os que obtiveram essa salvação são chamados Arahat e seu estado é chamado Arahatta, havendo ainda outros termos que expressam o fim do sofrimento, a medicina para todo mal, a água viva, o imperecível, o duradouro, o inefável, o desapego e a segurança infinita.
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O Nibbana tem além de seu aspecto ético, que é a cessação das paixões, um aspecto psicológico cujo elemento mais essencial é o desligamento da individualidade, expresso nas oito estações da liberação que vão da percepção das formas externas até a permanência no estado em que tanto as sensações quanto as ideias cessaram de existir.
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O testemunho dos Arahat que alcançaram o Nibbana com Gautama confirma que o estado é caracterizado pela ausência do pensamento de referência a si mesmo, pois o Arahat que conquistou seu desligamento não tem o pensamento de que alguns são melhores, iguais ou menores do que ele, e Sariputta descreve o primeiro jhana como um estado em que nem sequer o pensiero de estar chegando ou tendo emergido o tocou.
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Os Salmos dos Irmãos e das Irmãs no Thera-theri-gatha testemunham os efeitos da experiência do Nibbana na vida, descrevendo o abandono completo da ilusão, a extinção de todo fogo interior e o leve fluir das noites e dos dias na beatitude pura e incontaminada, sendo o pensamento prevalente o prazer mais ou menos estático por ter escapado ao mal, ao desejo, à sensualidade, ao ressentimento, à ilusão e à perspectiva de renascimento em qualquer vida condicionada.
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As similitudes do Nibbana, como luz, verdade, conhecimento, felicidade, calma e paz, são sempre frias e nunca sugerem um arrebatamento estático violento ou uma emoção avassaladora.
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O ensinamento budista ortodoxo é caracterizado pela ausência de qualquer alegria quanto à perspectiva do futuro, pois quem já obteve o summum bonum nada mais pode esperar.
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Gautama recusa expressamente responder a qualquer questão sobre a vida após a morte e condena toda especulação sobre o tema como contraproducente e sem relação com a essência da norma, declarando ao venerável Malunkyaputta que tais questões não tendem à cessação, ao repouso, às faculdades superiores, à sabedoria nem ao Nibbana.
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Os primeiros Arahat, abstendo-se devidamente da especulação, pensavam algo próximo às palavras de Emerson: a alma bem empregada não é curiosa sobre a imortalidade, pois está tão bem que tem a certeza de que continuará bem.
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O Buda declara que o sábio liberado do nome e da forma desapareceu e não pode ser percebido, e quando todas as condições são abolidas, todos os argumentos de discussão são igualmente abolidos.
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A questão de saber se o Nibbana é conservado ininterruptamente do momento da iluminação ao da morte recebe como resposta mais comum a de que o impulso do kamma antecedente é suficiente para fazer perdurar a vida individual mesmo após a cessação da vontade de viver, comparado à roda do oleiro que continua a girar após a mão do oleiro ter parado de empurrá-la, sendo evidente que a liberdade do Arahat ou Jivan-mukta não implica um imediato e permanente desligamento da mortalidade.
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O Buda, embora tivesse alcançado há muito a iluminação perfeita, sofreu graves doenças e foi consciente delas.
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Isso determinou a distinção entre o Nibbana, extinção, e o Parinibbana, extinção completa ou final, que coincide com a morte física.
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O Arahat passou por uma experiência que ilumina toda a sua vida restante, conhecendo as coisas como realmente são e livre do temor e do desgosto, mas a realização contínua da salvação é concebível apenas após a morte, pois o mais elevado arrebatamento estático não pode coexistir com a atividade ordinária da consciência empírica, e as escrituras budistas relatam frequentemente que tanto o Buda quanto os Irmãos entram e saem do mais elevado estado de samadhi.
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O Budismo posterior explica que o indivíduo liberado é libertado de uma vez por todas, e o que resta, o homem que vive e fala na terra, é apenas uma miragem que existe nas consciências dos outros, sem ser sustentado por nenhuma vontade de viver própria.
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O estado do Nibbana ou Vimutti oferece o privilégio de dois mundos, o Cume e o Abismo, sendo o Irmão que tomou posse das Oito Estações da Liberação e erradicou as Contaminações denominado Livre-de-ambos-os-modos, com liberdade de passar de um mundo ao outro a seu querer, sendo absurdo dizer que o Irmão assim libertado não sabe nem vê.
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O indivíduo liberado após a morte não cessa de conhecer as coisas como realmente são, continuando a ver todas as coisas como são, vazias, ao infinito, com sujeito e objeto unificados no Abismo.
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O uso budista e brahmânico dos negativos não pretende que o estado de liberação implique uma perda para quem o alcança, sendo o Nibbana aquela nobre Pérola que ao mundo parece nada, mas que para os Filhos da Sabedoria é Tudo.
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Boehme descreve nos Diálogos o que se entende por Nibbana: quem o encontra encontra um Abismo sobrenatural e supra-sensível sem fundamento nem lugar, comparável ao Nada por ser mais profundo do que qualquer Coisa, e ao mesmo tempo o início, o governo e o fim de todas as coisas, a terra da qual tudo provém e na qual tudo dura.
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