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coomaraswamy:patrono-artista

PATRONO E ARTISTA

  • A palavra normal deriva do latim norma, relacionada ao grego gnomon (esquadra), gignskein (conhecer) e ao sânscrito jñā, assumindo que a natureza e os valores do arte são matérias de conhecimento certo, não de opinião, com São Tomás afirmando que o arte tem fins fixados e meios de operação verificados, e na Índia sendo um corpo de conhecimento a aprender, pressupondo uma visão normal da vida e uma hierarquia de valores, em contraste com a era pós-Renascença onde as grandes obras foram compradas a custa da vida ordinária e a doença do arte é um sintoma de um organismo que precisa ser curado, lembrando Plotino que tudo o que há de buscar-se das necessidades humanas está no Homem Absoluto.
  • Uma visão anormal do arte desenvolveu-se no período clássico tardio e nos últimos quinhentos anos na Europa, afetando a Ásia por contágio e produzindo obras inferiores, ligada a uma prática cristã contemporânea que restringe a ideia de virtude e pecado ao campo moral, ignorando o ensino ortodoxo sobre o artista e submetendo o pensamento e o arte ao controle de Mamom.
    • Na visão moderna, o arte divide-se em decorativo (para usos físicos) e belas-artes (para uso intelectual), e os fazedores em obreiros e artistas.
    • O obreiro tem seu trabalho desprovido de significado e seu tempo livre forçado para coisas mais elevadas, sendo chamado de livre mas podendo escolher entre trabalhar ou morrer de fome.
    • O artista é um tipo especial de homem, distinguido pela sensibilidade, com licença moral correspondente, e espera ser pago sem prestar contas, sentindo-se ultrajado se o patrão rejeita o produto.
    • O artista moderno está emancipado do trabalho degradante, recorre à reprodução mecânica, escolhe seus temas (ideais, não ideias) e é um sentimental, adicto à superstição dos fatos.
    • O crítico moderno valoriza o artista como ininteligível, expressando-se em termos de maravilha inefável, e a presença de qualquer significado preciso é vista como desagradável, como nas observações de Mr. Keynes sobre Blake.
  • Na visão normal do arte, a beleza é afim à cognição e a obra é como uma equação matemática, inútil se ininteligível, sendo uma característica indistinta um valor artístico incompleto, como afirma o Professor Takács, e Tolstoi estava certo ao considerar o arte como essencialmente comunicativo e com valor intelectual e moral, sendo unânime com Platão e Aristóteles na teoria da retórica, pois a fabricação de coisas implica não só destreza mas também propósito reto do homem.
    • Os começos do arte cristã representam um retorno à normalidade desde a decadência clássica, como visto em Santo Agostinho que critica a sofística por buscar ornamento verbal além da responsabilidade com o conteúdo.
    • A época atual recaiu na posição da segunda sofística, pensando a beleza e a verdade como valores sem relação, fazendo das artes artes de adulação, condutivas à vida de prazer, e assumindo que escrituras sagradas, Dante e Platão devem ser lidos por valores estéticos, não como alimento.
    • Devido à inapreensão da ideia de verdade, pensa-se no arte como substituto de coisas, uma aproximação materialista e sentimental que vê o trabalho dos primitivos como anterior ao conhecimento de anatomia, assumindo um progresso ou evolução nas histórias de arte.
    • A compreensão atual considera o arte abstrato dos salvagens e primitivos como um esforço que tendia às capacidades imitativas modernas, supondo que desenhavam assim porque ninguém lhes ensinou uma maneira melhor.
    • O arte é imitativo do que o artista vê, mas esquece-se que aqueles outros podem ter visto algo mais parecido com a Árvore real, da qual se veem só exemplos particulares, ignorando a significação intelectual do iconoclasmo e que uma cruz ou roda podem ser uma pintura do universo mais verdadeira que qualquer panorama.
    • As histórias modernas do arte interessam-se pelas biografias dos artistas e estilos, que são acidentes do arte, substituindo o estudo do arte pelo estudo do estilo, cujas fontes estão na idiossincrasia da qual o artista normal não é consciente.
    • A aproximação ao arte quebra-se diante de períodos normais onde os artistas raramente consignavam seus nomes e ninguém escrevia suas biografias, não se considerando que as artes normais estavam associadas a uma ideologia que exigia liberar-se de si mesmo, e que o estilo do Arquiteto Divino está desprovido de idiossincrasia.
  • O homem é um patrão na medida em que se encarrega a si ou a outros de lhe proporcionar o necessário para a vida, e o artista responde à necessidade com uma imagem mental e o conhecimento de como realizar a obra, assumindo a responsabilidade de satisfazer as necessidades do patrão, sendo o fim geral do arte o homem e a manufatura para o uso.
    • O necessário para a vida difere segundo a natureza da criatura, e o homem, para viver como homem, tem necessidades espirituais e intelectuais, requerendo uma casa vistosa e confortável, não se podendo assinalar nenhum povo incivilizado que pratique dois tipos diferentes de manufatura, um só para o uso e outro só pelo significado.
    • A distinção entre arte fino ou inútil e arte aplicado e útil foi estabelecida só pelos períodos clássicos finais, com a assunção associada de que devem existir duas classes de homens: artistas e trabalhadores.
    • Ruskin afirma que a indústria sem arte é brutalidade, e Platão defende que se faz mais e melhor quando cada um faz uma coisa acorde com seu gênio, o que é a justiça para cada homem em si mesmo.
    • A separação entre arte fino e aplicado e entre artista e trabalhador resulta na privação do cliente, que perde os valores intelectuais do entorno cotidiano, com a produção contemporânea de objetos inofensivos e inexpressivos, enquanto as antiguidades são admiradas em museus.
    • Artesãos hereditários no Ceilão trabalhavam com tal devoção à sua vocação que trabalhavam além do horário, mesmo perdendo dinheiro, e suas obras estão agora em museus.
    • A civilização moderna destrói valores estéticos mais rapidamente do que pode criá-los, e Platão era ativamente hostil a tudo o que hoje se entende por arte e por civilização.
    • Nos tempos pré-Renascimento, o fazedor de coisas era chamado artifex; nos pós-Renascimento, o homem foi cortado em artista que trabalha no estudo e trabalhadores na fábrica, como expresso por Eric Gill, privando ambas as metades da analogia com a perfeição divina.
  • O arte define-se como a maneira correta de fazer as coisas, tendo o artista a posse de um arte para cobrir as necessidades do patrão, com o fim geral do arte sendo o Homem, não o Arte, e o arte permanece no artista como sua consciência, sendo o pecado artístico definido tanto quanto o moral pelos filósofos cristãos.
    • O artista é um homem profissional com um código de honra, e o patrão aficionado que diz saber o que lhe agrada sem saber de arte não é melhor que o que age sem saber o que é correto ou verdadeiro.
    • Em sociedades normais, cada homem é um tipo especial de artista, ganhando sustento com sua pericia particular em uma vocação, que é também seu meio de vida.
    • A ideia de vocação, base econômica normal da civilização, significa que o homem se expressa a si mesmo por sua natureza verdadeira, respondendo quem é pelo seu ofício, e não aspirando a outra ocupação.
    • A vocação é um caminho ou via no sentido religioso, onde o homem pode crescer em estatura espiritual e intelectual através de seu próprio trabalho, alcançando a perfeição em seu tipo, que é a perfeição mesma.
    • Esta visão contradiz o ponto de vista democrático, que não tem concepção de vocação e reduz o indivíduo a um átomo intercambiável, enquanto na sociedade normal cada um cumpre a função para a qual está qualificado por herança e aprendizagem.
    • Ser iniciado no mistério de um ofício significava receber um impulso espiritual que vinculava a atividade do indivíduo a um ordem universal, inteligível interiormente, baseando-se na vocação e dando-lhe significação mais profunda, com o artesão trabalhando de acordo com um patrão cósmico.
    • A vocação devém o tipo de uma atividade que tem correspondências em todos os níveis, inclusive em Deus, cujo ato de ser como criação per artem é o exemplar de cada trabalhador humano.
    • A tradição afirma que os trabalhos de arte são imitações de formas concebidas na mente do artista, que devem aproximar-se das razões eternas.
    • Santo Agostinho afirma que o pensamento racional deve estar sujeito às ideias para julgar como devem ser as coisas, e Santo Tomás que a alma julga pela verdade primeira refletida nela.
    • Wang Wei afirma que primeiro vem a ideia, depois a execução, e Súkrchrya que só por introspecção pode uma imagem fazer-se corretamente.
  • A operação do artista humano incide em duas partes: uma atividade contemplativa e livre (conceber a forma) e outra manual ou servil (manejar as ferramentas para imitar no material a forma concebida), sendo a imitação com respeito à forma intelectual que existe como arte no artista antes e depois da obra.
    • A perfeição da obra julga-se pela correspondência entre a forma essencial e a forma atual.
    • Em períodos normais, o modelo do artista não tinha existência fora de sua própria consciência; a perfeição do arte consiste na clarificação de um significado, não em retrato.
    • Plotino afirma que Fidias não trabalhou o Zeus baseado em modelo dos sentidos, mas apreendendo a forma que Zeus deve tomar se escolhesse tornar-se manifesto à vista.
  • O arte é uma imitação da natureza em sua maneira de operação, uma definição que se presta a confusões devido aos referentes modernos para imitação e natureza, sendo a natureza entendida como Natura naturans, Creatrix, Deus, e não a natureza física.
    • Uma definição oriental afirma que as obras de arte humanas são imitações das obras de arte angélicas, e Plotino diz que os ofícios derivam seus princípios desse reino e do pensamento de lá.
    • Platão entende a imitação como a letra imitando as ideias de rapidez, movimento e dureza.
    • O Mestre Eckhart afirma que para encontrar a natureza como ela é em si mesma, todas as suas formas devem ser destruídas.
  • Na operação criativa do arte, os modos divino e humano são os mesmos: o conhecimento de Deus é causa das coisas assim como o conhecimento do artífice é causa das coisas feitas por arte, trabalhando por uma palavra concebida em seu intelecto, como afirma Santo Tomás, sendo pelo intelecto que um homem pode chamar-se artista, não pela sensibilidade.
    • O artista concebe uma forma que corresponde ao propósito do patrão; então surge a distinção entre operação divina e humana, pois o artista humano deve encarnar a forma em um material já existente, insaciável de forma.
    • Quatro causas contribuem para o ser e natureza de tudo o que se faz por arte: a final (vontade do patrão), a formal (imaginação do artista), a material e a eficiente (mãos e meios do artista), sendo as duas primeiras essenciais e as duas últimas acidentais.
    • Para julgar uma obra contemporânea, não é necessário um crítico ou entendido; Platão afirma que o juiz das lançaderas é o tecelão, e o juiz dos barcos é o piloto.
    • A verdade formal da obra só pode ser julgada pelo artista, pois a forma subsiste essencialmente em seu intelecto.
    • Em sociedades unânimes, artista e patrão são de mentalidade semelhante, compartilhando o propósito do trabalho e a linguagem estilística, podendo ambos julgar a servibilidade e a expressividade da obra.
    • Para compreender obras antigas ou exóticas, é necessário considerar o objeto como o patrão e o artista o consideraram, entrando em seu país, compreendendo o que tinha que ser dito para saber se foi bem dito.
    • Os métodos acadêmicos atuais são inadequados; é preciso fazer o que o fazedor e o usuário fizeram, pois o conhecimento secundário e analítico resulta em insinceridade, como no gótico moderno ou na pintura de Whistler sob influência japonesa.
    • Só da teoria e do conteúdo, não da aparência do arte em períodos normais, há algo a aprender.
    • A criação não significa compor desde princípios preexistentes, mas trazer o composto ao ser ao mesmo tempo com todos os seus princípios.
  • A explicação científica do arte exige o conhecimento do terreno religioso e espiritual em que veio ao ser; só um cristão pode explicar o arte cristã, assim como só o matemático explica uma equação.
    • Os estetas limitam-se a dizer se os símbolos compõem um bonito conjunto.
  • Na visão normal do arte, a atividade do fazer nunca tem a beleza como meta ou fim; a obra de arte é sempre ocasional, para fazer algo definido, não qualquer coisa, e o artista não discute sua beleza, mas sim se a coisa foi feita bem e verdadeiramente.
    • O filósofo é quem considera a coisa feita e pode chamá-la bela, perguntando o que se entende por beleza como princípio, não como tipo.
    • A beleza do filósofo não é o que agrada, pois como diz San Agustín, a alguns agradam as deformidades; os juízos baseados em prejuízo ou hábito são éticos, não artísticos.
    • Mais além dos gostos, há uma beleza intelectual que pode ser reconhecida em coisas física ou moralmente desagradáveis, como armas bem proporcionadas para um pacifista ou corpos desnudos para um monge.
    • A beleza de uma coisa é função de seu bem-estar; uma coisa será bela na medida em que é realmente o que se propõe que ela é, independente dos valores, sendo um hipopótamo tão belo quanto um homem em seu gênero.
    • Cada coisa pode ser bela só em seu próprio modo; só o informal é feio, e uma coisa feia não pode ser embelezada com ornamentos.
    • A condição da beleza, que não depende do gosto, define-se pela perfeição ou precisão, pela proporção ou harmonia das partes, e pela iluminação ou claridade que inclui a inteligibilidade.
      • A perfeição mede-se pela correspondência entre a coisa e a ideia que estava no artista antes da obra.
      • A harmonia é o ordenamento das partes, determinada pelo uso e pela imitação das relações cósmicas, sendo a encarnação das proporções cósmicas característica das artes sagradas.
      • A iluminação é uma luz intelectual que brilha nas partes proporcionadas da obra, uma radiação da forma que brilha através do material.
  • A beleza não é a razão de ser da obra, mas uma fonte de deleitação que atrai para aquilo que é belo, sendo a função da beleza convocar à ação, conduzindo à verdade, como Dante na Divina Comédia que visava conduzir os homens da miséria à felicidade.
    • Toda obra de arte verdadeira é didática nesse sentido, e o artista sério não quer ser elogiado pela maneira e ignorado pelo conteúdo.
    • O artista normal só tem interesse no bem da obra a ser feita, entregando-se ao tema sem reserva, não assinando a obra nem aspirando a estar em museus, sendo sobre tudo um homem prático.
    • A atitude do pintor em relação a um ícone é a mesma que a do ferreiro em relação a uma espada: fazer bem e assumir que o patrão saberá usá-la, sendo a compreensão do adorador mais profunda que a do esteta.
  • Os valores intelectuais do arte são expressivos, não sensíveis nem representativos; a beleza da expressão convida a tomar posse de seu conteúdo, e considerar a obra como fim em si mesma é idolatria ou fetichismo.
    • Todo arte é imitativo com respeito à forma, que não é um objeto demonstrável, mas um modo do intelecto do artista.
    • Dante afirma que nenhum pintor pode retratar uma figura se primeiro não se fez a si mesmo tal como a figura deve ser; ao pintor indiano se requer que se identifique com a forma a ser representada.
    • Plotino expressa que o artista toma a forma ideal sob a ação da visão enquanto permanece potencialmente ele mesmo.
    • Um simbolismo adequado forma a base de todo o arte tradicional, um linguagem comum empregado em todo o mundo, cuja negação subjaz na inestabilidade do arte moderno.
  • O artista medieval tinha uma concepção de originalidade diferente; as artes tradicionais são plagiárias, esforçando-se por ser verdadeiras, não originais, com o autor sendo anônimo e o arte sendo expressão da mente do povo como um indivíduo, como observa Child.
    • O artista folclórico, repetindo o mesmo design geração após geração, trabalha em um nível de referência mais alto que o homem de invenção privada, pois as formas pertencem a um sistema de simbolismo mais alto que o humano.
    • O Professor Morey afirma que os estilos acadêmicos desde o século XVII, divorciados da beleza e da verdade, não reconhecem inspiração mais alta que a mente humana.
    • O significado dos símbolos foi esquecido, mas eles continuam a ser usados como se dotados de vida própria, como a coluna jônica e a moldura do ovo e o dardo, que tiveram significação dogmática.
    • As formas do arte tradicional não eram determinadas por uma estética, mas por uma necessidade intelectual; são formas da verdade antes de serem formas do sentimento.
  • Todas as doenças do arte atual dependem da falta de acordo sobre uma verdade absoluta ou lei eterna a ser expressa; não havendo nada de importância suprema a dizer, o arte devém um luxo meramente sentimental.
    • A verdade do arte implica a verdade do homem; todos os povos têm o arte que merecem.
    • Quando o homem procede do absoluto, não empiricamente, pode efetuar-se a justa composição dos relativos.
    • Toda música é imitação da música das esferas; quando esta não é mais audível, a música terrenal devém discordante.
    • Na visão normal, as artes e ofícios, ordenadas a fins humanos, são de origem suprahumana, como no Êxodo onde se manda fazer todas as coisas segundo o modelo mostrado no monte.
    • A parte mais essencial da criação artística é o ato contemplativo de apreender a forma imitável, uma atividade do intelecto com leis precisas, as mesmas da devoção.
    • A beleza, a bondade e a verdade são aspectos de um único princípio; quem supõe que podem possuir-se por separado fica encerrado por seus próprios gostos e aversões.
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