coomaraswamy:retrato

CONCEPÇÃO TRADICIONAL DO RETRATO IDEAL

  • A confecção de imagens divinas obedece a prescrições canônicas conducentes ao mundo celestial e afasta a representação de semelhanças humanas, princípio atestado no Sukranitisara, na prática javanês-cambojana de deificar ancestrais e no Pratimanataka, cujas efígies inibem o reconhecimento familiar por Bharata ao exibirem a deificação em vez do aspecto terreno.
    • Estatuetas votivas indianas tardias de doadores configuram-se como imagens divinas indistinguíveis de ídolos sagrados ou carecem inteiramente de peculiaridades fisionômicas individuais.
    • A tradição dramática indiana abriga simultaneamente uma arte secular profana devotada à captação da semelhança exata com o sujeito vivo para estritos fins sociais e eróticos.
  • A coexistência histórica na Índia de um retrato póstumo, hierático e ideal com uma vertente profana, sentimental e calcada na vida real possui paralelos exatos na tradição europeia, assentando-se ambos na distinção radical entre a aparência física externa e a verdadeira imagem ontológica interior.
    • A dicotomia entre o aspecto exterior fenomênico e a essência espiritual invisível equivale à diferença entre as superfícies estéticas e a imagem puramente mental descrita no Lankavatara Sutra como uma pintura destituída de cores materiais.
  • A natureza da essência espiritual, segundo a doutrina da Chandogya Upanishad formulada no diálogo entre o Progenitor, Indra e Virocana, afasta taxativamente a identificação do verdadeiro eu imortal com o reflexo físico adornado projetado na superfície da água.
    • A ignorância aprisiona Virocana na satisfação com a aparência corporal, enquanto a iluminação permite a Indra compreender que o corpo mortal funciona apenas como receptáculo do atman imortal.
    • O Bhagavad Gita e a epístola aos Hebreus no cristianismo fundamentam a perfeição na distinção irrevogável entre o sujeito cognoscente e o campo de cognição, operando a separação definitiva entre a alma animal e o espírito.
  • A realização integral da pessoa transcendente de Buda pressupõe a constituição transformativa de todas as partes do ser, configurando o retrato ideal de um corpo místico ilustrado na Parábola dos Pintores do Uttaratantra de Maitreya.
    • O relato do Divyavadana corrobora a transcendência da imagem divina ao descrever a incapacidade dos pintores da corte de Rudrayana de capturarem a feição de Buda, exigindo a projeção de uma sombra celestial sobre o tecido para guiar os traços materiais.
    • A pintura verdadeira materializa a essência das entidades relativas e exige a conjunção indispensável de virtudes como a Caridade, a Moral e a Paciência, transcendendo a simples aplicação de pigmentos pictóricos.
  • O Corpus Hermeticum testemunha a presença dessa mesma distinção europeia entre a aparência externa e a realidade interna do iniciado, descrevendo o renascimento espiritual de Hermes na mente como a dissolução de sua forma material e corpórea.
    • A figura corporal de Hermes desvincula-se de sua nova identidade puramente intelectual, tornando-se radicalmente invisível para os olhos físicos e não regenerados de seu filho Asclepios.
  • A incapacidade do não regenerado Asclepios de enxergar o próprio pai em sua nova configuração espiritual espelha com exatidão a doutrina da Chandogya Upanishad e o obscurecimento visual de Bharata no Pratimanataka.
    • A identidade essencial e transcendente do indivíduo supera as limitações do ego empírico perceptível pelos sentidos.
  • A recusa de Plotino em permitir a execução de seu retrato físico, documentada por Porfírio, baseia-se na percepção do corpo humano como uma imposição limitadora da natureza e na rejeição da arte figurativa como uma redundante imagem de outra imagem.
    • A aparência orgânica encarnada carece de nobreza ontológica que justifique o esforço de sua perpetuação visual para o espetáculo da posteridade.
  • A proclamação crística no Evangelho de São João de que enxergar o Filho equivale a enxergar o Pai remete com exclusividade à essência espiritual invisível, e não à figura histórica e fisicamente tangível de Cristo.
    • A unidade consubstancial entre o Filho e o Pai anula a relevância da constituição biológica e exterior do mestre encarnado.
  • A confecção de um retrato físico do apóstolo João pelo pintor contratado por Licomedes, narrada nos apócrifos Atos de João, provoca a reprovação do benfeitor ressuscitado diante da veneração devotada à imagem em altares privados.
    • A adoração do retrato rodeado por guirlandas e lamparinas suscita questionamentos sobre a permanência de resquícios de idolatria pagã na conduta do discípulo.
    • A tentativa de Licomedes de justificar o culto baseia-se na crença de que os guias espirituais e benfeitores encarnados devem ser reverenciados como representações divinas terrenas.
  • A confrontação do retrato material com o reflexo em um espelho evidencia para o apóstolo João que a imagem pintada capta exclusivamente a roupagem carnal transitória, revelando-se inapta para acessar ou representar o verdadeiro eu.
    • Os pigmentos materiais, o gesso, a cola e a representação de estados temporais passageiros como a juventude ou a velhice operam exclusivamente no plano da visão corporal e periférica.
  • A execução da verdadeira pintura humana demanda as cores espirituais concedidas por Jesus, convertendo atributos como fé, conhecimento, temor a Deus, mansidão, bondade e amor fraternal em instrumentos curativos e ordenadores da alma.
    • O retrato estritamente carnal e orgânico resulta em uma obra pueril que se limita a delinear a semelhança morta de um elemento já destituído de vida suprema.
  • A refutação do valor da semelhança orgânica pelo Mestre Eckhart ratifica a tradição do retrato ideal ao definir os traços físicos como acidentes da natureza, exigindo a aniquilação dessas aparências fenomênicas para a revelação da verdadeira forma originária.
    • A reprodução anatômica de sujeitos como Conrado ou Henrique não atinge a imagem do homem universal, pois a verdadeira fisionomia humana reside na cópia exata de Deus operante no interior da criatura.
    • Entidades biológicas triviais, a exemplo de uma flor ou de uma pulga, adquirem perfeição superior à do cosmos inteiro quando integradas e percebidas na inteligência divina atemporal.
  • A introdução do sofrimento episódico, do realismo cadavérico e das máscaras mortuárias no final da Idade Média inverte a ordem metafísica, subordinando o intelecto formador à vontade emotiva e assinalando o triunfo de uma consciência europeia aprisionada no fetichismo anatômico.
    • O retrato sepulcral impessoal do século doze, estudado por Jitta-Zadoks, e o Cristo coroado e sereno da crucificação, descrito por Bréhier, materializavam a superioridade da essência sobre a fatalidade biológica.
    • O naturalismo focado na verossimilhança terrena afasta-se das teses de São Tomás de Aquino, Mestre Eckhart e Ruysbroeck, que atrelavam a perfeição humana à obliteração do apego à alma inferior sensitiva em prol do espírito.
  • A virada de perspectiva na Renascença trocou a fixação na presença espiritual interior pelo apego ao presente histórico fenomênico, substituindo a infinitude da essência transcendente pelas flutuações acidentais do ego empírico e psíquico.
    • O rebaixamento da estatura humana despojou o indivíduo de sua onipotência intelectual originária, enquadrando-o como um animal sofisticado movido por conhecimento instintivo e estimativo.
    • A arte canônica deificava o primeiro homem essencial, enquanto a formulação figurativa moderna consagra as limitações orgânicas do animal encarnado.
  • A impessoalidade e a serenidade da arte cristã medieval e oriental decorrem do pressuposto cognitivo pelo qual a criação não advém da observação empírica distanciada, mas da transmutação existencial do artífice naquilo que deverá ser plasmado.
    • O humanismo contemporâneo, alicerçado no estudo da natureza morta e no uso rotineiro de modelos vivos para pose figurativa, carece de jurisdição intelectual para julgar o esvaziamento egóico demandado pela fatura tradicional.
  • A iconografia cristaliza a substância invariável da arte e a subordina inexoravelmente à teologia formal, operando como a linguagem técnica de uma via contemplativa cuja imitação vazia pelas escolas modernas não passa de um plágio de esquemas visuais desprovidos de contexto.
    • O antropólogo Mallinowski corrobora a tese de que os termos técnicos de uma disciplina prática só revelam seu sentido genuíno mediante a imersão viva e efetiva do sujeito nas metodologias dessa busca.
    • A apreensão legítima da manufatura artística antiga depende imperativamente da superação da atitude estética reativa, exigindo do observador o alinhamento intelectivo preconizado por Platão com a causa final e formal compartilhada originalmente pelo artista e pelo patrono.
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