ISLÃ
* A teologia escolástica muçulmana (mutakallimun) desenvolveu um atomismo temporal, no qual o tempo é composto de átomos (ahoras) inextensos e sucessivos, separados por vazios, e a causalidade é substituída pela ação direta e momentânea de Allah, único agente real, criando e recriando continuamente os acidentes que não duram dois átomos de tempo.
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O mundo é feito de átomos sem quantidade, existindo num vácuo, e o tempo é composto de ahoras (anát) que não podem ser subdivididos.
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Os acidentes são inseparáveis dos átomos e não duram dois átomos de tempo; Allah os cria e recria a cada instante.
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Allah é o único agente (asl kar) na existência; a causalidade é eliminada em favor da operação imediata, momento a momento, de Allah.
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A percepção sensível do movimento como contínuo é uma ilusão; a razão demonstra que o tempo é atômico e o movimento consiste em saltos e repousos.
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Nota 1: Esta doutrina não é aristotélica, mas baseia-se nas paradoxos de Zenão; não é a doutrina do “instante” indivisível dos sufis.
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Nota 2: A noção de agência humana (“eu faço”) é falaz do ponto de vista islâmico, védico e budista, referindo-se ao engano egocêntrico (ahamkara, mana); o determinismo absoluto (jabr) é uma heresia, pois mandatos e proibições implicam livre arbítrio; o verdadeiro ato é referível a Deus, único agente; o homem é livre para cooperar ou não com Deus (co-operador).
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Nota 3: Macdonald relaciona os átomos de tempo dos mutakallimun com os de Aristóteles, mas estes são sem extensão, enquanto os átomos materiais dos mutakallimun têm posição mas não volume.
* Macdonald, baseando-se em Maimónides, apresenta o atomismo islâmico (ash'arita) como uma doutrina de átomos de espaço e tempo inextensos, com posição mas sem volume, separados por vazio absoluto, numa sucessão de momentos que não se tocam, aniquilando a causalidade e a maquinaria do universo; no entanto, esta visão é irracional e ingriega, e não representa a doutrina sufi do tempo.
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A palavra jauhar (gauhar), originalmente “gema”, significa “substância” (ens, essentia) na filosofia, e para os atomistas significa “átomo” (parte que já não pode partir-se mais), às vezes chamado “separado” (fard).
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Ibn Hazm rejeita os “átomos separados” e adota a substância aristotélica, afirmando que Allah dá existência perpetuamente a cada entidade em cada momento (waqt).
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Al-Ghazali, cuja influência triunfou, rejeita o esquema atômico e adere à corrente aristotélico-platônica.
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Maimónides, na Guide for the Perplexed, descreve a doutrina dos mutakallimun (seguidores da Palavra, al-kalam), não a sua própria, e observa que eles não compreendiam a natureza do tempo.
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Macdonald afirma que o 'Ilm al-Kalam (teologia escolástica atomista) é a contribuição mais original do islam à filosofia, remontando a Demócrito e Epicuro e aos paradoxos de Zenão.
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A doutrina ash'arita de átomos de tempo inextensos, com vazio absoluto entre momentos sucessivos, aniquila a causalidade e torna o movimento impossível, sendo irracional e não representando a filosofia sufi.
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Nota 4: Gauhar como “gema” corresponde ao sânscrito mani, usado absolutamente (Om mani padme hum) ou no plural para designar substâncias ou entidades, analogamente ao uso de “Ser” e “seres” ou “Palavra” e “palavras”.
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Nota 5: Referência de Macdonald à sua obra Development of Muslim Theology.
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Nota 6: Questionamento sobre a originalidade islâmica do atomismo se derivado de Demócrito e Epicuro.
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Nota 7: Os saltos da manilha do relógio não são movimentos de tempo; ocorrem em breves durações de tempo, que é contínuo.
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Nota 8: Referências de Macdonald a Horten e De Boer sobre as origens do atomismo islâmico.
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Nota 9: Macdonald sugere uma origem budista para o atomismo islâmico, baseado em Jacobi e Dasgupta; a doutrina sufi do momento (waqt) poderia ter-se derivado de fontes budistas, mas não necessariamente.
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Nota 10: Sobre as limitações do método histórico (René Guénon): doutrinas metafísicas não “evoluem” e textos tradicionais são registros de ensinamentos orais antigos, sem autor definido.
* Em contraste com o atomismo dos mutakallimun, a doutrina sufi (tasawwuf) do tempo, exposta por al-Hujwiri no Kashf al-Mahjub, concebe o “tempo interior” (waqt) como aquilo pelo qual o homem se torna independente do passado e do futuro, um estado presente (andar waqt) de felicidade com Deus, onde o “Tempo” é uma espada cortante que separa as raízes do passado e do futuro.
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O conhecimento do tempo (waqt) e de suas circunstâncias incumbe a todos.
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O tempo tem aspectos externos (prática da religião) e internos (verdadeira cognição), que não devem divorciar-se.
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Waqt, em seu sentido interior e absoluto, é aquilo pelo qual o homem se torna independente do passado e do futuro.
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Os possuidores do waqt afirmam ser felizes com Deus no presente (andar waqt); a preocupação com o amanhã vela Deus.
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O estado de ser entre o passado e o futuro é a mais preciosa das coisas humanas.
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O “Tempo” (o Agora) é uma espada cortante que corta as raízes do futuro e do passado, eliminando a preocupação com ontem e amanhã; é o devorador do tempo.
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Nota 11: Referência à edição de Nicholson do Kashf al-Mahjub.
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Nota 12: O Tempo como espada cortante relaciona-se ao Logos Tomeús (cortador) e à espada da Palavra de Deus (Hebreus 4:12) que separa alma e espírito, e à espada de Dhū'l-fiqar que “mata antes de morrer”.
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A experiência do “Tempo interior” pode encontrar-se ou perder-se; o waqt tem necessidade do hal (condição ou estado), sendo por ele embelezado e subsistindo.
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Quando o possuidor do waqt entra em possessão do hal, torna-se estável (mustaqim) e não está mais sujeito à mudança.
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Quem está no estado do devir (mutakawwin) pode esquecer-se; sobre o que se esquece desce o hal e torna-se estável o waqt.
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Jacob tinha o waqt (alternando entre separação e união); Abraão era um possuidor do hal (não consciente de separação ou união).
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O “Tempo interior” é o instante de iluminação, comparado a um destaque de relâmpago; quando a luz é constante, o instante devém todo o tempo e o Sol “nunca se põe”.
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Nota 13: Hal (condição) implica a resposta real do experiente à iluminação momentânea, distinguindo-se de maqam (estação permanente).
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Nota 14: Kaun é “devenir”; a palavra criativa kun é o imperativo “Devén”, não “Sê”.
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Nota 15: Referências a obras sobre a iluminação instantânea e o momento intemporal.
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Nota 16: O Sol que nunca se põe (remissão à nota 6 do capítulo sobre Hinduísmo).
* Jami, nas Lawa'ih, resume a doutrina de Ibn al-'Arabi: o universo consiste em acidentes de uma única substância (a Realidade subjacente), que se renova incesantemente em cada momento e sopro, sendo um universo aniquilado e outro em sua semelhança ocupando seu lugar, numa sucessão tão rápida que engana o espectador, que crê numa existência permanente; a revelação (tajalli) do Ser Verdadeiro jamais se repete em dois momentos sucessivos sob o mesmo fenômeno.
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O universo consiste em acidentes pertencentes a uma única substância, a Realidade subjacente a todas as existências.
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O universo renova-se incesantemente em cada momento e em cada sopro; a cada momento um universo é aniquilado e outro em sua semelhança ocupa seu lugar.
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A rápida sucessão engana o espectador, que crê numa existência permanente.
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O ser do mundo é uma onda que dura um momento e no seguinte tem que partir.
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Os homens de conhecimento discernem um oceano cujas correntes giram e batem, e aprendem a operação oculta da Verdade na força que opera dentro do oceano.
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O Ser Verdadeiro jamais se revela em dois momentos sucessivos sob o disfarce do mesmo fenômeno.
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Nota 17: Referência à tradução das Lawa'ih por Whinfield e Kazwini.
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Nota 18: Comparação com o hino de Isaac Watts sobre o tempo como corrente que leva seus filhos, e com o conceito de “Aurora” (fajr) como luz da Epifania Divina e ponto de encontro do dia e da noite (passado e futuro).
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R. A. Nicholson resume a doutrina de Ibn al-'Arabi: os fenômenos mudam e são criados de novo perpetuamente, enquanto Deus permanece imutável; a série infinita de individualizações é uma tajalli (iluminação) eterna e sempre presente que jamais se repete, não havendo nenhum momento de não-ser entre os sucessivos atos de criação.
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Distinção crucial entre a doutrina de Ibn al-'Arabi e a dos atomistas ash'aritas: estes admitiam uma realidade independente das mónadas momentâneas, enquanto Ibn al-'Arabi não admite nenhum secundum quid, nem mesmo que dure um momento.
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Esta distinção corresponde àquela entre atomismo materialista e o princípio do tempo ou espaço atômico sem duração ou dimensões, portanto imaterial.
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Nota 19: Referência aos Studies in Islamic Mysticism de Nicholson.
* Rumi, no Mathnawi, expõe a doutrina sufi da renovação momentânea do mundo a cada sopro (nafas), imperceptível devido à rapidez da ação divina, que apresenta a longa duração como uma aparência; a causalidade, porém, opera continuamente, encadeando eventos passados e futuros numa sucessão produtiva onde toda causa é mãe e todo efeito, ao nascer, torna-se causa.
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O mundo é apenas um momento (sa'at); a cada instante o homem morre e retorna.
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O mundo renova-se a cada sopro (nafas), mas a continuidade aparente engana; a vida chega sempre nova, como a corrente de um rio.
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A rapidez do movimento (como a chispa que se gira) faz parecer contínua a longa duração, que é uma aparição causada pela rapidez da Ação Divina (subitaneidade do Espírito Santo).
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A analogia da chispa representa o Agora da Eternidade, único, qualquer que seja sua posição aparente na linha do movimento incessante.
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Todo o círculo da criação (bhava-cakra) começa e acaba num único ponto: a Essência de Deus, percebida sob a forma de extensão; um destaque de Iluminação Divina (tajalli) revela o Uno como os Muitos e os Muitos como o Uno.
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A existência momentânea dos acidentes ('arad) não exclui a operação contínua da causalidade, que encadeia eventos passados com futuros.
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Os acidentes são transitoriamente noutra apariência; a recorrência de toda coisa mortal é outra existência.
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Todas as partes do mundo são o resultado do acidente; uma causa produz um efeito, que por sua vez se torna causa, numa sucessão produtiva (o mundo e o outro sempre dando nascimento).
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A operação da causalidade é oculta (khafa), não vista claramente.
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Nota 20: O momento (sa'at) é também a Ressurreição (as-sa'at), como o eka-ksana-sambodhi budista.
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Nota 21: Paralelos com Heráclito, a corrente budista que nunca descansa, e a “corrente contínua de sucessão sempre fluente” de Santo Agostinho.
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Nota 22: O mundo está prenhe das causas das coisas ainda não nascidas (Santo Agostinho).
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Nota 23: Oculto (khafa) corresponde ao sânscrito adrishta.
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O homem que transcende o espaço e em quem está a luz de Deus não tem relação com passado, futuro ou presente; sua existência no tempo passado ou futuro é relativa ao observador; ambos são o mesmo para Ele.
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O momento (waqt) é uma espada cortante, e o sufi é um “filho do Momento” (ibnu 'l-waqt), não lhe sendo permitido dizer “amanhã”.
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Mil anos passados e mil anos futuros estão presentes (naqd) no Momento em que se é.
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Os sufis acreditam que a cada momento um mundo ('alam) é aniquilado e sua semelhança instantaneamente trazida à existência, devido aos atributos opostos de Deus (Muhyi, “O que dá a vida”, e Mumit, “O que dá a morte”).
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A “yo-idade” vem de Deus momento a momento, enquanto se vive; a cada instante o Amado assume uma nova vestidura.
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Nota 24: Os atributos opostos de Deus (Misericórdia, jamal, e Majestade, jalal) são a raiz do mistério da realidade momentânea das existências; seus reflexos neste mundo são chamados bem e mal, existência e morte.
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Nota 25: Origem da “yo-idad” (ahamkara) e das vestiduras (BG, Fédon, Mestre Eckhart).
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O sufi, “filho do Momento”, não se reduz à necessidade de considerar o amanhã; ele é do Rio (a indivisível continuidade do mundo espiritual, onde todas as coisas coexistem num Agora eterno), não do tempo.
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Com Deus não há manhã nem tarde; passado, futuro, tempo sem começo e tempo sem fim não existem.
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“Filho do Momento” significa a negação das divisões dos tempos, assim como “Deus é Um” significa a negação da dualidade, não uma descrição da natureza da Unidade.
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O vir e partir incessante dos pensamentos, sem cessar nem um instante, manifesta fenomemicamente uma única Essência imutável e permanente.
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O tempo é uma imitação da eternidade, o devenir uma imitação do ser, o pensamento uma imitação do conhecimento.
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Nota 26: O “Rio” é a fonte, não a corrente do tempo; “um brunnen in der gotheit” que flui em todas as coisas na eternidade e no tempo (Mestre Eckhart).
